Vermelho Amargo

Vermelho Amargo ...
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Resenhas - Vermelho Amargo


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aline naomi :) 20/07/2014

Minhas passagens preferidas
"Há que experimentar o prazer para, só depois, bem suportar a dor. Vim ao mundo molhado pelo desenlace. A dor do parto é também de quem nasce. Todo parto decreta um pesaroso abandono. Nascer é afastar-se - em lágrimas - do paraíso, é condenar-se à liberdade." (p. 8)

"Ao erguer os olhos do livro, o olhar da mãe vinha vestido com novo luar - eu invejava. Em cada página virada ela se remoçava, afagada pelas viagens, amores, incômodos. O livro aberto era seu berço e seu barco, em suas páginas ela se transmutava." (p. 19)
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Samara 19/06/2014

A pessoa lê 50 mil páginas pra chegar o grande momento de encarar um livro como este. Será que eu o acharia tão grande e significativo há 10 anos atrás? Tenho certeza que não.

Este livro, suponho, exigiu uma vida, a do escritor, para ser escrito tamanha a sua delicadeza e tão extremo o cuidado que o autor dedicou na escolha de cada significado que compõe a obra.

Cada palavra é uma onda que bate forte ou fraca dependendo de como, para o leitor, sopra o vento que toca o barco da vida.

É um transbordamento. Um livro belíssimo, raro e de extrema beleza.
Manuella 30/05/2015minha estante
De acordo! Tb fui arrebatada nesta leitura.
Na mesma linha - a da sensibilidade - indico Carrascoza, caso não tenha lido, especialmente Caderno de um ausente. Bj




Melissa Padilha 25/05/2014

Estava eu imersa em leituras densas e longas, muito longas ... fui eu procurar um livro curto que me interessasse que tivesse boas indicações, peguei Vermelho Amargo de Bartolomeu Campos de Queirós.

Apesar do livro ter menos de 100 páginas, a minha sensação foi que ele continha muitas informações em pouquíssimas linhas, com isso a entrega foi intensa, e o livro conseguiu me absorver como se contivesse 700 páginas.

Vermelho Amargo é um relato autobiográfico, no qual Bartolomeu divide lindamente conosco suas angústias e dores decorrentes da perda de sua mãe e da entrada na sua vida de uma madrasta que lhe foi uma marca, uma marca vermelha e amarga. Então é a história de um menino que tem que lidar com a perda muito rápida de uma mãe, a entrada em sua vida de uma madrasta que despreza a ele e seus irmãos, e de um pai cuja presença nos parece sempre muito ausente.

Divide conosco suas angústias pelo lento desmembramento familiar, cuja causa principal é obviamente a madrasta, além da falta imensa que a presença de sua mãe fazia em sua vida. O mais impressionante é a capacidade narrativa de Bartolomeu, em nos fazer mergulhar no mesmo sentimento que ele demonstra sentir.

A história é escrita toda em uma prosa poética imersa nas questões duras, de sofrimento intenso já descritos, mas tratados com uma leveza impressionante. O livro é recheado de metáforas, que expressam separações, agressões e palavras que permaneceram na memória de Bartolomeu. Apesar da leveza imposta pela escrita poética do autor, o livro não deixa de ser melancólico.

Esta pareceu-me mais do que uma história contada, uma poesia que narra a vida deste garoto. É um livro dos dissabores da vida, o quanto isso nos marca para sempre, principalmente quando ocorrem na infância.

É um livro que se compromete em transmitir de forma bela, as tragédias da vida cotidiana. Há quem ache, por sinal, que tragédias são as gregas, são as grandes guerras, ou as catástrofes mundiais, quanto mais eu leio, mais eu acho que as maiores tragédias são as não narradas, as do dia a dia, as quais a gente se acostuma, se acomoda, aprende (ou não) a conviver, são as compartilhadas na sala de terapia, na conversa com um amigo, são as nossas, pessoais, porque elas são próximas, reais e passam uma veracidade que chega a assustar. A tragédia é a vida real.

site: http://decoisasporai.blogspot.com.br/2014/04/vermelho-amargo-de-bartolomeu-campos-de.html
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Leonardo 03/03/2014

Poesia e simbolismo
Aproveitando o feriadão de carnaval, tentarei colocar em dia minhas resenhas aqui no blog. Este é o primeiro de cinco textos que programei para hoje. Li Vermelho Amargo no dia 22/12/2013, e fui deixando a resenha pra depois, pra depois, depois, e os livros foram se acumulando neste período.

Quando meu irmão comprou este livro da Cosac Naify (sim, entre nós três, a Cosac Naify é como se fosse uma grife. “Comprei um Cosac Naify hoje!” ou “Vou comprar esse livro, mesmo sem conhecer o autor, pois é um Cosac Naify” são frases comuns entre nós. Aliás – estendendo um pouco este parêntese – acredito que, em breve, se a Cosac Naify continuar a lançar promoções de 50%, nós três juntos teremos todo o catálogo de ficção da editora. O que não seria nada mau.), fiquei encantado, para variar, com o projeto gráfico do livro. Ele fez parte de uma experiência que fizemos de comprar livros diferentes do que andávamos lendo. Como este meu irmão praticamente só lê russos (e quase que exclusivamente Dostoievski e Tolstoi), achou por bem comprar este livro de um autor de nome sonoro e até então desconhecido.

Vermelho Amargo é um livro de cunho autobiográfico. Narra as difíceis memórias afetivas de um menino que tem que aprender a lidar com a sua madrasta enquanto ainda sofre com a morte da mãe.

Não há exatamente uma história, mas uma sucessão de lembranças, disparadas por alguns gatilhos, o mais comum deles o modo como a madrasta cortava cuidadosamente o tomate. Trata-se, portanto, de um livro bastante sensível, carregado de simbolismo.

O livro é repleto de aforismos e são muitas as frases que nos colocam para pensar:

“Exige-se longo tempo e paciência para enterrar uma ausência. Aquele que se foi ocupa todos os vazios. Como água, também a ausência não permite o vácuo. Ela se instala mesmo entre as pausas das palavras. Na morte, a ausência ganha mais presença. É substantivo e concreto tudo aquilo que permanece. Daí, os mortos passarem entre nós. Jamais imaginei seu espírito transfigurado em fruto.”

Além da melancolia própria das lembranças do menino, chamou a minha atenção as suas constantes referências aos livros:

“Mas uma coisa me vigiava: ler era o meu único sonho viável.”

Não foi um livro que me fisgou. Gosto de símbolos, mas gosto de histórias, e este livro é quase um poema. Uma obra ainda mais abstrata e simbólica que Lavoura Arcaica (resenhado aqui)e um pouco menos que Os Verbos Auxiliares do Coração, que espero resenhar ainda hoje.

“A vizinha, do lado direito da rua, sabia ler e escrever. Estudou em escola não reconhecida pelas abelhas. Autorizava-se a distribuir dissimuladas verdades para além das frestas das janelas. Não suportava uma contestação. Tudo lhe servia para o consumo externo. Citava normas, em língua afiada, zombando da razão dos outros. Percebia-se que suas palavras eram desencarnadas e não filtradas pelo consumo interno. Também, sem raízes, as palavras nasciam e morriam em sua boca. Minha mãe afirmava que muitos passam pela escola, mas a escola não passa por eles.”

Minha Avaliação:

3 estrelas em 5.

site: http://catalisecritica.wordpress.com
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Paula 25/11/2013

Uma boniteza.
Poesia pura. Saí sublinhando o livro inteiro. Recomendo.

"Para alimentar a saudade do meu primeiro amor, comia retratos, rezava sem fé, mastigava hóstia, subtraía-me, entregava-me às amoras e seus aromas. Não havia mundo lá fora. Só amor, dentro e fora de mim. Virei dois, como a mulher de duas almas que visitava a minha rua. Faltavam-me rédeas para frear meu amor. Ele me roubava para o fundo do quintal, afogava-me nos rios, transportava-me para os pastos, subia-me nos galhos das árvores, mesmo sem fruto para colher. Eu amava, ou melhor, por inteiro, eu só era amor." [pág.22]


"Sempre suspeitei o nascer como entrar num trem andando. Só que, o mundo, eu não sabia de onde vinha nem para onde ia. E, no meu vagão, não escolhi os companheiros para a viagem. Eram todos estranhos, severos, amargos, impostos. Também entrei sem comprar o bilhete de viagem. Minha bagagem, pequena, cabia debaixo do banco - da segunda classe - sem incomodar. Contrabandeava poucos pertences : uma grande dor que doía o corpo inteiro e a vontade de encontrar um remédio capaz de remediar o incômodo. Até hoje o mundo ainda não atracou. Vou sem escolher o destino. O trem estancava na minha cidade, trocava de carga e reabastecia-se. O mundo só nos permite uma baldeação definitiva."
[pág. 38]
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paulanapoliao 07/09/2013

Ausência
Ressaca literária. É isso o que sinto agora, após a leitura breve e impactante de Vermelho Amargo. Não pretendo aqui resenhar, visto que isso já foi muito bem feito por vários usuários do skoob, especialmente a Ladyce (que resenha!). Ainda assim, e sem desmerecer ninguém, creio ser impossível fazer qualquer resumo do que é esta obra. Digo isso porque não há um trecho que a simplifique, exemplifique ou mesmo um trecho que se sobressaia perante os demais.
Daqueles livros saborosos em seu dissabor. Precisei de um tempo para refletir sobre. Reli trechos, assimilei parágrafos, digeri tantos outros. E me veio só o silêncio, com toda a sua ausência. Sim, ausência seria a palavra que mais chega perto do que senti durante sua leitura. Um vazio.
E depois o choro. Chorei copiosamente ao fim deste livro. E o mais curioso: não sei bem o motivo. O fato é um só: é um Senhor Livro. E Bartolomeu Campos de Queirós um escritor memorável.
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Nanci 04/09/2013

Um compromisso com a beleza
[resenha escrita em 5/8/2012]

Li Vermelho Amargo em 2011, quando o livro foi lançado. Não foi o primeiro texto bem escrito e comovente que li sobre a infância, mas certamente foi o que me tocou mais profundamente.

Vermelho Amargo é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2012, cuja lista de concorrentes, conheci hoje (5/8/2012). Talvez por isso: pelo fato de Bartolomeu ter nos deixado antes de receber mais esse reconhecimento, decidi registrar meus comentários sobre esse seu livro tão belamente triste.

Seu poema condensa toda estrutura dos sentimentos humanos. Ao revisitar a dor de sua infância, Bartolomeu nos empresta senso poético à nossa própria experiência de vida.

Poderia para expressar meu apreço - mais fácil e menos arriscado - reproduzir frases do próprio livro, pois Bartolomeu escolheu cuidadosamente cada palavra que escreveu; palavras belas de significado, dimensão e sonoridade. Prosa e poesia unidas por tamanha intimidade, que não se apreende uma sem a outra.

Poderia me amparar nas metáforas e imagens eleitas pelo próprio autor. Ouso, em contrapartida, me segurar em sua delicada e invisível cerca de arame farpado: essa fronteira entre realidade e fantasia. Assim, voltamos a ser menino curioso diante do lado de lá; mundos separados pelo tempo: por dois fios de arame envoltos em si, formando uma barreira reforçada, para marcar e proteger os territórios dos homens. Uma trama delicada de arame que possui, de intervalo a intervalo, farpas afiadas, que nos magoam suavemente - como a vida.
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Thaís Vitale (@LiteraturaNews) 15/07/2013

A prosa poética do autor emociona o leitor. A dor e a tristeza do narrador são expressas de modo belo por Bartolomeu Campos de Queirós. Livro lindo e tocante!
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gaglianoni 17/03/2013

CAMPOS DE QUEIRÓS, Vermelho Amargo
“Amparado pela janela, debruçado no meio do escuro, contemplei a rua e sofri imprecisa saudade do mundo, confirmada pela crueldade do tempo” (p. 7).

Há um vazio pungente, preenchido só com as vagas e evanescentes imagens da memória e da imaginação, na solidão em que se enclausuram os que vivem a dor da separação abrupta, forçada, que acompanha a morte de uma criatura querida. O paradoxo inconformado deste sofrimento é que o próprio vazio é cheio, pleno; esse vazio preenche cada uma das horas dos longos dias do “impiedoso tempo”, materializa-se, assim. A lembrança, abstrata, a falta, concreta: um amálgama que dá ao tempo um sabor lânguido e que, no livro de Bartolomeu Campos de Queirós, metaforiza-se gastronomicamente. “Não se chora pelo amanhã. Só se salga a carne morta” (p. 8). A carne descobre sua mortalidade e o menino-personagem, lembrado pelo adulto-narrador, engole a seco a proximidade, sempre precoce, desta descoberta. Como engole o vazio, instaurado pela ausência da mãe, cotidianamente presentificado nas finíssimas fatias de tomate cortadas pela madastra. “A madastra retalhava um tomate em fatias, assim finas, capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência” (p. 9). O tomate torna-se sanguíneo. Vermelho e amargo: remissão a um só tempo à morte, à falta, à sensação profunda de abandono, à ausência da figura feminina e amorosa da mãe; remissão também aos tomates. A sinestesia desdobra o sofrimento da lacuna irremediável. Sofrimento redobrado pela substituição apressada, no seio da vida doméstica, da mãe pela madastra. Sentimentos representados em metáforas amargas, a míngua do amor escancarada nas fatias de tomate. Vermelho amargo é lírico desde o título.

Trecho inicial de resenha publicada no Blog da Livraria 30porcento - http://30porcento.com.br/blog/campos-de-queiros-vermelho-amargo/
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Marco Antonio 10/01/2013

As páginas deste volume curto - apenas 72! - pedem do leitor só o espaço breve de uma tarde ou a passagem larga de manhã já bem adiantada. A satisfação que sobrevém da leitura é incômoda, como o dia depois do sonho, surge de nossas memórias, vivas na prosa esclarecedora de Bartolomeu Campos de Queirós, inspiradas por suas inquietas lembranças. Publicado em 2011 pela Cosac Naify, VERMELHO AMARGO é compêndio valioso, santuário da infância sujeito aos ares carregados da idade, construído pela experiência e afetado profundamente por ela. Neste livro, a implacável existência afirma-se decididamente e se encarrega do passado, norteia seus ingênuos pedidos. Assim tomamos consciência de como ela enxerga o tempo de menino, do que ela faz com aquele coração, mexido pelo viver enquanto come, brinca e conhece o mundo. É relato repleto de poesia, conversa de gente grande, obra que nos enche de contraditórios sentimentos. Atravessá-la é tomar ciência da dor que existir forçosamente recomenda. Afinal, é preciso "experimentar o prazer para, só depois, bem suportar a dor", ensina o autor, falecido este ano aos 67 de idade. VERMELHO AMARGO ganhou o Prêmio São Paulo de literatura de 2012.
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Dirce 21/06/2012

Resposta a Mario Sergio Cortella
Um dos motivos que me levou a ler "Vermelho Amargo" foi a resenha feita pela Ladyce, mas não poderia supor o quanto essa resenha retrata fielmente o livro. Ela fez uma resenha tão perfeita, tão abrangente, que me sinto ridícula diante da tentação de esboçar qualquer tipo de comentário.
Só posso dizer que fiquei tão fascinada pela poesia que emana de cada frase do livro "Vermelho Amargo" que resolvi "conhecer" um pouco Bartolomeu Campos de Queirós e, fiquei muito triste ao saber que ele faleceu no dia 16/01 deste ano, ou seja, de 2012.
Mario Sergio Cortella nos pergunta: "Qual é a sua obra" ?
Eu posso afirmar,pelo que foi me dado a conhecer por meio da minha pesquisa, mesmo tendo eu lido tão somente um livro desse escritor poeta (ou seria poeta escritor?), que a pergunta correta a ser feita a ele seria: Quais foram suas obras? A resposta seria: foram muitas, dentre elas, o livro Vermelho Amargo, uma obra de apenas 65 páginas, nas quais a sensibilidade e a poesia encontraram morada.

Abaixo tomo a liberdade de postar a resenha da Ladyce , pedindo para que ela desculpe a minha ousadia.
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Uma ode ao nosso idioma

03/07/2011

São poucos os autores de ficção que conseguem dizer muito em poucas palavras, que conseguem ser tão sucintos quanto os poetas, que conseguem contar uma história de maneira obliqua e simultaneamente clara. Mas eles existem, esses mágicos da língua, esses domadores da prosa emocional, tecedores de imagens que nos envolvem e atrelam. De vez em quando temos a chance de nos encontrarmos reféns de seus romances, de suas histórias. Acabamos validando, a cada página, a Síndrome de Estocolmo, porque presas fáceis que somos da magia de seus textos, prolongamos a qualquer custo o prazer que sentimos na leitura e evitamos o desenlace final, a chegada dos últimos parágrafos. Não somos mais os mesmos ao final da leitura, amamos o seqüestrador de momentos inebriantes, admiramos o sedutor de nossos sentidos, o raptor das nossas emoções. Foi o que me aconteceu na leitura de VERMELHO AMARGO [Cosac Naify: 2011] do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós.

Chamar esta publicação de romance é um exagero, chamá-la de conto, peca pelo lado contrário. São quase 70, as páginas que ordenam as contemplações de um menino que acaba de entrar na escola. Não conhecemos seu nome, nem os de seus familiares. Não sabemos onde mora, nem suas brincadeiras prediletas. Mas ao acabar a leitura, compartilhamos intimamente de sua solidão. Bebemos do sofrimento sobre o qual pondera. O ponto de partida é a perda da mãe. E as meditações, centradas na imagem de um tomate, são seu testemunho sobre as mudanças na família a partir daquele momento. Como o título prenuncia, é amarga a descoberta da vida após a perda materna.

Sinestesia é a figura de linguagem que engloba a expressão VERMELHO AMARGO, uma combinação poderosa das sensações provocadas por diferentes órgãos sensoriais: vista e palato. Que esse título abençoa as memórias do menino, já deveria nos colocar de sobreaviso: a expressão poética, bela e sedutora, não consegue esconder o lado cáustico das reflexões do narrador. Da vida cotidiana aos sentimentos de perda e saudades, participamos do turbilhão emocional corrosivo de um menino sensível, deixado ao largo da vida familiar, a interpretar meramente o que o rodeia a partir dos sinais que lhe são visíveis.

Bartolomeu Campos de Queirós é considerado “um dos maiores expoentes da literatura infantojuvenil brasileira”, como anuncia a editora Cosac Naify, na sinopse desse volume. Mas não se enganem, esse não é um livro infantojuvenil. É um livro para adultos ou jovens, que não só possam se encantar com um texto rico, entremeado pelas mais diversas imagens e de perfeita retórica, como também melhor interpretado por aqueles que já desenvolveram dentro de si, pelas vicissitudes enfrentadas, um extenso rol de sentimentos, dos mais sublimes aos mais mesquinhos, com todas as nuances que lhes pertencem.

De pronto, esse volume, um ensaio meditativo, é enriquecido de maneira exemplar quando o autor persiste em manter um texto delicadamente equilibrado na junção de imagens antagônicas. O momento emocional se revela justamente no espaço deixado em branco pelas antíteses narrativas e o sentimento que elas não conseguem definir. Essa é uma leitura que requer pausa e reflexão. Há pensamentos que precisam ser digeridos antes mesmo de se passar ao parágrafo seguinte. As ponderações são de um adulto voltando-se para o seu passado de menino. Somos convidados a participar de uma recapitulação, de uma memória emocional: “Tantos pedaços de nós dormem num canto da memória, que a memória chega a esquecer-se deles.”

Há livros que nos seqüestram pela trama, que nos seduzem pelo enredo. Raras são as vezes em que é o texto, a maneira de dizer, as imagens colocadas nos envolvem de tal maneira que o argumento passa a segundo plano. Tal é o caso de VERMELHO AMARGO. Esse é um livro para ser degustado mais por sua maneira de ser, por suas imagens, por sua prosa do que pelo que retrata. Nele conseguimos viver os prazeres de uma língua bem colocada, bem armada. Uma língua poética. Fascinante. Esse é o testemunho de uma língua viva, rica, amada e amante. É uma ode ao idioma. Aproveite-a.

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Márcia Regina 05/02/2012

Sempre me deslumbro com a capacidade que alguns artistas têm de atingir a essência da dor e de transformar essa essência em ternura. É um livro-poema.
Dirce 05/05/2012minha estante
OI Márcia!
Com apenas 2 frases você conseguiu me instigar. 2 frases de grande efeito.
Tenha um ótio final de semana.




Rapha Brian 11/12/2011

Contraste entre mãe e madrasta
MEU BLOG, ENTREM E CONHEÇAM MINHAS HISTÓRIAS: HTTP://WWW.RAPHAELBRIAN.BLOGSPOT.COM

Bartolomeu Campos de Queirós, em sua mais recente obra, Vermelho Amargo, volta à sua infância e expressa através de uma narrativa com vários recursos poéticos, o sofrimento de ser uma criança sozinha e sem o amor da mãe.

Em seu livro, Bartolomeu mostra sua família, composta por ele, seus irmãos, a madrasta e o pai. O irmão que comia vidro, a irmã obstinada por bordar em ponto cruz. O pai, por sua vez, é mostrado com distanciamento e, sempre, como a figura marcada pelo alcoolismo. Já a madrasta, é descrita como alguém que despeja toda sua peçonha em seus gestos econômicos e, falta de amor, estabelecendo-se assim, um contraste com a mãe, que é representada pela extrema delicadeza e amor em que administrava os seus atos. Nos seguintes trechos pode se perceber essa relação:

[1] “Oito. A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência. Com a saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos. Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro como se degolasse um de nós. Seis.” (pg09)

[2] “Engolia o tomate imaginando ser ambrosia ou claras em neve, batidas com açúcar e nadando num de leite, como praticava minha mãe__ Ilha flutuante__ com as mãos do amor.” (pg10)

Em Vermelho Amargo, o narrador-menino, rememora sua infância e, ao mesmo tempo, participa da história. A “falta de amor”, elemento que perpassa toda sua obra, evidencia o contraste, como já dito, entre madrasta e mãe.

Como mostrado no primeiro trecho acima, a madrasta em posse do fruto tomate (maior metáfora do livro) exerce sob o ato de fatiá-lo, gestos finos, precisos, sem a delicadeza que uma mãe teria ao fazê-lo.

Essa expressão é mostrada pelo autor através da maneira em que ele constrói seu texto; por exemplo, as palavras: fatias, finas, afiando, faca e frio. Todas elas remetem ao leitor, através da sonoridade da pronúncia, um som fino. Ao pronunciá-las em voz alta, não é necessário abrir muito a boca para emitir seus sons, já que o mesmo sai de maneira afiada, com a boca estreita, se igualando ao sentido dos gestos da madrasta, hostis, como uma lâmina.O trecho, incluso na parte final da primeira citação, comprova a idéia abordada nesse parágrafo, “... ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro como se degolasse um de nós. Seis.”

Não deixando de apresentar o contraste estabelecido entre a mãe e a madrasta, destacarei a seguir outros momentos da obra que, também, reitera a imagem de faca, lâmina, vidro ou algo capaz de perfurar e machucar:

“Havia na cidade a madrasta, a faca, o tomate e o fantasma. A mãe morta ressuscitava das louças, das flores, dos armários, das cadeiras, das panelas, das manchas dos retratos retirados das paredes, das gargantas das galinhas.” (pg15/16)

“Ela decapitava um tomate para cada refeição.” (pg23)

“Estacionado na porta do homem da tesoura, reparava seus cortes. Tudo eu olhava devagar para bem imaginar. Sua mão firme retalhava os caminhos riscados sobre a casimira ou linho.” (pg29)

“O irmão, degustador de vidro, sabia ler.” (pg43)

“Ele pegou o lápis, reparou sua ponta e me disse: “É preciso afiar bema grafite.Só com a ponta do lápis exageradamente fina se pode fazer a palavra tomate”. Assustei-me. Para escrever a palavra tomate meu irmão necessitava de um punhal, concluí.” (pg44)

“Meu pai se encostava na pia, depois de afiar a navalha.” (pg45)

De acordo com os trechos explicitados acima, pode-se notar que essa imagem é trabalhada em todo o livro. Tanto a lâmina, a faca, o vidro, o punhal, a ponta, a grafite exageradamente fina e a tesoura, são materias que perfuram, cortam, exercem violência, como uma ferida. Causam uma ruptura.

Ao enxergar todos esses elementos, às vezes metafóricos, pode-se ter uma idéia de acordo com o que o autor apresenta, por exemplo, a ruptura causada pela morte de sua mãe, o distanciamento do garoto com o mundo, as violências das relações humanas e suas representações.

Voltando a analisar as representações de mãe/madrasta, agora com o foco na segunda citação do início do texto, pode-se perceber que, ao contrário da madrasta, a mãe é referida com demasiada delicadeza, tanto é que, a própria escolha das lembranças dos doces, ambrosia e claras em neve (batidas com açúcar), são importantes recursos que compõem a intenção do autor.

A imagem das “Claras em Neve”, realmente, lembra uma ilha (podendo estar navegando em um mar de leite), mas, também pode remeter, da mesma maneira,à nuvens, dando a idéia de que, em qualquer ângulo que a imagem do doce for vista, ou, até mesmo, em outras perspectivas, sempre irá geraruma imagem que transmite leveza.

Como se não bastasse, o elemento “açúcar”, (contrário de amargo), é acrescentado à composição do trecho, trazendo a tona o quão oposta, às amarguras da vida e às atitudes da madrasta a mãe era. Pode-se considerar também, o antônimo que a palavra se transforma ao ser comparada com o título do próprio livro.

Já o outro doce, “Ambrosia”, de acordo com a mitologia grega, era considerado como um doce divinal, em que, apenas os deuses do Olimpo podiam saboreá-lo, sendo ele vetado aos mortais. Conta a história que, quando os deuses o ofereciam a algum humano, este, aoexperimentá-lo, sentia uma sensação de extrema felicidade. Há também, outra vertente desse mito que, conta que o mortal que o comesse passaria a ser imortal.

Ao olhar por esse prisma, talvez, o autor quisesse passar a imagem de algo capaz de retirá-lo da tristeza, como diz a mitologia. Ou, quem sabe, expressar a tentativa, subconsciente, da imortalidade. O desejo que sua mão não partisse.

A seguir, apresento mais dois trechos que reafirmam a diferença entre as duas, mãe e madrasta:

“Antes, minha mãe, com muito afago, fatiava o tomate em cruz, adivinhando os gomos que os olhos não desvendavam, mas a imaginação alcançava. Isso, depois de banhá-los em água pura e enxugá-los em pano de prato alvejado, puxando se brilho para o lado do sol. Cortados em cruzes eles se transfiguravam em pequenas embarcações ancoradas na baía da travessa.” (pg14/15)

“Ela decapitava um tomate para cada refeição. Isso depois de tomar do martelo e espancar, com a força de seus músculos, os bifes. Batia forte tornando possível escutar o ruído na rua. O martelar violento avisava aos vizinhos que comeríamos carne no almoço. Eu padecia pelo medo do martelo e a violência da mulher ao açoitar a carne.” (pg23)

Para finalizar, após a análise concernente à relação contrastiva entre as duas, percebe-se que o autor em sua narrativa memorialística, também utiliza recursos poéticos como, rimas, “A felicidade nos era interditada. Toda tristeza prenunciava uma morte que não chegava. Dormi e ao despertar-me já amava.” e, ritmo, “Dói. Dói muito. Dói pelo corpo inteiro.”, que, no caso, se dá através da gradação.

Em uma prosa destacam-se três elementos, sujeitos, tempos, e espaços ficcionais. Os sujeitos, claro, além do próprio narrador menino que revive sua história, engloba a família, incluindo pai, mãe, madrasta, irmãos e alguns outros personagens secundários. Referente aos temposdestacam-se todas as ações que estão inseridas na obra, em um determinado espaço.

Então, o livro pode ser considerado como prosa poética, em virtude dos elementos enumerados acima, em parceria com as várias palavras e expressões líricas, (às vezes característica do poema), e aos parágrafos curtos com várias metáforas.

(Queirós, Bartolomeu C. de. Vermelho Amargo. Cosac Naify, 2011 )

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Julyana 21/11/2011

Eu gostei mais como uma boa coleção de frases (lembranças/memórias poéticas) do que propriamente como história.
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