Vermelho Amargo

Bartolomeu Campos de Queirós



Resenhas - Vermelho Amargo


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Márcia Regina 05/02/2012

Sempre me deslumbro com a capacidade que alguns artistas têm de atingir a essência da dor e de transformar essa essência em ternura. É um livro-poema.
Dirce 05/05/2012minha estante
OI Márcia!
Com apenas 2 frases você conseguiu me instigar. 2 frases de grande efeito.
Tenha um ótio final de semana.




Rapha Brian 11/12/2011

Contraste entre mãe e madrasta
MEU BLOG, ENTREM E CONHEÇAM MINHAS HISTÓRIAS: HTTP://WWW.RAPHAELBRIAN.BLOGSPOT.COM

Bartolomeu Campos de Queirós, em sua mais recente obra, Vermelho Amargo, volta à sua infância e expressa através de uma narrativa com vários recursos poéticos, o sofrimento de ser uma criança sozinha e sem o amor da mãe.

Em seu livro, Bartolomeu mostra sua família, composta por ele, seus irmãos, a madrasta e o pai. O irmão que comia vidro, a irmã obstinada por bordar em ponto cruz. O pai, por sua vez, é mostrado com distanciamento e, sempre, como a figura marcada pelo alcoolismo. Já a madrasta, é descrita como alguém que despeja toda sua peçonha em seus gestos econômicos e, falta de amor, estabelecendo-se assim, um contraste com a mãe, que é representada pela extrema delicadeza e amor em que administrava os seus atos. Nos seguintes trechos pode se perceber essa relação:

[1] “Oito. A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência. Com a saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos. Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro como se degolasse um de nós. Seis.” (pg09)

[2] “Engolia o tomate imaginando ser ambrosia ou claras em neve, batidas com açúcar e nadando num de leite, como praticava minha mãe__ Ilha flutuante__ com as mãos do amor.” (pg10)

Em Vermelho Amargo, o narrador-menino, rememora sua infância e, ao mesmo tempo, participa da história. A “falta de amor”, elemento que perpassa toda sua obra, evidencia o contraste, como já dito, entre madrasta e mãe.

Como mostrado no primeiro trecho acima, a madrasta em posse do fruto tomate (maior metáfora do livro) exerce sob o ato de fatiá-lo, gestos finos, precisos, sem a delicadeza que uma mãe teria ao fazê-lo.

Essa expressão é mostrada pelo autor através da maneira em que ele constrói seu texto; por exemplo, as palavras: fatias, finas, afiando, faca e frio. Todas elas remetem ao leitor, através da sonoridade da pronúncia, um som fino. Ao pronunciá-las em voz alta, não é necessário abrir muito a boca para emitir seus sons, já que o mesmo sai de maneira afiada, com a boca estreita, se igualando ao sentido dos gestos da madrasta, hostis, como uma lâmina.O trecho, incluso na parte final da primeira citação, comprova a idéia abordada nesse parágrafo, “... ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro como se degolasse um de nós. Seis.”

Não deixando de apresentar o contraste estabelecido entre a mãe e a madrasta, destacarei a seguir outros momentos da obra que, também, reitera a imagem de faca, lâmina, vidro ou algo capaz de perfurar e machucar:

“Havia na cidade a madrasta, a faca, o tomate e o fantasma. A mãe morta ressuscitava das louças, das flores, dos armários, das cadeiras, das panelas, das manchas dos retratos retirados das paredes, das gargantas das galinhas.” (pg15/16)

“Ela decapitava um tomate para cada refeição.” (pg23)

“Estacionado na porta do homem da tesoura, reparava seus cortes. Tudo eu olhava devagar para bem imaginar. Sua mão firme retalhava os caminhos riscados sobre a casimira ou linho.” (pg29)

“O irmão, degustador de vidro, sabia ler.” (pg43)

“Ele pegou o lápis, reparou sua ponta e me disse: “É preciso afiar bema grafite.Só com a ponta do lápis exageradamente fina se pode fazer a palavra tomate”. Assustei-me. Para escrever a palavra tomate meu irmão necessitava de um punhal, concluí.” (pg44)

“Meu pai se encostava na pia, depois de afiar a navalha.” (pg45)

De acordo com os trechos explicitados acima, pode-se notar que essa imagem é trabalhada em todo o livro. Tanto a lâmina, a faca, o vidro, o punhal, a ponta, a grafite exageradamente fina e a tesoura, são materias que perfuram, cortam, exercem violência, como uma ferida. Causam uma ruptura.

Ao enxergar todos esses elementos, às vezes metafóricos, pode-se ter uma idéia de acordo com o que o autor apresenta, por exemplo, a ruptura causada pela morte de sua mãe, o distanciamento do garoto com o mundo, as violências das relações humanas e suas representações.

Voltando a analisar as representações de mãe/madrasta, agora com o foco na segunda citação do início do texto, pode-se perceber que, ao contrário da madrasta, a mãe é referida com demasiada delicadeza, tanto é que, a própria escolha das lembranças dos doces, ambrosia e claras em neve (batidas com açúcar), são importantes recursos que compõem a intenção do autor.

A imagem das “Claras em Neve”, realmente, lembra uma ilha (podendo estar navegando em um mar de leite), mas, também pode remeter, da mesma maneira,à nuvens, dando a idéia de que, em qualquer ângulo que a imagem do doce for vista, ou, até mesmo, em outras perspectivas, sempre irá geraruma imagem que transmite leveza.

Como se não bastasse, o elemento “açúcar”, (contrário de amargo), é acrescentado à composição do trecho, trazendo a tona o quão oposta, às amarguras da vida e às atitudes da madrasta a mãe era. Pode-se considerar também, o antônimo que a palavra se transforma ao ser comparada com o título do próprio livro.

Já o outro doce, “Ambrosia”, de acordo com a mitologia grega, era considerado como um doce divinal, em que, apenas os deuses do Olimpo podiam saboreá-lo, sendo ele vetado aos mortais. Conta a história que, quando os deuses o ofereciam a algum humano, este, aoexperimentá-lo, sentia uma sensação de extrema felicidade. Há também, outra vertente desse mito que, conta que o mortal que o comesse passaria a ser imortal.

Ao olhar por esse prisma, talvez, o autor quisesse passar a imagem de algo capaz de retirá-lo da tristeza, como diz a mitologia. Ou, quem sabe, expressar a tentativa, subconsciente, da imortalidade. O desejo que sua mão não partisse.

A seguir, apresento mais dois trechos que reafirmam a diferença entre as duas, mãe e madrasta:

“Antes, minha mãe, com muito afago, fatiava o tomate em cruz, adivinhando os gomos que os olhos não desvendavam, mas a imaginação alcançava. Isso, depois de banhá-los em água pura e enxugá-los em pano de prato alvejado, puxando se brilho para o lado do sol. Cortados em cruzes eles se transfiguravam em pequenas embarcações ancoradas na baía da travessa.” (pg14/15)

“Ela decapitava um tomate para cada refeição. Isso depois de tomar do martelo e espancar, com a força de seus músculos, os bifes. Batia forte tornando possível escutar o ruído na rua. O martelar violento avisava aos vizinhos que comeríamos carne no almoço. Eu padecia pelo medo do martelo e a violência da mulher ao açoitar a carne.” (pg23)

Para finalizar, após a análise concernente à relação contrastiva entre as duas, percebe-se que o autor em sua narrativa memorialística, também utiliza recursos poéticos como, rimas, “A felicidade nos era interditada. Toda tristeza prenunciava uma morte que não chegava. Dormi e ao despertar-me já amava.” e, ritmo, “Dói. Dói muito. Dói pelo corpo inteiro.”, que, no caso, se dá através da gradação.

Em uma prosa destacam-se três elementos, sujeitos, tempos, e espaços ficcionais. Os sujeitos, claro, além do próprio narrador menino que revive sua história, engloba a família, incluindo pai, mãe, madrasta, irmãos e alguns outros personagens secundários. Referente aos temposdestacam-se todas as ações que estão inseridas na obra, em um determinado espaço.

Então, o livro pode ser considerado como prosa poética, em virtude dos elementos enumerados acima, em parceria com as várias palavras e expressões líricas, (às vezes característica do poema), e aos parágrafos curtos com várias metáforas.

(Queirós, Bartolomeu C. de. Vermelho Amargo. Cosac Naify, 2011 )

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Julyana 21/11/2011

Eu gostei mais como uma boa coleção de frases (lembranças/memórias poéticas) do que propriamente como história.
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Letícia Alves 24/08/2011

Tudo em vermelho...
E tudo se tornou vermelho. E ele pensava que a raiva se vestia de vermelho e tudo mais.

"Cobiçava conhecer mais palavras para nomear o incômodo perpétuo instalado pela dor."


E eu cobiço conhecer mais palavras para descrever o que senti em uma leitura de pouco menos de 100 páginas e que nos deixa pensativos sobre as relações humanas, e como nomeamos ou colorimos nossa vida.

É um livro que se lê de uma "sentada" mas que você fica dias pensando sobre o que leu.


O vermelho faz isso!


Recomendo a leitura, pois é bom ler livros curtos, mas densos e que sempre nos põe a pensar.
Renata CCS 21/10/2013minha estante
Você me convenceu a ler com poucas palavras.




Monique 06/07/2011

Profunda melancolia
Uma livro permeado pela melancolia, esta a de um filho destituído do amor de mãe e, por isso, de seu lugar no mundo. Também a história de uma família dilacerada pelo ciúmes, da mesma forma com que a madrasta fatiava odiosamente o tomate das refeições diárias. Poético, de uma linguagem sublime.
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Ladyce 03/07/2011

Uma ode ao nosso idioma
São poucos os autores de ficção que conseguem dizer muito em poucas palavras, que conseguem ser tão sucintos quanto os poetas, que conseguem contar uma história de maneira obliqua e simultaneamente clara. Mas eles existem, esses mágicos da língua, esses domadores da prosa emocional, tecedores de imagens que nos envolvem e atrelam. De vez em quando temos a chance de nos encontrarmos reféns de seus romances, de suas histórias. Acabamos validando, a cada página, a Síndrome de Estocolmo, porque presas fáceis que somos da magia de seus textos, prolongamos a qualquer custo o prazer que sentimos na leitura e evitamos o desenlace final, a chegada dos últimos parágrafos. Não somos mais os mesmos ao final da leitura, amamos o seqüestrador de momentos inebriantes, admiramos o sedutor de nossos sentidos, o raptor das nossas emoções. Foi o que me aconteceu na leitura de VERMELHO AMARGO [Cosac Naify: 2011] do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós.

Chamar esta publicação de romance é um exagero, chamá-la de conto, peca pelo lado contrário. São quase 70, as páginas que ordenam as contemplações de um menino que acaba de entrar na escola. Não conhecemos seu nome, nem os de seus familiares. Não sabemos onde mora, nem suas brincadeiras prediletas. Mas ao acabar a leitura, compartilhamos intimamente de sua solidão. Bebemos do sofrimento sobre o qual pondera. O ponto de partida é a perda da mãe. E as meditações, centradas na imagem de um tomate, são seu testemunho sobre as mudanças na família a partir daquele momento. Como o título prenuncia, é amarga a descoberta da vida após a perda materna.

Sinestesia é a figura de linguagem que engloba a expressão VERMELHO AMARGO, uma combinação poderosa das sensações provocadas por diferentes órgãos sensoriais: vista e palato. Que esse título abençoa as memórias do menino, já deveria nos colocar de sobreaviso: a expressão poética, bela e sedutora, não consegue esconder o lado cáustico das reflexões do narrador. Da vida cotidiana aos sentimentos de perda e saudades, participamos do turbilhão emocional corrosivo de um menino sensível, deixado ao largo da vida familiar, a interpretar meramente o que o rodeia a partir dos sinais que lhe são visíveis.

Bartolomeu Campos de Queirós é considerado “um dos maiores expoentes da literatura infantojuvenil brasileira”, como anuncia a editora Cosac Naify, na sinopse desse volume. Mas não se enganem, esse não é um livro infantojuvenil. É um livro para adultos ou jovens, que não só possam se encantar com um texto rico, entremeado pelas mais diversas imagens e de perfeita retórica, como também melhor interpretado por aqueles que já desenvolveram dentro de si, pelas vicissitudes enfrentadas, um extenso rol de sentimentos, dos mais sublimes aos mais mesquinhos, com todas as nuances que lhes pertencem.

De pronto, esse volume, um ensaio meditativo, é enriquecido de maneira exemplar quando o autor persiste em manter um texto delicadamente equilibrado na junção de imagens antagônicas. O momento emocional se revela justamente no espaço deixado em branco pelas antíteses narrativas e o sentimento que elas não conseguem definir. Essa é uma leitura que requer pausa e reflexão. Há pensamentos que precisam ser digeridos antes mesmo de se passar ao parágrafo seguinte. As ponderações são de um adulto voltando-se para o seu passado de menino. Somos convidados a participar de uma recapitulação, de uma memória emocional: “Tantos pedaços de nós dormem num canto da memória, que a memória chega a esquecer-se deles.”

Há livros que nos seqüestram pela trama, que nos seduzem pelo enredo. Raras são as vezes em que é o texto, a maneira de dizer, as imagens colocadas nos envolvem de tal maneira que o argumento passa a segundo plano. Tal é o caso de VERMELHO AMARGO. Esse é um livro para ser degustado mais por sua maneira de ser, por suas imagens, por sua prosa do que pelo que retrata. Nele conseguimos viver os prazeres de uma língua bem colocada, bem armada. Uma língua poética. Fascinante. Esse é o testemunho de uma língua viva, rica, amada e amante. É uma ode ao idioma. Aproveite-a.
Malu 17/07/2011minha estante
Concordo em tudo com vc, Ladyce, e já postei no seu blog que queria muito ter escrito esta resenha! Amei!


Dirce 22/08/2011minha estante
Hummmm...Que tentação.
Rica é essa sua resenha, Ladyce.
Tenha uma feliz semana.
abraços.




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