Educar na esperança em tempos de desencanto

Pablo Gentili...



Resenhas - Educar na esperança em tempos de desencanto


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Quedma 14/07/2009

Educar na Esperança em Tempos de Desencanto (Resenha)
GENTILI, Pablo & ALENCAR, Chico. Educar na esperança em tempos de desencanto. 3ª edição, Petrópolis, Vozes, 2003. 142 p. 21 x 13,5 cm.

Doutor em educação pela Universidade de Buenos Aires, o argentino Pablo Gentili também pesquisador e professor de pós-graduação em Educação da universidade do estado do Rio de Janeiro, assina diversos livros: A falsificação do consenso: simulacro e imposição na reforma educacional do neoliberalismo; Pedagogia da exclusão; Globalização excludente; A cidadania negada e Universidades na penumbra.
Parlamentar com diversos mandatos pelo PT-RJ, Chico Alencar, carioca, é professor de Prática de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre em educação e autor de diversos livros (História da sociedade brasileira; Miltopéia; Direitos mais humanos; BR-500 e Cânticos das criaturas: ecologia e juventude do mundo), Chico Alencar juntamente com Pablo Gentili vem oferecer ao público leitor mais uma obra.
Educar na esperança em tempos de desencanto cristaliza a fé dos autores na educação através dos indivíduos (seria melhor dizer cidadãos?) que a compõem: educadores e educandos; apesar das, cada vez mais evidentes, exclusões, desumanizações e compreensão limitada das palavras cidadania, moralidade, democracia.
A obra é estruturada em quatro capítulos (dois por cada autor), além de uma apresentação, escrita conjuntamente, e um epílogo assinado pelo auto-intitulado subcomandante Marcos, essa parte final com tradução de Ezequiel R. dos Santos.
A apresentação aborda graves problemas mundiais, que têm, pela constância, configurado-se em tendência: a globalização e tecnologias excludentes, o desemprego, a saúde (ou falta dela), a velhice desamparada e como tais aspectos relacionam-se ao desencanto com o sistema e com as reformas que, de uma forma ou outra, atingem a educação. Alude-se ainda, nesta primeira parte, à síndrome da desistência ou Burnout, doença que atinge os trabalhadores da educação angustiados com as cruciais questões que se impõem: “Qual o sentido da atividade docente?”, o que é possível fazer cotidianamente? Qual a função da escola?
Educar para a competitividade do mundo produtivo-capitalista? Educar para rápida e boa inserção no mercado trabalhista? As múltiplas e desencontradas respostas que podem ser dadas às questões acima são analisadas pelos autores com lucidez e discernimento, no que pode soar como um convite à resistência por partes dos educadores.
Pablo Gentili aborda primeiramente a exclusão e em seguida questões referentes à formação da cidadania.
Gentili fala em três tipos de exclusão: a que exclui exterminando, a que exclui confinando o indivíduo e por último, e não menos perniciosa, a que segrega incluindo ao atribuir determinado status a certos grupos de indivíduos. Essa exclusão silenciosa, porém visível, aparece de forma gritante na educação pública em nosso país e possibilita que se ofereça educação para todos sem riscos para os grupos dominantes uma vez que educação para todos não significa educação de qualidade para todos.O autor faz-se contundente ao criticar a infrequência com que as situações de exclusões em nosso país causam indignação e questiona quanto a educação tem contribuído para essa nulidade de espanto.
Pablo Gentili apresenta cidadania em duas perspectivas: como condição legal e como atividade desejável.
Como condição legal fala-se em cidadania civil (liberdade de expressão, pensamento e religião), cidadania política (participação), cidadania social (direitos sociais e econômicos: educação, bem-estar, saúde, trabalho). Educar no âmbito da cidadania como condição legal limitar-se-ia, portanto a transmitir os direitos reconhecidos, o que não se coaduna com a idéia de educação na perspectiva da educação como atividade desejável, onde educar ultrapassa o simples reconhecimento dos direitos para alcançar a realização dos atributos que definem cidadania.
O autor destaca a coerência que devem ter as ações pedagógicas com os princípios que sustentam a educação cidadã: “A moralidade democrática não pode se fundamentar em procedimentos autoritários”. Complementa com a observação de que a prática do professor, talvez mais que o conteúdo em si, é instrumento de ensino.
Chico Alencar discorre sobre a realidade brasileira nos âmbitos social, educacional e cultural apresentando fatos históricos e dados estatísticos, por vezes, permeados de citações literárias; nem por isso a abordagem do autor deixa de ter profundidade reflexiva ao conduzir o leitor pela alarmante realidade da evasão e repetência, do superlotamento das salas, do analfabetismo, do acesso à leitura, museus, teatros e cinemas...
Chico Alencar destaca os “marcos fundamentais na educação de cinco séculos no Brasil”, a saber: Latifúndio (controle do saber por poucos); Monocultura (compartimentalização, reducionismo); Escravidão (autoritarismo elitista); Patriarcalismo (machismo sexista); Dependência externa (cultura importada de modelos eurocentrado ou americanizado). Marcos esses que, segundo o autor, ainda têm lugar em nas modernas salas de aulas do país onde a realidade vivida e a realidade ensinada guardam distâncias tão grandes uma da outra que o aluno não reconhece a primeira na segunda.
Alencar destaca a compreensão da realidade, o querer transformar essa realidade e a crença nos grupos e classes como sujeitos da história como saberes básicos do educador humanista, este sendo o educador que estimula, luta e constrói: humaniza.
Educar na esperança em tempos de desencanto é uma obra cuja leitura fluente não prejudica o desenvolvimento do assunto proposto. Não chega a ser uma obra revolucionária dentro da educação, mas nem por isso, medíocre. Correndo o risco de parecer piegas, ouso descreve-la, talvez, como um bálsamo - por apontar a esperança quando é mais fácil ver o desencanto.
Ao propor a combinação da “militância concreta com a reflexão acadêmica” (ação-reflexão-ação), a obra mostra uma certa sintonia com idéias correntes no meio pedagogico. A obra pode, assim, mostrar-se relevante para os trabalhadores em educação de diversas áreas.
Se por vezes o texto aproxima-se do discurso político, não poderia ser diferente: educação, não nos enganemos, é questão amplamente política.







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