Antes de ler esse romance tinha lido dois contos do autor Samuel Cardeal; um deles, presente no pequeno e-book de contos Todo Dia é Dois de Novembro, me surpreendeu positivamente e me fez ter vontade de procurar outros textos de sua autoria. Foi então que me deparei com seu mais recente lançamento (o autor tem três livros publicados, dois de maneira independente) pela Editora Cata-vento: a obra de ficção científica Flashback – Duas vidas em rota de colisão. Comecei o livro com uma certa expectativa, mas confesso que me decepcionei; com uma escrita imatura e personagens pouco envolventes, o livro não convenceu.
Em Flashback conhecemos Mark357, ou simplesmente Mark, um cidadão comum que vive em um mundo bem diferente do nosso: nele, as pessoas vivem em níveis, alguns deles sem acesso à luz do sol, e trabalham em jornadas insanas, transportando-se por tubos controlados e alimentando-se de pílulas totalmente sem graça. A população é controlada pelo governo e há uma tecnologia avançada, também controlada. Mas Mark é um hacker e sabe como acessá-la, pelo menos parte dela. Mesmo assim, ele vive razoavelmente bem e acomodado em sua rotina até que é acometido por estranhos pesadelos, que acabam por transtorná-lo e forçá-lo a procurar ajuda profissional. É então que descobre que seus sonhos são mais que isso: são lembranças e, para se curar, ele precisará retornar ao passado, através de métodos nada convencionais de viagem no tempo do um psiquiatra quase maluco.
Há dois pontos extremamente positivos nesse livro: o universo, criativo e bem construído, descrito em detalhes bastante intrigantes, e a trama, que mistura viagens no tempo e outras vidas, sem cair no aspecto religioso do tema. É possível até que você pense “mas viagens no tempo é um tema esgotado e perigoso”, e realmente é, mas Samuel Cardeal abordou o tema de maneira original e surpreendente. Além disso, a sinopse realmente me deixou intrigada e curiosa, mas, infelizmente, os pontos positivos terminam aí.
Logo de cara é possível perceber uma certa imaturidade na escrita. É evidente que o autor teve pouca paciência e não soube dosar os momentos certos de entregar as respostas para o leitor; à medida que o livro gerava dúvidas e questionamentos, também respondia prontamente a todas eles, logo em seguida, às vezes até no mesmo capítulo. Isso me causou uma grande frustração durante a leitura, já que a trama ficou quase desprovida de mistérios, e eram frequentes os momentos em que eu me desligava do livro, sem nada que me prendesse a ele ou me desse vontade de prosseguir a leitura. Para completar essa sensação, os términos de capítulos são anti-climáticos, sem ganchos que instiguem o leitor, utilizando recursos batidos como “e o personagem adormeceu”.
Eu disse quase porque houve sim um suspense que o autor carregou até, pelo menos, a metade do livro (e talvez isso seja um spoiler, se não quiser saber, pule para o próximo parágrafo), que foi o motivo pelo qual Mark foi condenado à morte por assassinato em sua vida anterior. No entanto, quando esse motivo foi revelado, fiquei decepcionada: excessivamente simples, a trama foi pouco elaborada, o que novamente foi frustrante.
A partir daí o livro caminha para o lado da ação, em sequências um pouco confusas, mas esse não é o maior problema. São os personagens: eles não têm profundidade, nem mesmo o protagonista. Todos parecem artificiais e falham ao tentar envolver e cativar o leitor, que logo perde o interesse por eles. Em tempo, os vilões são extremamente estereotipados e quase cômicos, assemelhando-se a caricaturas. Mas o que realmente me entristeceu foi o fato de que as mulheres são bastante renegadas na obra; também estereotipadas, elas não têm nenhuma história ou voz próprias, basicamente figurando no livro para cumprir funções específicas na trama, como serem vítimas ou amantes. Ou as duas coisas juntas.
A edição, no entanto, foi caprichada, com uma capa chamativa e condizente com o tema, e um papel ligeiramente amarelado e confortável para a leitura; apenas senti que o tamanho da fonte estava um pouco pequeno, mas as margens com bom espaçamento compensaram o desconforto.
Com todos esses problemas, Flashback – Duas vidas em rota de colisão foi uma leitura complicada e cansativa. Fica a torcida para que o autor desenvolva mais sua escrita e amadureça sua condução de trama e personagens, uma vez que tem boas ideias.