Este foi o meu primeiro contato com o escritor belga Georges Simenon e só posso dizer que foi uma grande surpresa! Nunca imaginei encontrar algo desse nível num romance de literatura policial.
"Pietr, o letão" não só magnetiza o leitor com uma trama instigante, mas também nos brinda com um estilo requintado à la Tchékhov. Simenon possui a primorosa habilidade de nos passar imagens detalhadas dos lugares descritos sem pecar no excesso de palavras. Suas escrita visual e nítida, associada a uma exímia concisão, lembra bastante o estilo tchekhoviano. Na verdade, arrisco dizer que Simenon tem mais que um estilo visual: é sinestésico. Há uma vívida evocação de imagens, sons, texturas e cheiros. A ficção transforma-se em algo palpável.
Outro ponto positivo é a complexidade das personagens. Elas não se reduzem a meras molas de impulso da história ou como peças organizadas num jogo de xadrez. Não! As personagens jamais são pretextos para alavancar uma historinha de assassinatos. Elas são profundas, humanas; sustentam-se por si só sem o auxílio do enigma de um crime. É uma literatura policial psicológica. Com minúcia, pequenos detalhes: um olhar enviesado, o tremular das mãos, um jeito de andar, qualquer uma dessas coisas serve de acesso para o estado interior das personagens - Tchékhov mais uma vez.
Com isso, Simenon parece ter maior interesse nos dramas humanos do que na trama do romance policial em si. Talvez essa seja uma possível explicação de existirem fãs de literatura policial que não apreciem tanto esta obra: leitores mais ligados ao entretenimento geralmente se prendem muito ao enredo/trama e pouco dão crédito a detalhes mais sutis. Óbvio, há exceções e diferentes tipos de gosto. No meu caso, achei ótimo! Recomendo fortemente!