A solidão, o desespero, a desilusão, o afeto inesperado... Caio Fernando Abreu trabalha, em seus contos, os impasses vividos por uma geração que sofreu muito, mas que também amou muito. Criador de uma literatura corajosa, o autor enfrentou os estigmas de seu tempo e fez uso de uma linguagem que mistura prosa e poesia, rompendo com os padrões. Construções ideológicas inovadoras combinam-se a inovações estéticas e dão o toque essencial da literatura desse grande escritor. Dentre os diversos aspectos que se destacam nas 10 histórias desta antologia, temos a problemática do isolamento do indivíduo em face de uma realidade estranha e alheia aos seus sentimentos. Seus personagens operam tentativas de criar uma nova realidade, que dê vazão ao seu mundo interior - tentativas efêmeras, frustradas, em vão. Às vezes, nas relações afetivas se estabelecem o isolamento e a incomunicabilidade: a palavra não dita na partida; o par que sofre rejeição de colegas por serem homossexuais; o casal que já não tem mais o que dizer; o rapaz adoentado que tenta se abrir com a mãe sobre sua sexualidade e suas angústias e não consegue; a relação trágica de uma solitária menina com seu gato de estimação; os desencontros em uma grande cidade. Por vezes, a solidão traz lembranças ternas e tristes; noutras, faz com que se perceba a sensaboria de uma comemoração - ou vai ainda mais longe, e leva à percepção da própria miséria física e moral.
Além do Ponto e Outros Contos -
Caio Fernando Abreu
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Caio Fernando Loureiro de Abreu
Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago, no Rio Grande do Sul. Jovem ainda mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou ambos para dedicar-se ao trabalho jornalístico no Centro e Sul do país, em revistas como Pop, Nova, Veja e Manchete, foi editor de Leia Livros e colaborou nos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. <br /><br />No ano de 1968 — em plena ditadura militar — foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tendo se refugiado no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst, na periferia de Campinas, São Paulo. <br /><br />Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões normais. <br /><br />Em 1973, querendo deixar tudo para trás, viajou para a Europa. Primeiro andou pela Espanha, transferiu-se para Estocolmo, depois Amsterdã, Londres — onde escreveu Ovelhas Negras — e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, sem parecer caber mais na rotina do Brasil dos militares: tinha os cabelos pintados de vermelho, usava brincos imensos nas duas orelhas e se vestia com batas de veludo cobertas de pequenos espelhos. Assim andava calmamente pela Rua da Praia, centro nervoso da capital gaúcha. <br /><br />Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo. Volta à França em 1994, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu Bien Loin de Marienbad. <br /><br />Ao saber-se portador do vírus da AIDS, em setembro de 1994, Caio Fernando Abreu retorna a Porto Alegre, onde volta a viver com seus pais. Põe-se a cuidar de roseiras, encontrando um sentido mais delicado para a vida. Foi internado no Hospital Menino Deus, onde posteriormente veio à falecer.



