O Evangelho segundo Jesus Cristo

José Saramago



Resenhas - O Evangelho Segundo Jesus Cristo


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Arsenio Meira 09/01/2014

O Evangelho de um grande escritor

José Saramago sempre esteve envolvido com a vida política de Portugal, principalmente após 1974,quando o romancista passou a se situar literariamente ao lado dos autores que vivenciaram a Revolução dos Cravos e que procuram imprimir às suas obras um traço combativo, crítico, experimental e reflexivo em relação à nova realidade portuguesa e aos novos caminhos abertos para a produção artística.

Não à toa, sua ficção é tocada por um empenhado trabalho de resgate, e de riscos diante da matéria histórica que escorre pelo universo ficcional; sobretudo, uma perspectiva irônica e subversiva em relação ao discurso literário, historiográfico e político. Acerca dessa ficção portuguesa atual que escreve a História, discutindo na tessitura narrativa os mecanismos e os caminhos ficcionais a serem percorridos pelo romancista no seu afã de dizer bem desse jogo que o universo narrativo estabelece com o leitor, destaca-se a produção monumental de José Saramago.

É difícil manter-se distante, impassível diante da sedução que faz parte do estilo Saramago de escrever.

“O Evangelho segundo Jesus Cristo” transporta o leitor por caminhos tão singelos e ao mesmo tempo tão polêmicos que é difícil dar conta de saber aonde essa viagem leva. A trama, bem trabalhada, além de mostrar Jesus Cristo como homem comum, também o leva à categoria de Reis dos Reis sem deixar que isso interfira, por exemplo, na sua relação conflituosa com sua mãe, no seu amor por Maria de Magdala ou no seu comportamento desafiador perante Deus.

José Saramago convida aos leitores a tirar das páginas dos livros e trazer para a vida, para o mundo tais experimentações; é a magia da verossimilhança. Para tornar a personagem o mais próximo possível do leitor, o autor força-o a uma atitude surpreendentemente nobre: lança-o ao mundo à procura do vizinho e amigo, ele não só o encontra, mas também acaba encontrando a libertação através da morte de maneira injusta. José está redimido.

Não há nada mais contemporâneo do que a morte de um inocente. Através da morte de José o texto mantém os leitores presos à realidade e sentimentalmente ligados à história e ao anunciado destino do ainda menino Jesus, já que o pai encontra seu fim tal qual ele próprio encontrará: crucificado aos 33 anos.

Além disso, a subtrama protagonizada por José faz o público-leitor viajar no tempo e o faz imaginar que papel teria hoje o pai do filho de Deus se a obra fosse contemporânea aos Evangelhos bíblicos. Em teoria, sempre se pode inventar um sistema que torne plausíveis pistas que, em outras circunstâncias não teriam ligação.

O Jesus criado por José Saramago é, afinal, um homem comum com todos os defeitos ou homem santo, acima do bem e do mal? No Evangelho do autor português, graças as suas metáforas bem criadas, ao seu gênio subversivo e estético, aos conflitos bem resolvidos e aos diálogos esclarecedores, Jesus é recriado com a dupla face dos seres humanos, sem perder sua face iluminada e messiânica.

Renata CCS 09/01/2014minha estante
Arsenio,
Assisti a peça há alguns anos e gostei demais! Montada a partir deste livro, a peça fixou-se no capítulo em que ocorre o encontro entre Jesus com Deus e o Diabo, suscitando dúvidas de ordem existencial nos três personagens. Achei fascinante e fiquei bastante instigada em ler esta obra.
Grande abraço!


Arsenio Meira 09/01/2014minha estante
Renata, leia. É perturbador. E olhe que o tema é gasto, cediço, mas nas mãos de Saramago... E o encontro entre Jesus com Deus e o Diabo, e o oceano de todo tipo de incerteza que surge a partir de então, lembrando um pouco o genial Dostoieveski, isto tudo ao vivo, deve ter sido acachapante! Um soco! , rs. Um grande abraço pra você também.


Gabriela 03/06/2014minha estante
Arsenio eu só não entendi uma coisa do livro... O anjo do inicio do livro, que bate na porta e fala com maria é o diabo?


Arsenio Meira 03/06/2014minha estante
Oi Gabriela. Lembro o início do romance. Este anjo esteve por perto em muitos momentos da vida de Jesus. Saramago deixa em aberto: não se sabia se ele era do bem ou do mal. É lícito pensa que era Jesus se disfarçando de mendigo pra testar a bondade dos homens. Mas não, acho que não. Essa dúvida angustiou Maria por nove meses até ouvir da boca deste anjo, diante na manjedoura do recém-nascido, tais palavras:

"Com estas minhas mãos amassei este pão que te trago, com o fogo que só dentro da terra há o cozi"

Como na história que vem sendo recontada por dois mil anos, José, ao descobrir que os romanos matariam todas as crianças de Belém, menores de três anos, fugiu com o filho. Na versão de Saramago, José salvou Jesus mas passou a carregar consigo a culpa de não ter salvo a vida dos outros meninos da cidade. Sem conseguir se perdoar, sonhou todas as noites com o acontecimento até o dia de sua morte. Jesus herdou os sonhos do pai e, perdendo sua paz, partiu em busca de explicações. Deixou a mãe com oito irmãos menores e levou as sandálias do genitor, num gesto simbólico, talvez, de que as histórias se repetem. Mas se Jesus está fadado a seguir os passos do pai, resta saber se Deus ou José. Mas acho que não é o Diabo.


Gabriela 03/06/2014minha estante
Eu achei todo tempo que era ele!
Sensacional o livro! Saramago é demais!
Obrigada pela resposta e atenção =)




W Nascimento 13/08/2010

Uma visão crítica do novo testamento.
Antes de mais nada tenho que dizer que qualquer crente fervoroso seguidor de Cristo vai odiar esse livro. Isso por que ele não é um trabalho voltado para ganhar fieis e sim com o objetivo e realizar uma análise crítica, detalhada e racional dos textos que compõem o novo testamento e também alguns do velho.



Também é interessate dizer que Saramago é um autor cujo estilo de escrita pode vir a incomodar alguns. Isso por uma série de motivos:

1- Ele não da espaço para os diálogos. As falas dos personagens ficam emaranhadas em conjunto com as descrições e isso pode confundir um leitor avoado.

2- Seu vocabulário é muito extenso e ele utiliza de um linguajar rebuscado. Logo, esse não é um livro para leitores iniciantes e sim para aqueles já acostumados. E também não serve para aqueles que gostam de ler um pouquinho e sim para amantes de literatura.

3- Sua narrativa é cheia de interrupções. Ele lança comentários como se fossem notas explicativas, promovendo um diálogo entre autor e leitor. Além disso, também temos as referências a acontecimentos tanto do passado quanto do futuro em sua obra, que vem a servir às notas explicativas.



"O Evangelho Segundo Jesus Cristo" é como uma mina, aonde o leitor terá de trabalhar duro para cavar as pedras, mas que, sem dúvidas, as pepitas de ouro ao fim valem o esforço.

Esse livro é sem dúvida fantástico. Saramago possui um domínio sobre a lingua exemplar, que consegue dar poesia aos assuntos mais banais. Tudo fica belo quando ele conta. Eu poderia citar passagens aonde isso possa se exemplificar, mas não quero estragar a surpresa de futuros leitores.

A crítica de Saramago é acida. Personagens como Jesus, Maria de Magdala, Deus e Diabo ganham roupagens novas, mas muito bem pensadas e coerentes com certas discussões dos textos bíblicos.



Sem dúviudas uma obra prima.

Vale a pena. Mas não se engane que vai encontrar aqui algum tipo de relato de fé. Pois não é a toa que esse livro rendeu a Saramago sua excomungação da igreja.

Willian Nascimento
Autor de “O Véu”
pordetrasdoveu.blogspot.com
Lucio 13/05/2010minha estante
dsculpa amigo, mas, pelo q sei, saramago não tem condições nenhuma (não é especialista em grego, nem em teologia bíblica e nem exegeta...) de fazer uma análise crítica de vitalidade acadêmica do Novo Testamento. Mas, como não li o livro (e ainda não passo de um leigo_'sobleigo', pra ser mais sincero...heheh_ no assunto) não posso criticar o livro... mas tenho planos para fazê-lo. Uma dscussão em cima disso seria legal...

t+


Vanessa 18/08/2010minha estante
Concordo com você em tudo.
Para ler Saramago tem que ser amante da literatura e ter estômago forte.
Saramago não escrevia para os fracos de espírito, mas sim para os fortes de coração.


xuxudrops 18/08/2010minha estante
"O Evangelho Segundo Jesus Cristo" é como uma mina, aonde o leitor terá de trabalhar duro para cavar as pedras, mas que, sem dúvidas, as pepitas de ouro ao fim valem o esforço.

Achei isso um elogio muito digno de Saramago, tão poético quanto sua escrita.


Lorrampi 24/10/2010minha estante
Eu li este livro e concordo com você em tudo.
A visão de Saramago e a forma como ele deu vida a este livro é uma coisa única. ^^

Ótima resenha, parabéns...


bardo 18/09/2011minha estante
Humm preciso ler este.. certo que meu último contato com Saramago ... rs Gosto muito dele, verdade, mas como vc disse ele exige muito do leitor.. Vc leu A Última Tentação de Cristo do Nikos Kazantzakis? Nele tb temos uma releitura sobre o evangelho, talvez menos ácida em alguns aspectos, em outros entretanto...


LMG 28/10/2011minha estante
Concordo com o Lucio, mas acho que a obra é valida como literatura de ficção e nada mais.


verô 26/02/2012minha estante
concordo com Willian. Ele descreveu muito bem o que ler Saramago e o q é ler esse livro.
Verônica Guedes


W Nascimento 18/05/2012minha estante
Também não sou exegeta, mas já li bastante textos cristãos para saber que Saramago tem propriedade no que fala. Além dos textos canônicos o livro faz referência a outros escritos que não entraram para o cânone bíblico, como os evangelhos de Maria madalena e Judas, o livro de Enoque e outros. Sem dúvidas um trabalho sublime e uma leitura crítica de qualidade.


Isaque 21/06/2012minha estante
Bom.. Estou lendo, sou cristão, acho que você fez um comentário bem acertado em vários pontos Willian, mas assim como o LMG acho o livro uma ótima obra literária de ficção!

Saramago é muito bom mesmo!


Luhlis 22/06/2012minha estante
Estou, finalmente, lendo "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", depois de meses adiando por conta da faculdade, e, sem dúvida alguma, já sei que este vai para a lista dos livros mais incríveis e geniais lidos na vida. Saramago trata a língua, as palavras, de uma maneira que dá até gosto de saber-se falante natural dela, mostra como o português é belíssimo e essencialmente poético. Além, claro, dos aspectos não estruturais da sua narrativa, aqueles ligados à ideologia e, diria até, filosofia. É um texto genial, que como vc bem disse na sua resenha, revela 'pepitas de ouro' ao leitor que se aventura e se empenha na procura. Nossa, é das melhores sensações do universo ir ligando tudo, criando sentido, ou, simplesmente, 'entendendo' e refletindo sobre aquilo que se lê. Enfim, algo doido assim. É meio quando se lê Machado de Assis e 'entende' (não gosto desse verbo, mas enfim), quando se percebe a sua ironia, suas estratégias, sua (possível) forma de conceber o homem, a condição humana, etc e tal. Vc grita: "ah, esse cara é um gênio!". Bem, como podemos perceber, sou uma baba-ovo do Saramago e estou LOUCAMENTE LOUCA pelo romance em questão! hahaha
Considerando o fato de que não terminei o romance, ouso dizer que a leitura vale mesmo muito a pena! Vale toda a pena! Vale a galinha inteira! (daquelas bestas do tempo de escola) Tanto para crente quanto para descrentes, ou céticos, uma vez que nunca será vão ou tarde para parar e pensar um pouco sobre o que cremos, o que somos, como essas duas coisas se conjugam. Enfim, discordando de alguns comentários, portanto, penso que o romance de Saramago deve ser lido não apenas como 'obra de ficção', mas como obra de vida e de homem, também. Exagero, talvez, para alguns, mas, para mim, Literatura nunca será APENAS ficção.
:D




Luan d'Menezes 09/06/2011

Épico da Humanidade
Só Saramago mesmo para fazer um ateu chorar por Jesus cristo. E isso é de uma profunda declaração que só prova a genialidade de um escritor que teve a coragem, a capacidade e a vontade de criar o que criou.

O Evangelho de Jesus cristo não é só de Jesus cristo, é de toda humanidade. É uma recriação da história, é um épico humano, que transcende e muito a compreensão de Deus e do Diabo. É o que significou esse nome que o título da obra leva, e também o que ele poderia ter sido, para todos os homens e mulheres desse mundo, de todos os tempos e variadas regiões, dos que foram cruelmente mortos, severamente torturados ou até mesmo dos que estão privilegiadamente vivos por causa dele e de seu Pai.

Saramago narra o inarrável para qualquer ser de pensamento pequeno porque prefere se fixar ao humano de um filho de Deus do que ao seu divino. Deus que mais é um homem com poderes infinitos do que algo que só é a imagem e semelhança do ser humano. E engana-se quem acha que Saramago reinventa Deus. O Deus de Saramago é o mesmo Deus bíblico, feito por homens. Sua crueldade, sua soberba, sua sede, suas contradições, estão tudo lá, na bíblia, e de lá foi tirado para se fazer o livro que deu a Saramago o prêmio Nobel.

Além de ser uma obra repleta de simbolismos, é uma incrível experiência. É cheia de sentimentos, de inteligencia e de originalidade. Sua linguagem é única. Apesar do que dizem, não há dificuldade em entendê-la, mesmo sem os pontos, travessões, interrogações e exclamações. A dificuldade está em sair do conformismo da linguagem comum, da narração comum, de escrita comum. O que cai muito bem para o tema que é abordado. Quem não consegue ir adiante e acompanhar Saramago em sua saga, é porque não está preparado, pois além da incomum escrita, ainda há a necessidade da compreensão do assunto.

Mas superando isso, e se seguir supera facilmente e até se fascina com estilo do autor, o que é mais forte em todo o livro é o que vem de dentro do coração. Embora Saramago fosse um cético, um descrente no homem, na política, na ideologia, nas religiões, ele nunca deixou de acreditar no amor, mesmo para um homem em sua idade, na qual todos pensam que apenas se vive das lembranças das antigas paixões. Maria de Madalena é uma mostra disso, que cativa com sua força de mulher e seu amor multidões, em que Jesus nada seria se não fosse tal força e tal amor, evidenciando mais uma vez a humaníssima matéria da qual ele foi feito.

Essa obra-prima por fim é um livro que se faz sentir a partir de suas reflexões. Transborda de parábolas, de pensamentos de um homem livre, que conta muito mais do que a simplória relação religiosa, saciando o leitor, que achará mais crível a narrativa de Saramago do que a do Deus que "escreveu" o evangelho original. Não porque envolve crenças, é porque ela apaixona.
Guilherme 16/09/2011minha estante
Talvez o Saramago acreditasse em um ser/força superior(que não o vulgarizado Deus das pessoas normais...), mas desacreditava na fé[falsa] que é plantada em nós desde a infância. Há meses ingressei em uma comunidade do Orkut de título 'Não Acredito em Religiões'. Hoje já não participo dela, porque não acredito mesmo é no espetáculo que a fé sempre foi e será.


Luan d'Menezes 08/01/2012minha estante
Mas amigo, Saramago era ateu do ponta dos cabelos a unha encravada dos pés.


LaiseM 09/01/2014minha estante
"Só Saramago mesmo para fazer um ateu chorar por Jesus cristo", inclusive chorar também pelo Diabo ao sair do barco, em seu nado de desespero.




Fabio Shiva 28/08/2010

Posso imaginar...
...que alguém leia esse livro e diga: Fabuloso!!!

Posso imaginar que outro leia e fale: Ultraje!!!

O que é inconcebível é que, depois de ler Saramago, se diga algo como: É, até que foi legalzinho... ou então: achei meio fraco...

Pois com Saramago é assim, ou você ama ou você odeia. Não há como considerá-lo mais ou menos. Saramago pode ser tudo, menos morno.

Mas o que eu mesmo posso dizer a respeito de O Evangelho Segundo Jesus Cristo? Terminada a leitura, fechada a última página, o que se seguiu foi um silêncio ainda cheio de assombro, onde faltam palavras.

O maior escritor da atualidade em língua portuguesa decide recontar a mais famosa de todas as histórias, a história que moldou o mundo como nós o conhecemos hoje. Qual terá sido a intenção de Saramago ao fazer isso? Qual a sua perspectiva, o seu ponto de vista? Que mensagens tencionava passar?

A pista maior para responder a essas perguntas está no próprio título do livro. Creio que Saramago quis contar a história de Jesus pelo ângulo humano, demasiado humano. Uma decisão corajosa, que foi levada a cabo com muito talento e habilidade.

Não posso dizer que concordei com o ponto de vista do autor. O Cristo que ele vê difere bastante do que eu vejo, embora os dois tenham em comum o fato de estarem bem distantes das versões oficiais e comumente aceitas. Essas minhas objeções, no entanto, são puramente espirituais ou filosóficas. Do ponto de vista estritamente literário, Saramago é um mestre irretocável.

Por aí já deu para se perceber que esse não é um livro recomendável para todos. Pessoas com uma visão religiosa muito rígida irão encontrar muitos motivos para se ofender ou se deixar influenciar. Pois esse é um livro que irá testar as suas convicções, sejam elas quais forem.

Lendo esse livro, finalmente entendi porque achei a versão cinematográfica de Ensaio Sobre a Cegueira tão mais densa e pesada que o original. É que Saramago escreve sempre com um leve sorriso irônico nos lábios, mesmo ao contar os maiores sofrimentos, e foi justamente essa relativa leveza de sua prosa que não havia como transpor para um filme.

A prosa de Saramago, aliás, merece ser louvada à parte, e também criticada, pois tanto há quem ame como quem odeie, como já foi mencionado, essa peculiar característica de engolir os pontos parágrafos e emendar tudo entre vírgulas, algo que exige habilidade não só de quem escreve, como de quem lê, para corretamente identificar e interpretar as orações coordenadas e subordinadas, alguns aqui já irão fechar a cara só de imaginar o esforço que será ler Saramago, asseguro que nem tanto, nem tanto, basta um pouco de boa vontade para apreciar o seu mistério, fica aqui essa pálida imitação como um exemplo, em se querendo, nada é impossível.

Voltando ao Evangelho, em resumo, nesse primeiro momento após a leitura minha posição é ambivalente. Esperava mais do autor. Esperava menos do livro.

(16.07.09)

Carla Macedo 02/09/2010minha estante
Depois desta resenha só me resta lê-lo o mais rápido possível! A PÁLIDA IMITAÇÃO foi excelente! Nem me atrevo a fazê-la! Conheci o Sr. Saramago através do Memorial do Convento e foi exatamente a forma de escrever que me cativou primeiro pelo desafio destas páginas iniciais e depois foi somente puro deleite.


Fabio Shiva 02/09/2010minha estante
Valeu pelo comentário!
Ainda não li Memorial do Convento, quero muito!!!




Tati 08/01/2009

não importa a sua religião... você deve ler isso.
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sonia 05/03/2012

para além da religião
Este livro é uma sátira para a estupidez humana, que transforma tudo em mesquinharia e guerra, que se prende a detalhes tolos esquecendo a real mensagem.
Para cristãos de cabeça aberta, o livro é tão delicioso quanto para os não cristãos.
Muitas reflexões podem ser feitas pelos que tiverem a coragem de abandonar por um momento a obediência servil aos dogmas da igreja: afinal, quantas mortes estúpidas, desde queima de bruxas que nunca existirem e de cientistas que apenas faziam ciência - todos inocentes e torturados pela louca Inquisição, a facção fundamentalista da religião cristã.
O que o autor combate no livro não é a religião de amor e paz, e sim os tortuosos caminhos trilhados pela humanidade liderada por pessoas venais - lembrem-se dos Bórgias, 'papas' que usavam venenos para assassinar seus inimigos.
Renata CCS 29/10/2013minha estante
Assisti a uma bela adaptação no teatro, há alguns anos. Fiquei fascinada! Ainda não tive a oportunidade de ler esta obra, mas está na fila.




08/11/2010

Sem querer ofender nenhuma crença, esse Jesus eu era capaz de seguir...
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chaany 27/05/2013

Eu acredito que a primeira coisa que todo mundo deve sentir assim que abre O Evangelho Segundo JC é uma total estranheza e até mesmo confusão pela linguagem em que o livro é escrita. A gente fica completamente desnorteado tentando entender onde estão os pontos, as interrogações, as aspas, os travessões, e por aí vai...

Mas depois que você consegue atravessar o primeiro capítulo (o que não é nada fácil) você vai cada vez mais se acostumando com a forma peculiar de escrita de Saramago e em questão de pouco tempo você já começa a pensar que as pontuações já não servem mais para nada, pois Saramago as tornou obsoletas!

O Evangelho Segundo Jesus Cristo faz parte do gênero de Realismo Fantástico, muito popularizado após Gabriel Garcia Marquez escrever Cem Anos de Solidão. Para mim essa foi a melhor surpresa em relação ao livro, pois posso afirmar sem dúvidas que esse é o meu gênero favorito.

Se propondo a narrar a história arquiconhecida de Jesus Cristo de uma forma completamente irreverente, José Saramago criou uma obra muito polêmica. Não tem como negar que qualquer cristão ao ler essa obra e, principalmente católico, passa por alguns sérios dilemas ao ver figuras sagradas como José e Maria sendo descritas de forma tão mundana. Me oponho de forma categórica à redução dessa obra em uma simples crítica de um ateu à Igreja Católica, pois o ESJC é de longe muito mais que isso. Por esse motivo, eu recomendo fortemente que você, cristão, deixe seus dogmas de lado para entrar nessa obra maravilhosa de Saramago e tentar pensar nela como o que ela é: uma ficção, onde José, Jesus e Maria são meros personagens.

A parte que mais me emocionou no livro é quando Jesus descobre que é filho de Deus, escolhido para ser o Messias e que o seu destino é a cruz. Jesus tenta lutar contra seu próprio destino, pois ele não quer ser responsável por todas as mortes que estão por vir depois da sua crucificação. A Inquisição, as Cruzadas... Jesus não quer ser culpado pela morte de milhares de inocentes. Maria Madalena é a pessoa que vai reconfortar Jesus. Aliás, na obra, Maria Madalena é sua fortaleza, aquela que vai dar todo o consolo necessário para que ele enfrente seu destino. Ela exerce uma influência exorbitante sobre todos os atos do Messias e o orienta em todos os momentos de dúvida. No ESJC, Saramago coloca a imagem de uma mulher prostituta como a personagem mais sábia e decisiva da trama.

No trecho abaixo, as palavras decisivas de Maria Madalena que fazem com que Jesus aceite seu destino:
"Deus é quem traça os caminhos e manda os que por eles hão-de seguir, a ti escolheu-te para que abrisses, em seu serviço, uma estrada entre as estradas (...) portanto melhor seria que aceitasses com resignação o destino que Deus já ordenou e escreveu para ti, pois todos os teus gostos estão previstos, as palavras que hás-de dizer esperam-te nos sítios aonde terás de ir, aí estarão os coxos a quem darás voz, os cegos a quem darás vistas, os surdos a quem darás ouvidos, os mudos a quem darás voz, os mortos a quem poderias dar vida."

Em suma, esse livro ocuparia uma das 5 primeiras posições de qualquer lista sobre os livros que você precisa ler antes de morrer.
Nota 5/5

www.centraldaleitura.wordpress.com
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Alexander B 26/01/2010

Um Evangelho bem mais interessante e engraçado que os outros
Quando peguei este livro, pensava que fosse uma visão diferente da vida habitual de Cristo, aquela que se conta na bíblia. Isso, não há dúvida, existe na obra de Saramago. O que não esperava era ver tanta hilariedade, misturada ao drama e à ironia que o autor deu ao livro. Mistura esta que me conquistou desde as primeiras páginas, ao dizer que as loiras sempre foram causa de perdição na humanidade.

"O Evangelho Segundo Jesus Cristo", é um livro que fala sobre a vida de Jesus. Entretanto, não é aquela vida cheia de glórias e pompas a qual o livro sagrado conta; Saramago, em sua obra, nos mostra um Jesus humano, que mesmo sendo filho de Deus, é passível de erros e dúvidas. Em vários momentos, quis ele não ter de levar esse tão pesado fardo. Mas como se tratava de Deus, como discordar de sua palavra?

A parte mais hilária do livro foi o primeiro encontro entre Jesus e Deus. Este último aparece de uma forma completamente diferente da apresentada pelos religiosos. Saramago com certeza enfureceu muitos padres, bispos e pastores com o seu Deus diferente. Morri de rir com esse encontro. Para quem é religioso, isso soaria bastante como uma grave blasfêmia, mas como eu nem Saramago somos, isso não faz importância.

Mesmo que algumas partes me entediassem, a maioria do livro me chamou a atenção por ser um relato digamos "desgarrado" da narrativa bíblica. Conta sim a vida de Jesus, começando por sua crucificação, e só depois partindo para o seu nascimento. Mas a forma como Saramago mudou a história, como eu a conhecia, me chamou e muito a atenção.

Como a literatura é algo livre, e se pode escrever o que quiser, penso que as pessoas, mesmo religiosas, devem entender que essa é uma obra de ficção. Saramago não quis ofender nenhum crente na graça de Deus e na bíblia, mas teve a ideia de construir SEU evangelho. Se Mateus, Marcos, Lucas e João construíram os seus, cada um de acordo com suas vontades, por que Saramago, um homem como qualquer um, não poderia fazer o seu? Talvez a raiva venha do fato de que ele modificou a história, fazendo graça da figura de Jesus, e até da de Deus. Isso um religioso não aceita nunca. Nem mesmo sabendo que seja uma obra de ficção.

Uma parte do livro que está e minha cabeça até agora e que me fez gostar do livro de vez foram as consequências do sacrifício a que Jesus faria. Por seu nome, seriam mortas centenas de milhares de pessoas, sejam pela Inquisição ou pelas Cruzadas. Aquilo me marcou muito, e está ressoando em minha mente até agora, pois poucas vezes vi a verdade tão estampada em meus olhos como nessas páginas, mesmo que eu já a soubesse há muito tempo.

"O Evangelho Segundo Jesus Cristo" é um livro para não apaixonados por seu credo. Se você ama seu deus acima de tudo, e é um cego como muitos, por favor, não chegue perto dele. Se é um religioso, mas mesmo assim não tem preconceitos contra os livros e quer ler uma obra que faça uma sátira de seu maior ícone, pode ler. Já para quem não é religioso - como eu - será um deleite e uma leitura muito agradável.
Aline 11/10/2013minha estante
Cheguei na livraria para comprar algum livro de Saramago, o único que tinha era esse, o vendedor que já minha conhecia disse que eu deveria começar a ler Saramago com outro livro, ele tinha razão!




Dada 29/02/2012

A primeira dificuldade em ler um livro de Saramago é se abituar ao seu jeito diferente de escrever, principalmente porque foi o primeiro livro dele que eu li. Com um pouco de boa vontade em algumas páginas contornei a dificuldade inicial.
Geralmente quando gosto de algum livro, fico tão envolvida que não consigo parar de ler até saber o final, não foi o que aconteceu com esse. Primeiro eu já estava familiarizada com a maioria dos personagens, o que as vezes não fazia diferença nenhuma. Não vou falar que foi um livro que me despertou um interesse logo de cara, ele ficou bom mesmo quase que no final depois da conversa que Deus, o Diabo e Jesus tiveram. Não consigo explicar como isso acontece, mas esse foi um livro que eu não achei muito graça, mas ao mesmo tempo adorei. Acho que só Saramago mesmo para criar uma obra, que foi para mim tão antagônica.
No livro Jesus é atormentado por ter um fardo tão grande, ser o filho de Deus que tem o dever de propagar a sua palavra. E Deus nessa história não é nada bonzinho, é um "sujeito" mesquinho que quer os louros da vitória unicamente para si. Usa Jesus para ter mais poder sobre os fiéis e para provar que ele é o único deus, considerando que a narrativa se passa em uma época que os romanos acreditavam em vários deuses. Para atingir os seus objetivos ele afirma que muita gente deve e vai morrer, com o propósito de fazer as pessoas acreditarem mais nele. E o Diabo, é claro, que leva a fama. O Diabo é outro "sujeito" interessante. Ele não é a maldade, ele é apenas uma consequência da existência de Deus, tão egocêntrico, é como se um não existisse sem o outro. O sim e o não, o claro e o escuro, a noite e o dia. O bem e o mal.
O livro é um balde de água fria na cabeça de qualquer um que ache que vai ser contada um linda história sobre Jesus, principalmente para os muito religiosos. Para começar Deus não é bom, ele é tão vil como qualquer humano. Jesus faz de Maria Madalena sua mulher sem casamento, Maria concebeu Jesus da forma tradicional, ou seja, tendo relações sexuais com José. É uma crítica, eu diria com senso de humor.
Outra persongem que eu achei das mais importantes foi a Maria Madalena. Ela é uma mulher, que na época era a mesma coisa que quase nada, muito inteligente e era a pessoa para quem Jesus contava os mínimos detalhes de sua vida e consiguia ter uma compreensão clara das coisas que acontecia com Jesus.
A história teve dois pontos altos. O primeiro quando Jesus ia ressuscitar Lázaro Maria Madalena vira para ele e fala "Nenhum homem é tão pecador que mereça morrer duas vezes". Todo mundo vê o milagre de Jesus ressuscitando Lázaro como uma dádiva e Saramago interpreta como uma maldição.
O último ponto alto é quando Jesus está na cruz morrendo e diz "Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez". Ele fala para os homens perdoar os atos ruins de Deus.
Enfim, um livro intrigante, bem escrito(feito pelo Saramago só poderia ser) e forte. Forte porque derruba muitas teses que enfiam na cabeça de qualquer um desde crianças.
Não considero isso como uma resenha, porque o meu ponto de vista foi o que vigorou durante todo o texto.
Leiam, leiam, leiam e leiam mais uma vez. Vale muito a pena avisando que não é para qualquer um. Pessoas com a cabeça fechada para diferentes pontos de vista não vão gostar e vão achar um insulto ao cristianismo e principalmente à igreja católica.
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leandro_sa 17/04/2011

Coragem em forma de literatura
Quando li os ensaios de Saramago (Sobre a Cegueira-1995 e Sobre a Lucidez-2004)imaginei que o autor não me surpreenderia mais com os seus enredos magistralmente elaborados. Mas ele é realmente genial e consegue fazer a história mais conhecida do cristianismo nos soar como nova.

"Evangelho Segundo Jesus Cristo" é antes de qualquer coisa uma obra corajosa. A hostilidade que sofreu de Portugal foi o preço que Saramago teve que pagar para criticar de maneira contundente a idealização que mitos religiosos produzem na sociedade.

Ao humanizar Jesus Cristo, e demonstrar que Deus lhe escolheu, assim como a Maria, aleatoriamente, acredito que o autor quis também demonstrar que todos podem exercer de alguma maneira o papel de líderes e salvadores em determinado lugar ou momento.A desconstrução da imagem de Deus e do Diabo também é um fator importante na composição ficcional desse evangelho. Além da desvalorização da mulher e de sua submissão na sociedade patriarcal que é outro mote para muitos debates.

Enfim, Saramago realmente construiu uma das melhores obras da literatura portuguesa e é um dos escritores que me dá orgulho em ser um futuro professor de literatura.



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Anica 07/04/2009

O Evangelho Segundo Jesus Cristo
Agora que eu perdi meu medo de Saramago, vamo que vamo né. Li há uns dias e acabei não comentando aqui porque foi na semana de surto-adeus-ao-hellfire, então acho que é melhor eu deixar registrada minhas impressões antes que eu esqueça o que de fato achei (o que acontece com frequencia, acredite. O pior é que minha memória tende a amar ou odiar as coisas depois de um tempo, sem muito meio termo). E para o caso de estar com pressa e não querer ler o post até o fim para saber o veredito, eu gostei muitão, mas acho que Ensaio Sobre a Cegueira ainda é superior (o que não quer dizer muita coisa fora que se alguém pedir para eu indicar algum do Saramago, eu indicarei Cegueira, hehe).

Do começo: publicado em 1991 quando eu ainda brincava de Barbie e achava que Stephen King era a coisa mais cool no mundinho dos livros (cofcof), O Evangelho Segundo Jesus Cristo relata a história de Jesus (ah, sério?), desde a gravidez de Maria até o momento da crucificação (o legal de falar sobre esse livro é que é meio difícil lançar algum spoiler há,há).

Acredito que o charme da obra fique por conta da humanização de Cristo. Por humanização quero dizer “tirar qualquer aura de perfeição que a Bíblia passa no Novo Testamento”. Aliás, uma coisa interessante nessa construção da figura humana de Jesus está no fato de que Saramago coloca a fase “milagreira” do Messias para depois da metade da obra. Boa parte é primeiro focada em Maria e só com a morte de José (gente, e eu que nunca tinha pensado no que diabos acontece com José!) Jesus passa a ser a personagem principal, digamos assim.

A relação dele com Maria Madalena (aqui Maria de Magdala) também é outro ponto que contribui para o desenvolvimento da “humanidade” de Jesus: ele sente e age como um homem qualquer. Ele ama Maria, uma prostituta, mas não consegue viver na casa dela porque a vizinhança zoa direto com ele, sendo a escolha do casal queimar a casa e se mandar. Ele não abre mão do amor como muitos homens fariam facilmente, mas mesmo assim mostra que sente… hum… orgulho? É, digamos que orgulho, como um sujeito qualquer.

Outro detalhe interessantíssimo é a questão dos milagres, e como são apresentados. Nesse caso deixarei uma citação do livro, até para vocês terem um gostinho do ótimo senso de humor do Saramago, do momento da transformação da água em vinho:

Se não fosse a voz do povo, representada, no caso, por uns servidores que no dia seguinte deram com a língua nos dentes, teria sido um milagre frustrado, pois o mordomo, se desconhecedor estava da transmutação, desconhecedor continuaria, ao noivo convinha, evidentemente, abotoar-se com o feito alheio, Jesus não era pessoa para andar dizendo por aí, Fiz uns milagres tais e tais, Maria de Magdala, que desde o princípio participara do enredo, não iria pôr-se a fazer publicidades, Ele fez um milagre, ele fez um milagre, e Maria, a mãe, ainda menos, porque a questão fundamental era entre ela e o filho, o mais que aconteceu foi por acréscimo, em todos os sentidos da palavra, digam os convidados se não é assim, eles que voltaram a ter os copos cheios.

Sério, muito bom. E não bastasse isso, ainda tem a figura do Pastor (ok, aqui eu posso revelar spoilers então não vou me prolongar muito sobre a personagem), que rende ótimos diálogos com Cristo e cuja frase “Não aprendeste nada, vai.” fica ecoando na memória mesmo após terminar a leitura. E sim, tem a conversa com deus e o diabo na barca, que na verdade foi a primeira coisa que ouvi falar sobre o livro (lembro que meu irmão estava lendo esse trecho na praia, em um ano novo qualquer).

Resumindo, é um livro fenomenal embora não seja tão bom quanto Ensaio Sobre a Cegueira. A cada livro que leio mais e mais vejo como era bobagem minha essa “Saramagofobia”, achando que não seria capaz de acompanhar uma narrativa só porque o sujeito não usa dois pontos e travessão para os diálogos, até porque no fundo é só isso que faz a obra dele parecer mais “difícil”. O Evangelho… é simplesmente imperdível.
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Jumpin J. Flash 18/12/2009

Aborrecimento infinito
Eita livrinho chato da peste!

Livro chato e autor mais chato ainda. Como disse o outro, o maior desejo de Saramago é humanizar Deus e deificar Lenin e Stalin. Meu medo é que ele vai ter tempo de sobra para conseguir isso, pois como todo comunista ele é IMORTAL, a exemplo de Gabriel Garcia Marquez, Fidel Castro, Oscar Niemeyer...
Faraday 27/11/2009minha estante
Vou dizer que você tá louco em dizer isto mas antes vou ver quais livros você já leu e depois confirmo o que disse.

Abraço


Faraday 27/11/2009minha estante
ok, retiro o q eu disse........mas pelos bons livros que você já leu, não pelo que falou do Saramago.

Abraço


Bell 18/12/2009minha estante
Retirou o q disse pq? Fui ver a estante de curiosa e só uns 20% daquilo se salva.


Markera 18/06/2010minha estante
O Saramago acabou de morrer, rapaz.


Gláucia 22/07/2010minha estante
Bom, concordo que esse livro não seja bom, mas vc chegou a ler algum outro dele? Não sou muito do tipo que se deixa levar por modinha mas Ensaio so bre a cegueira, Interminencias da morte, o homem duplicado, a caverna, etc, são muito bons.




Thiago 02/10/2011

Ateísmo Cristão
Ao contrário da opinião predominante, vejo nesse livro uma das obras mais cristãs de todos os tempos.

Jesus, nessas páginas pagãs, é apresentado como personagem histórico humanizado e possuidor de qualidades morais absolutamente cristãs. De certa forma, José Samarago abriu mão de seu ateísmo radical e retratou o nascimento, o crescimento e a morte de um Jesus que, contrariando a tradição judaica pré-estabelecida -- tal como também acontece nas páginas sagradas --, surgiu com uma doutrina humanista e revolucionária.

Mas o mesmo não pode ser dito sobre o próprio Deus. O evangelista Saramago, nesse particular, utilizou-se fortemente da opressora imagem de Deus encontrata no Antigo Testamento -- sobretudo no Pentateuco --, para apresentar aquilo que, a seu ver, seriam as inconsistências teológicas judaico-cristãs. Aqui, pai e filho, Deus e Cristo, são colocados em extremos opostos para que o leitor, conscientemente ou não, tenha uma visão lógica dos textos sagrados e da própria experiência de vida de Jesus.

Divagações à parte, não se pode esquecer que se trata de uma obra literária, e assim, portanto, deve ser lida -- até mesmo para que não reste empobrecida suas qualidades estéticas e artísticas.

Enfim, trata-se de um livro no mínimo curioso e que apresenta o melhor do estilo literário de Saramago.
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Carina 11/09/2013

Deuses humanos, demasiadamente humanos...
O Novo Testamento contado por um autor ateu, em princípio, deveria ser um texto totalmente isento de religiosidade. No entanto, ao transformar Jesus em um protagonista humano, preocupado com as causas sociais e o futuro da humanidade, Saramago traz uma nova sacralidade à sua história.

Alguns fatos são narrados de maneira bem diversa da Bíblia, mas com tamanha arte literária, que se transformam quase em versões apócrifas do Evangelho. Durante quase metade da obra, José, que representa o homem pobre, subserviente e justo, desperta a atenção do leitor, preparando-o para entender a herança humana de Jesus.

Quando o Nazareno começa a assumir o posto de personagem principal do livro, o leitor já está totalmente envolvido com questionamentos sobre o destino dos homens, sua função na Terra, as injustiças do mundo. Jesus assume uma voz pioneira, que questiona Deus ao mesmo tempo em que defende a humanidade. Uma das críticas que a obra se propõe a fazer é que as religiões não podem ser mais importantes que as experiências humanas - não há guerra santa nem vida que valha a pena ser perdida em nome de deuses opressores.


Trechos:

“O Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um é somente a ausência do outro.”

“Nada começa que não tenha que acabar, tudo o que começa nasce do que acabou.”

“...uma ausência exterior, como se o mundo, de um momento para outro, se tivesse apagado ou posto à distância.”

“...o seu pensar não foi assim tão claro, o pensamento, afinal de contas, já por outros, ou o mesmo, foi dito, é como um grosso novelo de fio enrolado sobre si mesmo, frouxo nuns pontos, noutros apertado até a sufocação e ao estrangulamento, está aqui, dentro da cabeça, mas é impossível conhecer-lhe a extensão toda, seria preciso desenrolá-lo, estendê-lo, e finalmente medi-lo, mas isto, por mais que se intente, ou finja intentar, parece que não o pode fazer o próprio sem ajudas, alguém tem que vir um dia dizer por onde se deve cortar o cordão que liga o homem ao seu umbigo, atar o pensamento à sua causa.”

“O espelho e o sonho são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio.”

“...sentindo-se a cada momento prestes a abandonar o mundo, como se estivesse suspensa de um fio delgado que fosse seu último pensamento, um puro pensar sem objetos nem palavras, apenas saber que se está pensando, e não poder saber em quê e para que fim.”

“...cada um de nós é este pouco e este muito, esta bondade e esta maldade, esta paz e esta guerra, revolta e mansidão.”

“Quem és tu, que comigo te pareces, mas a quem não sei reconhecer (...) o certo é que um silêncio como este, quando fixamente olhamos a chama de uma fogueira e calamos, se quisermos traduzi-lo em palavras, não há outras senão aquelas, e dizem tudo.”

“A José quase apetece travar o passo para chegar atrasado aos problemas que o esperam.”

“...deserto é tudo quanto esteja ausente dos homens, ainda que não devamos esquecer que não é raro encontrar desertos e securas mortais em meio de multidões.”

“O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por este mesmo e único motivo.”

“...então, já não chorava, mas seus olhos nunca mais voltarão a estar secos, que este é o choro que não tem remédio, aquele lume contínuo que queima as lágrimas antes que elas possam surgir e rolar pelas faces.”

“...passavam e não acabavam de passar, tal uma serpente de que não vemos nem a cabeça nem o rabo e que ao mover-se é como se não tivesse fim, entra-nos no coração o medo, assim eram aquelas tropas marchando atrás de um morto, mas também em direção à sua própria morte, aquela de cada um, que mesmo quando parece demorar-se sempre acaba por bater-nos à porta, São horas, diz ela, pontual, sem diferença, tanto faz com reis ou com escravos...”

“...o dia de amanhã não se sabe a quem pertence, há quem diga que a Deus, é uma hipótese tão boa como a outra, a de não pertencer a ninguém, e tudo isso, ontem, hoje e amanhã, não serem mais do que diferentes nomes da ilusão.”

“...não tens que levar contigo toda a culpa, e, no segredo do seu coração, quiçá ouse perguntar, Quando chegará, Senhor, o dia em que virás a nós para reconheceres os teus erros perante os homens.”

“...o carpinteiro levantou os olhos para as três grandes pedras que, lá no alto, juntas como gomos de um fruto, pareciam estar esperando que do céu e da terra lhes chegasse a resposta às perguntas que lhes fazem todos os seres e coisas, apenas por existirem, ainda que não as pronunciem, Por que estou aqui, Que razão conhecida ou ignorada me explica.”

“...branco sangue que é a lágrima.”

“...talvez os homens nasçam com a verdade dentro de si e só não a digam porque não acreditam que ela seja verdade.”

“A ausência é também uma morte, a única e importante diferença é a esperança.”

“...não vejamos sempre, nós homens, as mesmas coisas da mesma maneira, o que aliás, tem se mostrado excelente para a sobrevivência e relativa sanidade mental da espécie.”

“...a força da primavera seria nada se o inverno não tivesse dormido.”

“...o medo comum é assim, une facilmente as diferenças.”

"...a história de Deus não é toda divina."

“...é preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue.”

“Sendo Deus, tens de saber tudo, Até um certo ponto, só até certo ponto, Que ponto, O ponto em que começa a ser interessante fazer de conta que ignoro.”

"Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez."
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