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Uma escola assim, eu quero pra mim

Elias José, Agostinho Gisé
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Senhora D. 10/10/2010

Em seu livro "Nas arte-manhas do imaginário infantil", a escritora Fátima Miguez discorre sobre o uso da literatura no ensino básico tomando como um dos exemplos o livro "Uma escola assim, eu quero pra mim", de Elias José.

[Pág. 29]

"A história começa descrevendo uma situação ainda muito comum. O cenário é a sala de aula e os personagens tipificam essa escola tradicional, onde o aluno-personagem, o protagonista Rodrigo, chega à escola, "doidinho para aprender a descobrir os segredos que havia no encontro das letras", conforme nos informa o narrador. A professora-personagem, dona Marisa, autêntica representante dos valores do passado, prefere investir na cobrança dos exercícios e na punição dos erros. Ainda compondo essa cena inicial, nessa turma de alfabetização, encontramos, também, o objeto livro sendo utilizado de forma mecânica através da cartilha, livro menos atraente.
O personagem Rodrigo, que veio do interior para a cidade com uma história de vida diferente dos amigos da escola, foi o maior prejudicado nessa imposição do saber. Foi, inclusive, desrespeitado pela própria professora. E, com isso, "ele não conseguia ler, escrever ou entender por que 'Ivo viu a Eva'. 'A Eva viu a uva'. 'Didi deu um dado ao Dodó'... 'A bola bateu bem na boca do Beto'. Tudo era tão chato e duro, pior do que dobrar a língua para falar problema. (...) Sentia-se menor, mais magrinho e ignorante, queria desistir da escola, voltar para o sítio", segundo nos conta o sujeito da narrativa. Até que, numa das cenas de autoritarismo da professora, que resultou na punição de Rodrigo, ele juntou seus objetos e saiu voando da classe". No portão da Escola acabou encontrando a diretora que o convenceu a voltar, pois dona Marisa ia sair de licença e seria substituída por uma nova professora, dona Celinha.
Aqui começa, então, um outro movimento narrativo, a escola tradicional com sua proposta estereotipada de ensino da leitura, representada por dona Marisa, vai ser deslocada e, em seu lugar, surge a escola construtivista, portadora de novos procedimentos em relação à leitura.
Dona Celinha, porta-voz dessa nova proposta educacional, na visão do narrador "chegou, magra e pequenina, dizendo ôi, sorrindo, dando bom-dia (...) falou da beleza que era saber ler, viajar com os livros, suas personagens e histórias encantadas". E, mais adiante, ainda observa o narrador "Dona Celinha escolheu um dos livros e leu gostoso. Parecia mesmo uma viagem. Os seus olhos vivos corriam a sala. A voz engrossava ou afinava de acordo com a personagem (...) Ria, espantava-se e fazia a turma gargalhar, quando acabou, todo mundo perdeu a vergonha inicial e pediu mais histórias. (...) Nos outros dias todos, dona Celinha lia histórias e poemas. Inventava sempre mil formas de ensinar".
Logo, através do livro e da sua integração com a própria vida, a personagem dona Celinha ia priorizando o imaginário de seus alunos, possibilitando, assim, a construção da leitura dentro de uma relação afetiva-prazerosa. Destaca-se, também, a importância dada às atividades relacionadas as artes que são sempre, na narrativa, motivadas a partir da leitura de uma história infantil.
E, assim, Rodrigo e seus colegas passaram a vivenciar a leitura como ato coletivo, social e, também, como experiência individual. A partir do livro literário e no processo da leitura, a sala de aula virava "teatro, floresta, país muito frio ou muito quente". E, ainda, conforme o narrador "histórias mudaram de fim. Personagens de dois ou três livros se misturaram." Muita vriação, recriação, recreação e alegria passaram a fazer parte do dia-a-dia daquele grupo escolar. E, com esse clima espontâneo, Rodrigo teve a oportunidade de recobrar sua identidade, sua história de vida e "contou histórias vividas com caboclos, vacas, bezerros, família e plantas."
E, para finalizar, dona Celinha, professora substituta, teve que se despedir da turma com muitos "choros, reclamações e abaixo-assinados dos pais". De volta à classe dona Marisa que, segundo o narrador, "entrou na sala de aula mais solta com a cara feliz", encontrou sua turma mais unida e reivindicando mudanças. A professora, observa o narrador, "viu que teria de inventar novos caminhos..." E, aderindo á prática já incorporada ao grupo, de leituras de histórias na sala de aula "foi ficando menos grande, depois quase criança. Muito bonita, doce, e feliz em ensinar". Ela também aprendeu que ler é ver com os olhos e o coração livres para ver e sentir.
A leitura do texto literário, situada assim, no espaço intermediário entre ler e o viver, passou a seu um dos meios daquelas crianças-personagens escaparem das cobranças clicherizadas da Escola tradicional, para alcançarem outros caminhos de leitura do mundo. trazendo à luz o velho e o novo na sala de aula, simbolizadas pelas professoras Marisa e Celinha, o texto metaforiza a importância da renovação no sistema educacional brasileiro.
Só libertando o imaginário da criança é que ela conseguirá descobrir as várias possibilidades de conhecer e interpretar a vida, as pessoas, o mundo... A leitura enquanto ato individual, espontâneo e interior não deve ser manipulada como dever de sala de aula, pelo contrário, ela deve ser expressão de um sentimento íntimo de prazer. É o prazer de ver, ler e descobrir o mundo através da Literatura.
Uma escola assim, que adote uma prática literária democrática, é o que se quer para todas as crianças."
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