Falar de Fúria Lupina – Brasil é falar de lobisomens, de folclore, de ecologia... É violência, ódio, sangue e vísceras... É falar, principalmente, do bicho-homem, o predador voraz cuja racionalidade remete às atitudes mais irracionais possíveis. Mas vamos lá, falarei por partes!
O livro está muito bem escrito, a despeito de alguns erros de revisão que se tornaram mais visíveis no decorrer da leitura. Não são exagerados, mas estão presentes. Algumas redundâncias (“há muito tempo atrás”, por exemplo) e alguns errinhos básicos de digitação (como alguns “ss” comidos em um ou outro plural), um "mal" no lugar de "mau", só para citar exemplos. Mas de maneira geral, uma boa edição. A ilustração do lobo está linda e a capa é muito pertinente e criativa. Uma edição caprichosa até nos detalhes, como os “arranhões” separando trechos num mesmo capítulo. Lindo!
A leitura é fluida, dinâmica desde o início. Um livro gostoso de ler, com capítulos separados por núcleos, o que me fez lembrar Stephen King (principalmente em Desespero). A despeito do que vi em alguns comentários, os capítulos não são histórias independentes, mas núcleos de personagens que estão interligados. Estilo que muito aprecio. As cenas de ação são intensas, de tirar o fôlego desde as primeiras páginas quando o autor, com muita propriedade, narra a primeira metamorfose.
A violência é narrada sem eufemismos. Muito sangue, membros decepados, tripas espalhadas pelo chão... A ideologia do “olho por olho” é amplamente disseminada ao longo do livro, porém, o autor – enquanto narrador – não toma partido, deixando para o leitor a escolha de um lado, a aprovação ou não de atitudes regadas a uma vingança desmedida. O sexo é inserido na dose certa, sem vulgaridade, ora de maneira repugnante e violenta, ora de maneira terna e romântica.
Os personagens... Ah, os personagens... Todos muito bem construídos e cativantes, desde o caçador ensandecido até o líder da Alcateia Global. Não dá para não odiar Hell Vansing e não amar a complexidade com a qual ele foi criado. Sua determinação beirando a loucura e obcecação deixa o leitor perplexo, espumando de raiva tanto quanto os lobos. E a torcida para que seu fim seja lento e doloroso é inevitável. E a peeira... Que linda! Uma personagem muito bem trabalhada, profunda, intrigante e absurdamente carismática. Impossível não amá-la.
Green Death é um caso à parte. A organização ecoterrorista chegou para mostrar os dois lados de uma mesma moeda. Sangrenta moeda, diga-se de passagem. Muito sangrenta!
O enredo une diversas críticas e, como o próprio autor mencionou, a leitura possui camadas. Crítica a uma sociedade autodestrutiva, gananciosa e hipócrita, cujas minorias são massacradas constantemente pelo simples fato de serem minorias.
Segue um trecho da fala de um padre sobre uma família em Cuba:
“– Vejam bem, não é simplesmente a questão de estarem atacando ou não o povo daqui. Eles são seres do mal, e sua simples presença traz mau-agouro.” (pág. 127)
Isso mostra claramente a hipocrisia e imoralidade com a qual a Igreja, de maneira geral (sem entrar no mérito das religiões), trata seu “rebanho”. Não importa se são inocentes ou não. O que importa é manter os fiéis com cabresto, mansos, banhados em superstições e crenças irracionais.
Em outra passagem o autor cita com muita inteligência a hipocrisia referente ao amor incondicional pregado na Bíblia (pág. 42), inserindo questionamentos que todos deveriam ter.
A ideologia do “olho por olho, dente por dente”... Essa questão é bem complicada e é o alicerce do tema em Fúria Lupina. Como disse anteriormente, o autor não toma partido e deixa a decisão para o leitor. Eu, em sã consciência, sou contra essa ideologia, mas no livro ela é colocada com tal paixão que nos faz acreditar ser a única alternativa. Às vezes me pego pensando que sim, deveria existir um predador capaz de sobrepujar o poder do – até então predador de topo – ser humano.
A crítica não para por aí. O ser humano tornou-se algo desprezível e descartável em Fúria Lupina. Segue um trecho sobre um incidente no bairro da Barra Funda envolvendo Dante e alguns delinquentes:
“No final das contas, a polícia não mostrará empenho nas investigações e arquivará o caso como não solucionado, afinal são pessoas que não farão a menor falta à sociedade.” (pág. 153).
Até que ponto criminosos não farão falta? E não farão falta para quem? Para a sociedade como um todo? Para suas famílias? Seus pais, seus filhos? E se uma sociedade não possui seu lado podre, quem terá capacidade para descobrir seu lado bom? E, a despeito da cena supracitada (que não entrarei em detalhes para não soltar spoilers), criminosos são crias de uma sociedade desigual, fria e cruel, na qual uma minoria elitista tira as oportunidades das massas, e estas precisam sobreviver com o que a própria sociedade ensinou: tirando dos mais fracos.
Além de críticas ecológicas, sociais, políticas, religiosas, Fúria Lupina – Brasil vem carregado de referências das mais diversas, característica do autor, mostrando toda sua cultura de décadas de leitura, de filmes “trash” e boa música.
Não posso deixar de falar que Fúria Lupina é o tipo de leitura que sempre quis ler (o que me faz parecer uma entusiasta). Alfer Medeiros, autor jovem, culto e muito criativo, não é apenas mais um a escrever fantasia sem nexo e sem conteúdo. Não é apenas mais do mesmo, mais uma historinha de terror que fechamos o livro quando acabamos e pronto, mais um monte de papel caído no ostracismo. Alfer Medeiros tem humildade e uma outra coisa que falta na grande maioria dos escritores de Literatura Fantástica: ele tem algo a dizer!!!
O que? Se Fúria Lupina tem algo de negativo? Obviamente, toda obra é passível de melhorias. No caso de Fúria, não seria diferente: me deixou extremamente ansiosa para ler a continuação!
Ok, brincadeiras à parte, a única coisa que não gostei foram as explicações em demasia. Algo que eu, particularmente, não aprovo numa leitura. Mas nem isso tirou todo o prazer que tive em, finalmente, encontrar um livro da nossa LitFan nacional com conteúdo.
Não preciso dizer que recomendo, né? =)