Essa é uma obra poética, como é toda a escrita de Carrascoza, mas nos contos presentes nessa obra temos uma pitada de realismo. Alguns contos recebem finais em aberto, como em "Travessia", onde do outro lado da fronteira pode haver morte e sofrimento ou uma vida nova; também em "Manobras", narrativa centrada em Pedro, um porteiro, o final em diz respeito a sua índole, se ele irá permanecer honesto ou se escolherá outro caminho. "Duas tardes", conto que dá nome a obra, narra duas tardes em dois tempos, Pedro e Toninho, irmãos, estão em uma cozinha e também em suas infâncias, o fluxo narrativo é formidável. Não há nada de complexo, tudo nessa obra é banal, mas epifânia lírica de Carrascoza desnuda a realidade trazendo doçuras e amarguras do cotidiano. A narrativa que serve de "metonímia" à escrita de Carrascoza é o conto de encerramento, "Preto e Branco", uma narrativa sobre a relação afetuosa entre avô e neto. Eles assistem a filmes preto e branco, fazem coisas simples: permanecem um na companhia do outro. Carlitos, o tio, dizia "Tanta coisa melhor pra fazer e vocês aí assistindo filme preto e branco", ao que o avô retrucou "Há mais cores no preto e branco do que ele imagina". A prosa poética de Carrascoza é isso, o preto e branco, o cotidiano em epifânia lírica.