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Laranja Mecânica

Anthony Burgess
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Vanessa Isis 24/08/2010

Certo. Acho que sou doente. É a única explicação plausível para explicar o tamanho do carinho desenvolvido por Vosso Humilde Narrador, Alex. Tudo me prendeu nessa história, a forma como é escrita, os acontecimentos em si, o jeito que Alex compreende e reage às coisas, o vocabulário utilizado e até a ultraviolência. Minha mais profunda admiração a Anthony Burgess por tamanha criatividade e por uma história tão "horrorshow". Uma ótima pedida para quem está cansado de historinhas comuns.
Daniela 21/03/2014minha estante
Também devo ser doente kkkkk não tem como ter um carinho pelo Alex. Esse livro sem dúvidas tornou-se meu preferido, aquele que mesmo depois de um certo tempo, não o esquecemos.


Sil 21/03/2014minha estante
Pois acho que sou a única pessoa saudável desses comentários entao rsrs, terminei de ler o livro agora mesmo e posso dizer com todas as minhas forças: eu odeio o Alex, senti raiva dele o tempo todo e ficava feliz quando ele se dava mau. Queria muito que ele e seus "drugues" tivessem um final terrível!!!!! Nada disso aconteceu, para a minha grande tristeza...Porém, como escrito no comentário principal acima: este não é um livro comum.
Isso não significa que não gostei do livro...achei o livro "horrorshow", Burgess foi muito criativo.
Sem mais :)


Fernanda 28/06/2013minha estante
Também sou viciada em Laranja Mecânica, li o livro, e o filme ilustrou maravilhosamente bem a história! Sou devidamente uma doente também! Sem dúvida, o melhor livro!


Renata 30/05/2013minha estante
Então somos doentes, porque até saudade do Vosso Humilde Narrador eu estou sentindo.Eu indico zilhares de vezes, toda a história é apaixonante, de fazer querer ler 300 vezes.


Marcia 26/02/2013minha estante
Pelos comentários, não vejo a hora de ler este livro!


Guilherme Tomás 04/11/2012minha estante
Se gostar do livro é sinônimo de doença, somos doentes! Mas se amar o livro significa algo ainda pior, tenho más notícias para nós!


Oggione 31/08/2012minha estante
Há uma certa complexidade inicial na leitura desse livro. Confesso que o deixei de lado por três vezes, pois não conseguia terminar o primeiro capítulo. Mas minha vontade de lê-lo foi bem maior e acabou ganhando (ainda bem), porque logo que eu me habituei a sua linguagem, a leitura fluiu de forma extraordinária. Um ótimo livro, uma obra prima! Somos todos doentes, ó meus irmão.


Alex BS 20/03/2012minha estante
Também acho Alex o carisma em pessoa! Ele é puro, por mais loucas e depravadas que sejam suas ações. Um dos melhores livros que eu li na vida. É difícil não sair falando como o Alex depois de ler!


Tarciso 05/12/2011minha estante
Sim, de doente e Alex todos temos um pouco. Ótimas palavras Vanessa, muito "dobi", é difícil ler laranja e não sentir certo afeto por Alex, Anthony Burgess consegue, miticamente, nos transportar para aquele cenário e logo colhemos uma série de elementos que dão sentido às ações de nosso anti-herói.


Bruna 04/05/2011minha estante
Adorei a resenha! Sou doente também, rs.
O Alex é um personagem extremamente cativante, nunca consegui ter raiva dele.
No filme, Kubrick não escolheu ator melhor para interpretá-lo. Acho Malcolm a simpatia em pessoa.




Rômullo 01/02/2010

"Então, o que vai ser, hein ?"
A obra de Burgess é fascinante por embora ter sido escrita em 1962 é contemporânea. O modo de narrar do jovem Alex é envolvente e mesmo ele sendo um completo criminoso que estupra mulheres não conseguimos sentir raiva ou ódio dele. O livro ainda possui a linguagem 'Nadsat', cercada de gírias, o que torna a leitura um tanto quanto confusa, mas brilhante e muito "horrorshow"!

"Todo ser humano tem direito de escolha. Se uma pessoa não tiver a liberdade de escolher o mal, tampouco terá liberdade de escolher o bem. Não importa se a pessoa opta pelo mal ou pelo bem, o que importa é se ela tem a liberdade ou não de poder escolher.

É melhor ter as ruas infestadas de assassinos do que negar a cada um deles a liberdade de optar".

O que o livro transmite é a incapacidade do Estado de compreender os criminosos, no caso, as gangues de adolescentes que, por puro prazer, destroem, roubam, estupram e matam. O maior exemplo dessa incompreensão é o fato de Alex, o adolescente protagonista, cometer altos crimes e, simultaneamente, amar a música clássica de Beethoven e ler a Bíblia.
De fato, o Estado e talvez o próprio ser humano, não compreendem a verdadeira natureza dos homens e sequer as consequências das suas próprias decisões.

Até mesmo nós estamos amarrados em camisas de força, nossos olhos estão abertos sem possibilidade de fechá-los e ainda somos obrigados a fazer o que o sistema nos impõe. A cada dia nosso direito de escolha, de contestação e nossa capacidade de despreendimento e raciocínio crítico nos são tirados.

A violência não será curada por lavagem cerebral. Não adianta tranformar criminosos em "laranjas mecânicas", como máquinas, tirando-lhes o direito de escolha. A técnica ('Ludovico') usada no jovem Alex é a pura síntese do Totalitarismo e de como esse tipo de governo não se importa com a liberdade de expressões e ideias. O tratamento de usar imagens de ultraviolência para curar a violência do indivíduo é totalmente contraditório.

O Mal está em todos nós, inclusive naqueles que pretendem acabar com ele.

"Quando um homem deixa de escolher, deixa de ser um homem."
Ninha Machado 14/10/2014minha estante
Cara, sua resenha foi "horrorshow". Apenas fazendo um à parte sobre o comentário abaixo; não achei que na sua resenha você descreve o Alex como um criminoso "menos pior" por gostar de música clássica, pelo contrário, você enfatiza essa nossa falta de compreensão ao comparar um ato bom com um ato ruim vindo da mesma pessoa. O legal de o autor ter incluído no Alex essa peculiaridade, é que nos faz refletir que por mais ruim que uma pessoa seja, ela sempre terá algo de bom dentro de sí


Lulu 16/06/2013minha estante
Discordo da sua resenha em alguns pontos, mas tenho que admitir que foi muito bem escrita. Antes de continuar, queria pedir desculpa pelas faltas de acento e cedilha, pois nao sei como coloca-los pelo ipad.
Inicialmente, gostaria de comentar sobre o que voce tinha dito, de que pelo fato de o narrador gostar de musica classica e ler a Biblia ele poder ser considerado um criminoso "menos pior". Considero que Burguess fez o personagem Alex de forma que pudesse ser cativante a ponto de eu sentir-me como ele em algumas ocasioes, mas isso em nada se relaciona com ler a Biblia ou com o tipo de musica que ele escuta (alem de que as partes que Alex gostava da biblia eram as violentas e que tinham "o velho entra e sai").
A segunda coisa que discordo do seu comentario foi o modo como analisou o tratamento Ludovico; ao meu ponto de vista pouco se relaciona com o Totalitarismo, mas sim com o Behaviorismo. O proprio narrador tinha se oferecido como cobaia para este tratamento. Entretanto, concordo com o que voce disse, "nao adianta transformar criminosos em laranjas mecanicas", pois o Alex nao deixou de ser alguem com instinto criminoso, apesar de nao poder mais exerce-lo por se sentir mal; a bondade eh o homem que escolhe. Alias, o tratamento de usar imagens de ultraviolencia (com a musica que ele gostava como forma de punicao) e as "vitaminas" injetadas no narrador antes baseavam-se no ato de ele associar a violencia com algo ruim, pois era o que a sociedade considerava como resposta positiva a ocasiao; sendo assim, nao era totalmente contraditorio, simplesmente baseava-se em um metodo Behaviorista radical (onde o comportamento eh tratado por estimulos positivos e negativos).
O filme laranja mecanica tambem relaciona-se com o pensamento de Durkheim sobre a criminalidade na sociedade (fato social e etc).


Ana Alice 25/01/2012minha estante
Que resenha fascinante... ! *_*
Você é talentoso! oowoo

Haha, agora já sei que livro pedir de aniversário ¬¬ Valeu, aê ^^


summer 20/01/2012minha estante
Wow!ótima resenha.Realmente trasmite tudo o que eu pude sentir quando o terminei.


Raffa 12/07/2011minha estante
Falou exatamente o que eu queria falar mas não sabia como.

Excelente visão sobre a narrativa, parabéns, ótima resenha!


Felipe 22/02/2010minha estante
Adorei a resenha, me dispertou interesse em ler esse livro. Parabéns pelo modo como escreveu, está ótimo *-* Quando der vou ver se pego esse livro pra ler =D


AStefan 04/02/2010minha estante
Quando eu ler o livro, comento melhor


Constantinne 01/02/2010minha estante
Meu..você é bom nisso!!!




Acnaib 27/12/2010

Horrorshow
No começo a leitura me pareceu um malenk bizumni. Devido às gírias nadsat, eu me sentia um pouco perdida naquele mundo horrorshow que é o de Alex e cia. "Naquele", eu disse? Apesar de uma obra destópica simulando uma realidade futura, eu senti que muito da ironia e sujeira da história de Burgess é relacionada ao hoje.
A ultraviolência se faz sentir através da escrita do autor, que depois de uma certa "ambientação" flui muito agradavelmente, Ó, irmãos.
Outro ponto a se ressaltar é como o livro é cuidadosamente bem estruturado. Dividido em três partes, que por sua vez dividem-se em sete capítulos cada. Essa divisão deixa muito claro a "linha do tempo" do nosso protagonista Alex e demonstra sua evolução e amadurecimento.
Uma leitura que deve ser feita em alguma parte da vida, porque é realmente muito horrorshow e aquela kal total. Não, kal não, leitura celestial.
Nathália V. 28/11/2012minha estante
e a tradução é muito bem feita, vale mencionar.


Tito 10/04/2011minha estante
Essa devotchka, tipo assim, sabe das coisas, Ó, irmãos. :-)




gugaavila 04/07/2011

Descascando a Laranja Mecânica
A obra Laranja Mecânica, escrita em 1962 por Anthony Burgess, traz consigo uma originalidade e um brilhantismo sem igual. Nesse livro, Burgess retrata uma Inglaterra futurista infestada de gangues e violência. E é nesses pontos que a Laranja Mecânica se destaca de outras ficções científicas, pois aproxima de uma realidade bastante perceptível para o leitor.
Ao ler a obra, é inevitável não se surpreender com o protagonista Alex. O jovem conta sua história de maneira bem informal, aproximando ainda mais o leitor do livro, deixando-o, praticamente, íntimo de Alex.
Alex, de fato, é um jovem muito controverso e altamente complexo. Tem os princípios de um revolucionário, louco, gênio, mas para o Estado ele é só mais um perturbador da ordem e para a sociedade não passa de um jovem mal educado e ingrato aos pais. Na verdade, Alex é mais um que não se encaixou na sociedade, não compreendeu as regras ou simplesmente ignorou-as. Como diria Raul Seixas Ninguém é igual. Mas a civilização, através dos séculos, não respeitou a integridade do homem, criando leis absolutas e tentando impor uma vontade comum a todos. Isso é a mesma coisa que entrar numa sapataria e mandar o sujeito só vender um número de calçado, sem respeitar aqueles que possuem os pés menores. E se o sapato escolhido não cabe em nossos pés, nós somos de qualquer forma obrigados a usá-lo. E usamos.. Nesse caso, Alex preferiu não usar, e descalço levou sua adolescência à sua maneira, fazendo o que lhe agradava e não se importando com o resto da sociedade, que, segundo o nosso protagonista, não dava a mínima para ele também.
Alex demonstrava um gosto refinado para música, diferente de seus druguis (amigos) e outros adolescentes. Apreciava música clássica, em especial Ludwig Van Beethoven. Além disso, tinha o dom de liderar. Sua inteligência e força o credenciavam como o líder de sua gangue. E por menor que seja seu grupo de comando, sempre haverá aquele que vai querer derrubar esse líder. Com Alex não foi diferente, traído pelos seus amigos, o jovem acaba preso, retratando assim a ânsia do homem pelo poder ou então a agonia do homem em ser comandado.
Na visão do The New York Times, a Laranja Mecânica é uma sátira brutal das distorções das mentes individuais e coletivas. Qual a real natureza do ser humano? Porque é tão mais fácil pensar numa coisa ruim do que o contrário? Será que só fazemos o que é certo por causa das leis que nos regem? Afinal, quem disse o que é certo? O que é certo? No livro conseguimos analisar de uma maneira bem chocante, assim como nas nossas vidas, a pressão constante sobre as pessoas, o estresse generalizado, o desejo de vingança e a capacidade de guardar rancor e ódio que cada ser humano tem.
Laranja Mecânica.O título por si só já é algo bastante impactante e de forma que ao ler a história pode ser interpretado de diversas maneiras. Quando Alex é preso e passa por um processo de lavagem cerebral a partir de substâncias injetadas e outros meios de alienação terapêutica realizadas pelo Governo, o jovem é então impedido de escolhas éticas como o bem e o mal, o certo e o errado, pois todas suas atitudes tinham de ser boas ou então seu próprio corpo reagia de forma negativa consigo mesmo, sentindo dores e enjôos. Para o Estado o método foi uma maravilha, pois não importa o que você pensa, quais seus desejos, desde que esses não se manifestem. Trazendo para a nossa realidade, vemos as pessoas assim também, tantos desejos e revoltas que ficam guardadas, mas não às manifestamos, muitas vezes para não se incomodar, manter um pouco de tranqüilidade em nossas vidas, fruto da grande alienação que fizeram conosco. Como uma laranjeira dando sempre frutos iguais, nem um pouco mais doce, nem mais amargo, todos mecanizados. Laranjas mecânicas.
Enfim, Laranja Mecânica por si só é espetacular devido a grande variedade de interpretações. Sua leitura é muito subjetiva e cada um guarda pra si o que conseguiu chupar dessa Laranja. Temas impactantes, polêmicos e controversos são retratados nessa obra-prima de Anthony Burgess, que apesar do tempo continua tão atual como nunca.
Recomendo!
SG1 11/02/2014minha estante
Que resenha maravilhosa! Conseguiu me cativar mais que o próprio livro.


Mari Ferginari 30/11/2013minha estante
Adorei sua resenha, a melhor que li por aqui. De fato, o livro nos leva a refletir sobre a questão do que é o bem e do que é o mal e o quanto podemos ser laranjas mecânicas em nossas vidas sem nem nos darmos conta disso. Certamente um livro marcante para qualquer um que se aventurar a lê-lo e tentar compreendê-lo.


raaizac 16/09/2011minha estante
Ótima a sua interpretação sobre o livro! Parabéns!




Bill 03/10/2010

Robozinho obediente.
O tema deste livro é o livre-arbítrio.

Este livro refere-se a um jovem delinquente e extremamente violento que o Estado colocou em um "processo educacional" severo e experimental, a fim de devolvê-lo à sociedade saudável.

Ele passou por um tipo de lavagem cerebral em que a consequência era sentir enjôo, fraqueza, dores terríveis, vontade de desmaiar e etc toda vez que estava diante de qualquer tipo de violência (até mesmo quando mencionavam perto dele a ideia de matar uma mosca), era uma sensação tão terrível, que o jovem sentia como se fosse morrer, por isso, ele se esforçava por ter pensamentos antiviolência. Por exemplo, se alguém ameaçava bater nele, ele não oferecia resistência alguma a isso, não se defendia (defesa é violência), inclusive colocava-se voluntariamente em situações humilhantes, como lamber a bota de quem o agredia com o objetivo de fazer com que não o espancassem, por exemplo.

Isso, então, significava que ele se tornou uma pessoa melhor?

Não.

O bem foi imposto a ele, não foi sua escolha, por isso ele não era sincero em sua bondade recém adquirida, mas era forçado a ser bom por causa do "programa" colocado em sua mente, esse programa o punia toda vez que apenas pensava em violência.

Esse jovem usava muitas gírias e, em sua linguagem, ele dizia que tornou-se uma "Laranja Mecânica": um objeto inanimado que se move mecanicamente, sem vida.

Ele não mudou seus valores, sua mente continuava a mesma que sempre foi, mas ele era obrigado a ser bom contra sua vontade.

É óbvio que tal sistema trouxe problemas.

Leitura interessante.
Bruno Oliveira 19/03/2013minha estante
Oi, Bill, de nada, acho bem legal debater, sempre me faz ver coisas que eu não veria por mim mesmo.

Vou comentar o que disse numerando os parágrafos que estou a considerar.

3-4 - Eu acho que a liberdade é uma das questões centrais, porém, não a colocaria como o foco, pois ela surge mais depois da prisão, havendo toda uma discussão anterior sobre a violência e o Estado. A liberdade começa a ser problematizada depois que o livro mostrou que a "natureza humana" conduz a tantos problemas que atingir uma de suas manifestações pode até se tornar uma escolha aceitável para um governo ineficiente.

O problema do livre arbítrio que aludi é o seguinte: livre arbítrio é normalmente pensado como possibilidade (e não liberdade) de um arbítrio entre situações determinadas; enquanto liberdade é pensado como escolha dentre possibilidades indeterminadas. No primeiro caso aquilo que podemos escolher já está dado, no segundo caso não. Não se trata tanto de escolher dentro de um âmbito moral que limita e explica as possibilidades, mas simplesmente de escolher.

É mais um problema de contaminação teórica do termo, porque normalmente o livre-arbítrio é pensado como escolha entre as possibiilidades que deus ou a moralidade dá, mas, enfim, não é uma questão muito importante, entendo o que quer dizer.

5- Agora essa parte de Bem é mais complicada de afirmar.

Não sei se entendo o que você quer dizer com bem ser um conceito lógico, então vou comentar mais a ideia posteriores a isso e mostrar os problemas que percebo nisso.

No seu exemplo do ladrão concordo que ele não deseja que aquilo que pratica seja repetido contra si, no entanto, isso não implica numa ideia moral de bem. O ladrão pode não querer ser assaltado simplesmente porque isso é inconveniente, danoso, afinal, subtrai-lhe seu dinheiro, assim como também não quero levar um raio na cabeça e nem por isso penso que o raio é uma coisa moralmente má. Nos dois casos não preciso de uma ideia de bem moral (a menos que você esteja pensando o bem como utilidade ou coisa do tipo), não está em questão o que é moralmente bom fazer, mas o que ajuda ou fragiliza o ladrão.

6- Sobre essa coisa de conceitos universais, a resposta é que, no melhor dos casos, depende... Principalmente se o seu "etc" for muito grande. Um conceito ser lógico (estou pensando em algo como "quadrado" ser lógico e "bola quadrada" ser ilógico) não implica sua universalidade. Átomo é um conceito lógico, mas nem todas as culturas o tiveram, por exemplo, ele tem sua origem historicamente datada.

Acho que um antropólogo radicalizaria minha posição e diria simplesmente que não há conceitos universais, mas eu simplesmente não sei.

O problema da afirmação da universalidade é que para comprovar isso sempre tentaremos ler as outras culturas segundo nossos próprios par?metros. Por exemplo, podemos falar de "cultura", mas há povos que não tem essa palavra, não tem esse conceito e nem representam o que fazem da mesma maneira que nós e sequer aceitam se ver assim, embora o que pratiquem certamente seja uma cultura (do nosso ponto de vista). Isso só mostra que estamos tentando buscar identidade de nossos princípios com os alheios e que, ao invés de valorizarmos a singularidade deles, o que são em si mesmos, pensamos suas culturas como aquilo que temos em comum e de diferente (nos pondo como parâmetro, portanto), como uma espécie de cálculo avaliativo que supervaloriza as semelhanças e desvaloriza as diferenças porque afirmar nossa similaridade é conveniente. Deus é um conceito universal? Bem, mal também? Se pensarmos na nossa concepção de mundo e assim partimos para encontrar similaridades dela com outras, sim, mas isso só diz que no fundo nunca saímos de nosso próprio conceito e estamos o reforçando sem olhar as singularidades dos outros.

O mesmo vale para justiça, lealdade, etc. (Inclusive, estou muito a fim de comprar um livro que é sobre uma tribo brasileira (piranã) que não tem conceitos para deus e acabou desconvertendo um missionário que foi lá para cooptá-la. Chama-se Dont sleep with snakes.)

7-8-9 - Acho que os argumentos daqui são atingidos pelos que já dei antes, mas vou ressaltar duas ideias neles que achei interessantes e podemos acabar discutindo.

Primeira, a no parágrafo 7 de que o que Alex faz é bom para a sociedade. O problema nisso é que ele também faz parte da sociedade e que a conduta dele só é boa para quem sofreria com o que ele fez. O crime é bom para o criminoso impune, para os outros criminosos que estão com ele, mas não para outras pessoas.

A segunda seria a do parágrafo 8 de que Alex faz o bem coagido mas não é do bem. Minha pergunta seria: se sou um monstro por dentro, mas tenho ações moralmente impecáveis, continuo sendo mal? Mesmo que eu acabe fazendo mais bem que alguém que é bem por dentro e por fora?

Minha objeção-pergunta é a seguinte: o que é bem senão praticar boas ações?

Acho que ficou enorme, mas, enfim, vamos discutindo isso sem pressa, não precisa responder logo.

Um abraço.


Bill 14/03/2013minha estante
Olá, Bruno de Olivei!

Obrigado pelo comentário!

Acredito que a Liberdade é o foco central da trama, pois descreve um Estado ditatorial que determina arbitrariamente o que é permitido e o que não é, independente de opiniões.

Livre-arbítrio é liberdade de escolha, apenas isso, isso nada tem a ver com religião. Ou podemos escolher o que queremos ou não podemos, simples assim. O estado pode funcionar como um agente limitador, a ditadura militar brasileira foi um bom exemplo disso.

O estado, no contexto do livro, quer de fato transformar o protagonista em alguém útil, você observou bem, mas a ideia do bem também está embutida nisso, afinal, o bem, querendo ou não, é um conceito lógico. Talvez alguém diga que um ladrão é ladrão apenas por que pensa diferente, então, pra ele o roubo não é um mal. Mas o ladrão aceita ser assaltado? Um assassino topa numa boa ser assassinado? É evidente que não. Conceitos como amor, inveja, lealdade, justiça, roubo, segurança pública e etc. são conceitos universais e estão presentes em todas as culturas do mundo, mesmo em culturas muito diferentes entre si.

São conceitos lógicos que tem como consequência a sobrevivência do indivíduo e da sociedade, sem isso reinaria a barbárie total.
Alex espancava as pessoas na rua por pura diversão, por exemplo. Corrigir isso é um ato de segurança pública e, portanto, um ato moral também.

Sua nova conduta é boa para a política, mas é boa para a sociedade também.

O problema é que Alex foi programado a ser bom sem de fato ter se tornado uma pessoa boa, daí a sua luta e seu martírio.

A liberdade e a ideia do bem é que são os pontos centrais desse livro, o modo como esses conceitos podem ser manipulados e até corrompidos sob o pretexto de uma boa intenção.


Bruno Oliveira 14/03/2013minha estante
O problema é que essa parte relativa a liberdade ocupa somente uma parte do livro e nem é tanto pensada do ponto de vista da escolha do indivíduo pelo "bem", mas da imposição externa que condiciona suas escolhas e circunscreve o que ele pode ou não escolher.

Livre arbítrio, inclusive, nem é um termo muito bom para designar isso, pois vem atrelado a algum contexto religioso, o que não é propriamente a discussão do livro. É algo menos moral e mais social.

Alex não passa agir "bem" (aliás, bem segundo quem?), mas condicionalmente. O estado não quer transformá-lo numa pessoa moralmente boa, mas numa pessoa ajustada e conveniente à política que impera ali, ou seja, em alguém útil. Se uma pessoa útil for, além disso, boa, melhor ainda... Para a política.


Lucy Soturna 04/10/2010minha estante
Nossa, esse livro pacere muito interessante e agora fiquei com vontade de lê-lo também, pois nunca ouvido falar de um livro com temática tão diferente. Seria uma loucura se as coisas fossem assim, mas quem sabe daria certo se existesse algo semelhante nos dias de hoje, se bem que nada do que é imposto é legal, mesmo que seja "praticar o bem". Parabéns pela resenha Bill ;)




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