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Paidéia

A Formação do Homem Grego

Werner Jaeger
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Felipe Pimenta 20/03/2014

A Paideia é um dos legados imortais da mentalidade grega. Werner Jaeger conseguiu resumir em um livro, extenso é verdade, todo o conceito de formação moral, física, poética e teológica do homem da Antiguidade. Qualquer pessoa que estiver lidando com a educação na sua vida diária vai ficar impressionada com o alcance que os poetas e filósofos gregos deram a esse tema. Na verdade, nos dias atuais, especialmente em um país com um sistema educacional como o brasileiro, que em sua maioria é incapaz de dar aos seus alunos ensinamentos básicos sobre gramática e aritmética, essa base da Paideia grega é impossível de ser transmitida aos estudantes de nosso tempo. É certo que durante vários séculos as Humanidades foram valorizadas no Ocidente, e até mesmo no Brasil. Mas como sempre surgem mentes brilhantes com as melhores intenções para reformar o ensino, o resultado foi que o sistema educacional brasileiro foi assaltado pelo modelo tecnicista, e os resultados foram trágicos. Houve nos últimos anos algumas luzes de esperança para a nossa educação, uma vez que filosofia voltou a ser ensinada nas escolas, mas isso só não basta.

A Paideia tal qual os gregos entendiam, envolve o ensinamento do corpo e da mente. Poesia, teologia, filosofia, gramática, retórica, matemática, música e astronomia faziam parte da formação da alma do homem grego.Jaeger demonstra isso desde os tempos remotos da Hélade com a poesia de Homero. Como GiamBattista Vico havia percebido, toda grande civilização começa com os poetas-teólogos, que são aqueles que transmitem o mito fundador da nação para o povo. A poesia foi a primeira forma de preparação da mente de crianças e adultos para a compreensão do mundo. O Mythos é a pedagogia de Homero, porquanto os seus poemas reproduzem as estórias de deuses e homens que dão início à Paideia. Jaeger acredita que Homero produz um pensamento “filosófico” relativo às leis eternas que governam o mundo. Na Ilíada e na Odisseia, as paixões humanas e os elementos da tragédia grega que Aristóteles iria explicar de forma tão maravilhosa na poética já se fazem presentes.

Existe um estudo dedicado à formação física e militar de Esparta, que tanta admiração causou aos atenienses. Pode-se dizer que Esparta foi a mãe da educação estatal na História. O homem espartano, segundo Jaeger, não tinha um conceito de imortalidade além do da morte gloriosa em batalha. O Estado era para eles o sentido da vida e a guerra algo desejável. A educação de Esparta nos causa repulsa em nosso tempo, porém para aquele momento histórico ela realmente era efetiva. Aristóteles nos diz em sua Política que a educação de Esparta era totalmente militarizada. Desde o primeiro momento, as crianças com o mínimo defeito de nascença eram expostas impiedosamente à morte. A criança era separada cedo de sua mãe e a responsabilidade pela sua criação passava ao Estado. A Paideia de Esparta estendia-se aos adultos, e como diz Jaeger, “ninguém podia viver ao seu bel-prazer”.

Nesse mesmo momento em que a educação de Esparta fazia sucesso, os gregos descobriram o Cosmos e a Matemática. Surgem os filósofos da physis e a matemática de Pitágoras. O homem começa a libertar-se do mito de Homero. As explicações para o funcionamento do universo começam a surgir. Pitágoras e sua escola provavelmente descobriram a matemática através dos egípcios, mas eles não se tornaram apenas repetidores de uma ciência antiga. Fizeram inovações, criaram uma teoria musical que passaria a fazer parte da Paideia platônica. Homens como Heráclito delimitam de alguma forma o alcance dos conhecimentos de um homem que conhece a si mesmo. Ele diz: “a multiplicação dos conhecimentos não proporciona sabedoria”. Heráclito completa: ” investiguei-me a mim próprio”. Jaeger diz que nesse momento a filosofia volta ao homem, depois que várias tentativas de explicar o porquê do universo não foram suficientes.
As tragédias de Ésquilo e Sófocles tornar-se-iam para os gregos uma tentativa de explicar os imprevistos da natureza e da fortuna que tanto os atemorizavam. No Prometeu Acorrentado, Ésquilo fala sobre o drama da alma ( PATHOS) de um Titã que terá que descer até as profundezas para resgatar o seu erro. Prometeu é o Titã que rebela-se contra Zeus por compaixão aos homens que ele vê como vivendo como cegos nesse mundo. Rouba, então, o fogo divino e o concede aos homens. Ensina a eles várias outras ciências, entre elas a matemática. Mas sua rebeldia é descoberta e ele é preso com correntes a um rochedo. Está destinado a sofrer o castigo eterno por sua HUBRIS. O espírito de Prometeu, como o de todos os gnósticos de todos em todos os tempos se revolta contra a divindade. O ódio de Prometeu que grita ” odeio todos os deuses” é o mesmo de Satã no momento da Queda: ” não servirei!” A revolta contra a divindade está presente no mito grego. Na sequência da tragédia, Prometeu irá reconciliar-se com Zeus. Sófocles conseguiu atingir a mente dos gregos com uma outra tragédia que ainda hoje nos emociona: Édipo Rei. Aristóteles considerava essa tragédia como a melhor que existia. Édipo sofre uma virada da fortuna de maneira inesperada, e sofre o castigo (NEMESIS) mesmo sendo inocente. Em um mundo onde tudo era incerto como na Antiguidade, os poetas produziram sua Paideia que mostrava ao povo a razão da dor e do sofrimento. Da mesma forma que em Prometeu Acorrentado, no final o bem prospera. Os deuses têm compaixão de Édipo. Nas palavras de Jaeger: ” é o milagre da salvação que no fim o espera. Os deuses, que te feriram, de novo te porão de pé.” O mal existe de maneira temporária, porque no fim é o bem que triunfa. A Paideia dos poetas ensina os gregos através do sofrimento temporário que os deuses são bons.

Por fim falarei sobre a melhor parte do livro que é a filosofia platônica. O filósofo grego reuniu o que havia de melhor na Paideia grega para formar um sistema mais amplo ainda. O homem não só está preparado para ser um bom cidadão, como também aspira a contemplar o Bem. Para Platão, o homem e a mulher devem começar sua educação cedo. No seu diálogo As Leis, ele chega a dizer que devem começar a aprender na barriga de suas mães. A Paideia é completa, pois inclui música e poesia agora purificados de todo elemento maligno;inclui, também, a preparação física, pois sem ela o homem fica amolecido. É claro que a matemática também está presente. Platão aspirava que homens e mulheres pudessem ter o mesmo tipo de educação. Apesar de ter dedicado boa parte da vida escrevendo sobre o Estado ideal, no fim Platão tentou fazer que o homem que tivesse experimentado sua Paideia construísse o ” Estado dentro de si”, segundo as palavras de Jaeger. O ideal de Paideia de Platão era fazer que todos conhecessem o Bem. A contemplação do filósofo do AGATHON é o mito que ele nos conta na República. Existem dois mundos para Platão: o noumena e o phenomena. Platão quer que tenhamos atenção para o primeiro. Jaeger explica o que Platão quis dizer com sua imagem do deus Hélio. Esse é o filho do Bem. Quando o homem olha para o céu vê sua luz e a contempla. Se não olhasse para o Filho do bem, ficaria preso às trevas de noite. Quando o homem está em trevas, diz Jaeger, sua alma perde a razão. Quando contempla o Filho do Bem, o Sol, a alma se ilumina e percebe a causa do conhecimento e da verdade. A Paideia de Platão alcança o seu ponto máximo. Não só educa para esse mundo como também para o mundo das Ideias, esse sim, o que é eterno e não transitório. Contemplar e conhecer o Bem é o fim da Paideia do maior de todos os filósofos que é Platão.

site: http://felipepimenta.com/
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Maurino 01/05/2012

A emergência do Homem como Idéia.
Não é, de maneira alguma, um empreendimento simples resenhar uma obra como a Paidéia: a formação do homem grego; do filólogo alemão Werner Jaeger (1888 – 1961) - que foi, durante vinte anos, um influente professor em Harvard. Ora, tal dificuldade não se deve apenas à sua descomunal extensão - 1413 páginas em sua edição brasileira – mas principalmente à responsabilidade, naturalmente requerida, por se tratar de um notório clássico, que obteve uma imensa repercussão, não só em meio ao público em geral, para o qual ele foi originalmente escrito, como também no mundo acadêmico, onde foi ainda mais influente e marcou várias gerações.
Elaborado na década de 1920, em meio à primeira grande guerra mundial, quando toda a população planetária se impactava frente à avassaladora experiência histórica, ele tinha claramente a intenção de influenciar a cultura ocidental a reexaminar os seus próprios valores. Sim, o gentil e sereno helenista Jaeger tinha um ideal; e este só poderia se enraizar na experiência histórica da Grécia Antiga – quando filósofos, historiadores, oradores e poetas pujantemente o expressavam, como princípio formativo. Trata-se, como ele mesmo diz, do ideal grego de formação humana.
E abre-se um mundo na Grécia Antiga. Talvez pudéssemos, citando Höderlin, enunciar, em relação ao projeto de Jaeger, que dificilmente o que habita perto da origem abandona o lugar. Mas, o que então se revela na aurora grega? E qual seria o destino da nossa civilização? Parece-me que, pelo contrário, é no destinar-se que o homem se hominiza; que se constitui enquanto homem. Esse termo, destino, que lhe é tão caro e profusamente usado em toda a extensão da obra é menos um fim pré-determinado do que um processo dinâmico de formação, ou cultura, como a totalidade da obra criadora de um elevado tipo de Homem. Paidéia é a palavra utilizada para significar educação, a qual, para o autor, só começa com os Gregos. Portanto, enquanto momentos do tempo, passado, presente e futuro se fundem, sem se confundirem, numa vigorosa destinação epocal do Ser.
A Paidéia é mesmo um livro sobre a educação, mas sobre como Jaeger a entendia: um processo supremamente humano de formação, ativo e coletivo; um sentimento universal, ou expressão do espírito, em direção ao que os antigos conheciam como areté, ou virtude, excelência; fundamental ao que se entende nos dias de hoje como civilização. A história grega é, portanto, a história da educação como princípio de uma nova valoração do homem; que, jazendo na obscuridade, ainda viceja como consciência de si, na Europa Contemporânea. Entretanto, o uso freqüente de palavras como alma e espírito denuncia não só o escolasticismo como também a celebração de um ideal aristocrático, pouco disfarçado, que permeia toda a obra – talvez seja por isso que William Calder, no Dictionary American Biography, desconfie de um certo tom de evangelicismo humanista latente no livro.
Ademais, vários outros manifestaram críticas a seu respeito. Hugh Lloyd-Jones, por exemplo, se referiu à Paidéia como uma aborrecida história da civilização grega vista de uma perspectiva escolástica; já Arnaldo Momigliano, embora tenha admirado sua originalidade e sutileza, critica veementemente a insuficiência de referências, no que concerne à história social, econômica, jurídica e política da Grécia; enquanto Moses Finley, ratificando algumas acusações quanto ao caráter antidemocrático da obra, observa a falta de alusão à escravidão. Não obstante, afirme-se o que se quiser, essa expressão histórica do espírito na literatura e poesia tão representativa da areté humana – de acordo com as palavras de Jaeger – tem ainda muito a nos ensinar. De fato, a Paidéia é muito mais do que a celebração de um ideal, ou meramente um eloqüente e informativo guia de literatura grega, produzido por um acadêmico de notória confiabilidade, conhecimento enciclopédico e extraordinária imaginação. A Paidéia é também o resultado de uma atitude; de certa pré-concepção de filosofia – como talvez nos dissesse Martial Guéroult. Assim, deslindando a sua história da educação, ou da formação do homem grego, Werner Jaeger nos instrui quanto à sua própria filosofia. Em uma era marcada pelo individualismo moderno, ele sabe muito bem onde encontrar o seu ideal: na antiga cultura grega – talvez, mais explicitamente em Platão, o modelador de almas. Assim como vê na República, o mais formoso estudo jamais escrito sobre educação, nas Leis Jaeger afirma que Platão esboça uma definição da Paidéia oposta ao saber especializado dos homens, ou seja, como a essência de toda a verdadeira educação: educação na areté que enche o homem do desejo e da ânsia de se tornar um cidadão perfeito, e o ensina a mandar e obedecer, sobre o fundamento de justiça. De acordo com a sua própria definição, enquanto um ideal vigoroso a Paidéia é
O fenômeno imperecível da educação antiga e o impulso que a orientou, a partir da sua própria essência espiritual e do movimento histórico a que deu lugar.
Dividida em quatro extensos livros, a Paidéia ressalta que a educação e o desenvolvimento social e cultural que dela advêm, resultam - em seu início glorioso, na Grécia – da consciência das normas e valores que regem a vida humana em sociedade - numa espécie de união espiritual viva e ativa e na comunidade de um destino. E essa nova concepção de educação, que se confunde com a própria cultura grega, na medida em que ia avançando no devir histórico ia sendo gravado na consciência dos homens como o sentido e a justificação última de sua humanidade; isto é, ela ia se essencializando em vicissitudes de destinações e de retenções do Ser como totalidade.
Seja em Homero, Hesíodo, Sólon, Ésquilo, Sófocles, entre os sofistas, Eurípedes, Aristófanes, Sócrates ou Platão; um ideal próprio de formação humana – donde brota o impulso criador do espírito do povo – se eterniza como destino e ainda se mantém; enquanto virtualidade. Em todas as criações desse espírito grego repousa a continuidade e descontinuidade das épocas históricas. Irrompendo da Idéia, como seu autêntico Ser, o homem grego de Jaeger, que se revela nas grandes obras do espírito como homem político é a locanda, em cujo espaço se desdobra a verdade dos entes. Esse homem é histórico, na medida em que faz e é feito pela História. Eis a minha sucinta compreensão da Paidéia, esse livro fantástico e imprescindível que Werner Jaeger nos dispõe.
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