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Em Busca de um Final Feliz

Vida, morte e esperança entre os barracos de Mumbai

Katherine Boo
Resenhas
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Fernanda 03/06/2013

Resenha: Em Busca de um Final Feliz
Resenha: Penso que cada livro nos apresenta uma mensagem diferente e única, e “Em Busca de um Final Feliz” é aquele tipo de obra onde o leitor se sente comovido e tocado de diversas maneiras. A começar pela história, que surpreende de tal modo a conquistar a atenção de quem venha a ler, e posteriormente pelas emoções que o mesmo nos passa, fazendo com que adentremos totalmente no enredo e é como se fizéssemos parte da narrativa. Há quem não goste do gênero de não-ficção. Até eu mesmo, confesso que não leio muito a respeito deste estilo. Mas claro que nada me impediu de começar a leitura, que já me envolveu pela sinopse e justamente, pelo prefácio de Zeca Camargo.

“Ser pobre em Annawadi, ou em qualquer favela de Mumbai, era ser, invariavelmente, culpado de uma coisa ou outra.” Pg.22

Pare e pense um pouco: você tem a coragem necessária para ler uma história real? Katherine Boo expõe em Mumbai, a favela de Annawadi, de uma maneira detalhada, abrangente e complexa. A narrativa pode parecer mesmo ficção, envolvendo crimes, dramas e muita violência, porém todos os relatos são verdadeiros e os ataques terríveis descritos, têm mesmo as consequências citadas. A linguagem que Boo coloca, é tão rica e poderosa que seria um texto belo se os fatos narrados não fossem tão tristes e intensamente dolorosos. Como bem disse Zeca Camargo “Mas é exatamente nessa capacidade de extrair uma certa poesia de cenas hediondas que está o talento da autora.” Pg.09

“Annawadi ficava, aproximadamente, a 200 metros da estrada do Aeroporto Sahar, uma faixa onde a nova Índia e a velha Índia se encontravam e faziam a nova Índia chegar atrasada aos seus compromissos. Motoristas em veículos utilitários esportivos buzinavam furiosamente para entregadores de bicicleta que saíam das granjas da favela, cada um carregando uma pilha de 300 ovos. Annawadi não era nada especial no contexto das outras favelas de Mumbai. Toda casinha era torta, e a menos torta delas parecia ereta. O esgoto e a doença faziam parte do dia a dia.” Pg. 31

O mais interessante é poder acompanhar as histórias de várias famílias e as situações em que se encontram. Na verdade, seria mesmo interessante se elas estivessem em condições agradáveis, o que claro, não estão. Mas o que vale destacar nesta parte, é exatamente como cada uma dessas famílias interpreta o seu jeito de viver, e que apesar de tudo que passam, tentam não desanimar, correr atrás de seus sonhos e manter a esperança. Por si só, esse já é um fato que torna “Em Busca de um Final Feliz” emocionante e delicado, apresentado as crianças da favela, pessoas sem nenhum sinal de esperança e aquelas pessoas que lutam dia após dia, diante de tanta pobreza e injustiças. Neste ambiente e depois de muitas pesquisas e convivência, a autora conseguiu finalizar uma obra consagrada e acima de tudo, completa. É também, um livro de críticas diante das situações precárias das favelas, e para refletir e se questionar sobre as ações do mundo.

"Os eventos recontados nas páginas anteriores são reais, assim como o são todos os nomes. Desde o dia, em novembro de 2007, que entrei em Annawdi e conheci Asha e Manju, até março de 2011, quando completei meu relato, documentei as experiências dos moradores com notas escritas, gravações em vídeo, audiotapes e fotografias. Várias crianças da favela, que aprenderam a manejar minha câmera, também documentaram acontecimentos recontados neste livro.” Pg.279
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Caique 05/04/2013

Em Busca de um Final Feliz - Blog EPL
Quando a existência é definida pelos sonhos de pessoas reais, a esperança surge.

- Publicada originalmente no blog Entre Páginas de Livros (www.entrepaginasdelivros.com)

Em Busca de um Final Feliz - Katherine Boo | 288 Páginas | Documentário / Não Ficção | Editora Novo Conceito 2013 | Preço: R$29.90 | Skoob | NOTA: 5/5

Obs: Disponível também em e-book.


Não vejo outra maneira de começar essa resenha sem antes apresentar-lhe a autora o livro em questão (Em Busca de um Final Feliz): Katherine Boo. Antes mesmo de ler a narrativa, a autora já chamou minha atenção conquistando também admiração pois ela é uma redatora em uma importante revista americana e já ganhou muitos prêmios nos últimos 20 anos com suas reportagens dentro de comunidades carentes onde observou como as sociedades distribuem oportunidades e como os indivíduos escapam da pobreza. Esse é o seu primeiro livro que precisou de um longo e árduo trabalho para sua escrito.

Katherine, que é casada com um indiano, resolveu encarar e conhecer os problemas da Índia, uma nação que está cada vez mais rica e poderosa no sistema capitalista mas que abriga 1/3 da pobreza e 1/4 da fome do planeta. Em 2007 ela viajou para uma favela indiana chamada Annawadi que está localizada perto do Aeroporto Internacional de Mumbai e de estilosos prédios que abrigam os turistas e pessoas da classe média. Essa favela não é a maior, abriga cerca de 3000 habitantes que sofrem na miséria e tentam diversos meios para conseguir dinheiro para sustentar a família, mas foi escolhida estrategicamente pela facilidade para abordar as histórias dos principais moradores que lutam para ter um final feliz ou até mesmo daqueles que desacreditam na vida.

O livro é um documentário que pode ser facilmente confundido com um romance devido a ótima escrita da autora, contém começo e meio, não tendo fim por se tratar de fatos verídicos, mas seu término ocorre depois dos 3 anos que a autora passou na favela observando tudo o que acontecia. O interessante é que Katherine não expõe explicitamente a sua opinião e nem se envolve nas coisas que acontecem, detalhando apenas o necessário sobre a vida sofrida dos personagens para que o leitor possa entender com clareza os acontecimentos sem deixar a leitura cansativa e/ou demorada.

O que a autora fez foi entrevistar os moradores de Annawadi para conhecer os seus sentimentos e suas histórias e ambições, tudo o que ela via também era transcrito no papel. É assim que conhecemos a família Hassan, constituída de 11 filhos, que sofre um preconceito por serem muçulmanos e por lucrar um pouco mais que outras famílias na separação de lixo reciclado. A vizinha deles é a Fátima (Perna Só), uma mulher deficiente que só queria um pouco de atenção, o que a fazia trair o marido com outros rapazes. Tal atitude era também observada por Asha, mas ela chamava atenção dos políticos para conseguir status na favela e dinheiro, claro. Sua filha, Manju era a única que estava cursando faculdade, era bonita, mas ao contrário da mãe era correta e queria ter um bom casamento. Também conhecemos Sunil, um garoto que é catador de lixo que sonha em um dia ter dinheiro e ''crescer na vida'' e outros personagens que marcam a narrativa.

Também vale ressaltar a vasta corrupção existente no governo indiano, a falta de atenção e a covardia que os policiais fazem com as pessoas menos favorecidas, que não são capazes de fornecer propinas para eles. Esses mesmos policiais exigiam, as vezes, dinheiro para os moradores de Annawadi que não podiam contestar por não ter direito a terra. O lento e falho sistema judicial, a violência e a falta de atenção de toda a população com os moradores das favelas também são muito bem retratados na história. É triste saber que enquanto os moradores de Annawadi precisam comer sapo, por exemplo, eu estou com ''toda mordomia''.


Em Busca de um Final Feliz é um ótimo livro para quem não se preocupa com finais felizes, mas realistas, e que está disposto a chorar e rir em alguns momentos. O livro forte e é capaz de prender, sem nenhum esforço, qualquer leitor que esteja interessado em ler algo que pode mudar sua visão de ver e encarar o mundo de forma verdadeira e humana. Clichê não define a obra de Kkatherine Boo que possui uma excelente tradução, revisão, narração, diagramação e capa, além de um ótimo prefácio que foi bem escrito por Zeca Camargo, mas que deixa a desejar um pouco na tradução do título.

" Por algum tempo, eu tentei evitar que o gelo dentro de mim derretesse. Mas agora estou simplesmente me transformando em água suja, como todos os outros. Eu digo a Allah que eu O amo imensamente. Mas também digo a Ele que não posso ser melhor, porque ele sabe como o mundo é." - Abdul Hassan

Espero que tenha gostado da resenha, é difícil escrever sobre essa narrativa englobando tudo o que acontece assim como o todas as causas de tanta miséria e pobreza existente em um país com a economia que mais cresce no mundo. Se ainda tiver alguma dúvida sugiro que você dê uma chance a esse livro, por mais que o gênero seja um pouco mais forte e adulto vale a pena entender melhor as coisas que acontecem no mundo em que vivemos.

Copyright 2013© - MyFreeCopyright. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução de qualquer parte desse texto sem autorização do autor.
Marília 12/04/2013minha estante
Achei sua resenha extremamente completa. Deu um amplo panorama das circunstâncias e objetivos com que este livro foi escrito e me despertou uma imensa vontade de lê-lo muito em breve.




Lucianoasantos 16/04/2013

Um retrato vívido da realidade indiana
Muito se fala sobre as desigualdades sociais, e se pergunta sobre como é possível que exista um abismo tão grande entre a qualidade de vida da minoria mais rica e a da maioria mais pobre. Meu professor de Economia, na faculdade, diria que ele é inerente ao capitalismo. Em “Em Busca de Um Final Feliz”, primeiro livro da experiente jornalista Katherine Boo, conhecemos a favela de Annawadi, na Índia, e somos apresentados a uma gama incrível de personagens vivendo do lado mais pobre deste abismo.

A Annawadi palco do livro é uma pequena favela onde as condições de vida podem ser consideradas menos que sub humanas – esgoto a céu aberto; proliferação de ratos; bica comunitária e deficiente para compartilhamento de água; vícios; pessoas trabalhando muito para ganhar o equivalente a menos de um dólar por dia, e etc. – que fica ao lado de um moderno aeroporto de Mumbai e hotéis cinco estrelas que contrastam com o ambiente onde vivem e marginalizam ainda mais os moradores que acompanhamos durante a narrativa da autora: como Sunil, Manju, Meena, e a família Husein: Zehrunisa, Karam e seus filhos, em especial Abdul.

É na favela que os personagens se encontram e desenvolvem suas relações que são objeto de observação da autora: o modo como levam à vida, pura e simplesmente, teimando em subsistir em condições tão precárias enquanto estão tão próximos do que há de mais moderno e luxuoso no mundo capitalista.

A primeira coisa que percebemos é como, incrivelmente, e mesmo colocados na mesma posição de excluídos do sistema social, os moradores de Annawadi são orgulhosos, briguentos e preconceituosos. A família Husain se sente discriminada por ser mulçumana e viver em meio a uma população majoritariamente hindu, ao mesmo tempo em que os outros moradores os invejam – muitas vezes abertamente – por estarem, Zehrunisa e sua família, prosperando com seu negócio de reciclagem de lixo.

E as situações vão se seguindo e criando uma certa tensão que sempre fica no ar chegando ao ponto de os garotos comentarem que a melhor maneira de se viver na favela é não se fazer ser notado. Prosperando – e aqui leia-se “ganhando o suficiente para se alimentar bem e se conceder pequenos luxos, como uma cama de ferro, uma colcha ou uma parede de alvenaria que os livre de mais mordidas de rato” – os Husain atraem para si a ira de Fátima, a Perna só, uma mulher ressentida e explosiva, que mesmo tendo apenas uma perna não perde uma oportunidade de arrumar confusão.

Enciumada com o bom momento que vive os Husain, ela se auto imola e coloca no chefe da família, Karam, e em dois de seus filhos, Kerkasham e, principalmente, Abdul, a culpa pelo ocorrido, naquele que é o maior gancho de todo o livro.

Nos apresentando um sistema apodrecido e completamente tomado pela corrupção, Katherine Boo acompanha o desenrolar da acusação e julgamento da família Husain, e temos uma noção do como é desesperadora a situação do país e de seus serviços públicos: os médicos do hospital público cobram pela consulta; os medicamentos destes hospitais são desviados, assim como os recursos para programas educacionais, de saneamento básico e incentivos econômicos; os relatórios policiais podem te favorecer ou incriminar, conforme sua disposição para contribuir com o policial encarregado, e etc. Difere do Brasil? Não.

Um fato que merece a atenção é a questão da sujeição à fé. Em “Cruzando o Caminho do Sol”, de Corban Addison – e também publicado por aqui pela Editora Novo Conceito – o autor dizia que as irmãs raptadas e vendidas como escravas, Sita e Ahalya, tinham uma profunda resignação quanto ao seu destino, baseando-se em preceitos religiosos que diziam – à grosso modo – que tudo o que estava acontecendo com elas era o desejado pelos deuses – ou “buscado” por elas através do karma –, então pouco havia o que se fazer.

A mim me soa como instrumento de alienação, mas funciona. Porém, aqui, no “Em Busca de Um Final Feliz”, já se nota uma mentalidade mais desenvolvida que refuta esta afirmação. Cansados da situação na qual vivem – e, no caso de Abdul, um jovem reservado mas que se mostra muito inteligente e perspicaz para observar o mundo à sua volta – com uma quase certeza de que o que fazem para mudar isto é muito pouco e apenas ilusório, afinal, estão somente subsistindo, muitos deles já entendem que sua situação pouco tem a ver com desígnios das divindades.

Mas isto não trás nenhum conforto, ao contrário. Estando em uma situação desesperadora, a ilusão de que aquilo que está acontecendo foge ao seu controle e nada pode ser feito, sendo um desígnio de um ser superior, é um sentimento bem mais acalentador que a plena consciência de que pouco se pode fazer para mudar o fato em um mundo corrompido por forças humanas. Talvez seja melhor saber a verdade, mas isto trás uma sensação de desespero da qual a ignorância trazida pela religião os protegeria.

A narrativa do livro é rápida embora basicamente descritiva – de ambientes, situações e sentimentos. Apesar de narrar passagens da vida de diversos moradores, é na família Husain e seu julgamento que recai boa parte da ação do livro, de modo que, nos momentos em que a autora os deixou – e a sua situação – em suspenso, a leitura não fluiu tão bem, mas talvez por eu ter me afeiçoado a eles: são amorosos, preocupados, interessados em progredir, em muito contrastando com os demais moradores de Annawadi.

Confesso que, lendo o livro, fiquei confuso por ele ser classificado como não-ficção. Em minhas experiências anteriores, a diferenciação entre aquilo que era ficção e o que não o era sempre se mostravam claras, o que não aconteceu aqui. Narrando em terceira pessoa, a autora se faz sempre presente, mas não se coloca como uma observadora, do tipo “vi um garoto estudando”. Ao contrário, ela diz “Mirchi estudava para suas provas finais”, como se contasse uma história.

Na “Nota da Autora”, ao final do livro, finalmente compreendi: todos os fatos, pessoas e locais narrados no livro são reais e frutos de anos de entrevistas e convivência levados à cabo pela autora, o que potencializou o efeito que a leitura teve em mim: então toda aquela miséria, o desespero das pessoas, as tragédias de cada dia, tudo foi real. Não que eu não quisesse enxergar, todos sabemos como o mundo pode ser, mas, nos deparando com alguém falando tão diretamente sobre o assunto, não há como deixar de ficar impressionado.

É um livro que dá um nó na garganta. Com seus personagens vívidos, pintados em cores realistas que só a não-ficção se permite, Boo construiu um grande livro. Dizem que, para solucionar um problema, primeiro é necessário saber que ele existe. Me pergunto como, se já estamos entupidos de ciência, ainda não começamos a nos mexer…

Resenha originalmente publicada aqui: http://www.pontolivro.com/2013/04/em-busca-de-um-final-feliz-resenha-119.html
Lais Helena 26/05/2013minha estante
Ainda não li nada sobre a India, mas acho que deve ser uma realidade bem parecida com a de muitos brasileiros... Lendo essa e outras resenhas, estou curiosa...


Saleitura 25/05/2013minha estante
Para nós cariocas cercados de favelas por todos os lados conhecemos um outros lado que, na maioria das vezes, por mais que se queira ajudar o acesso nos é bloqueado.
Uma observação que faço é que a miséria, a fome, as condições precárias de vida não estão só nas favelas e sim espalhadas por todos os lugares. Seja em um terreno abandonado que é invadido, pelas ruas e becos. Tudo isso não se compara a Índia e a favela Annawadi que é o palco dessa história.
Ótima resenha que nos chama a leitura.


cris 15/05/2013minha estante
Gostei muito do tema do livro as vezes é bom ler um pouco da realidade do mundo em que vivemos nós fazem abrir os olhos para a realidade que nós certa, gostei muito da resenha e quero ler.


gy 04/05/2013minha estante
O livro parece ser bom... Realista ao extremo... Não se vê muitos livros desse gênero... Eu adoraria ler... Vou colocar em minha lista de leitura...


Ivi 01/05/2013minha estante
O nome do livro atrai, mas a capa assusta. Adorei o fato do livro ter "nota da autora", assim, muita coisa se explica!!! bj


Kelry 30/04/2013minha estante
Estou querendo ler esse livrou, pois nunca li algo do estilo, e acho que irei gostar, pois esse assunto me toca.


luluzinhapinkgv 28/04/2013minha estante
Nossa, dentro do conforto da nossa casa é dificil acreditar na quantidade de pessoas que passam por fome e necessidades né? O bom desse tipo de livro é que abre os nossos olhos para o problema que está em nossa volta e a nossa responsabilidade de fazer alguma coisa! Quero muito ler!
bjos


Maristela 28/04/2013minha estante
Todos os livros que li que têm como tema a Índia, as histórias são maravilhosas. Espero que esse também seja o caso desse livro. A capa é linda e a resenha maravilhosa.




Saleitura 29/05/2013

Quando a existência é definida pelos sonhos de pessoas reais, a esperança surge.
Para mim ler sobre a favela é sempre um mergulho para dentro e para fora. Para dentro porque esse é o espaço geográfico no qual vivo e por mais diferentes que favelas sejam elas sempre tem pontos em comum e para fora porque geralmente quem escreve não são os próprios habitantes e sim pessoas de fora, como a jornalista Katherine Boo.

Como disse Terry Pratchett em "Quando as bruxas viajam", as histórias nunca são sobre "Os desabrigados. Os famintos. Os silenciosos. Aqueles que tinham sido abandonados pelos homens e pelos deuses. O povo das névoas e da lama, cuja única força estava em algum lugar do outro lado da fraqueza, cujas crenças eram tão instáveis e caseiras quanto suas casas... o povo da cidade — não os que moravam nas grandes casas brancas e iam aos bailes em belas carruagens, mas os outros." Poucos autores acham interessante falar sobre o criador de porco - ou o catador - que vai viver trabalhando duro e ainda assim vai morrer um pouco mais pobre do que nasceu.

Mas a Katherine foi e é diferente, são justamente essas pessoas os alvos do seu olhar, de sua sensibilidade e inquietação generosa. "Em busca de um final feliz" é um trabalho primoroso, resultado de um esforço de uma mulher capaz enxergar aquilo que muitos fingem não ver ou não vem mesmo, afinal de contas é muito difícil lembrar do frio, da fome, do medo quando se está seguro e confortável.

Tentando não idealizar demais as coisas, ela vai nos apresentando a favela de Annawadi tanto através da descrição do contexto econômico mundial e da economia da Índia como através de seus vários habitantes, desde aquelas pessoas que se envolvem com politica e encontram o que chamamos de ascensão social, passando pela moça universitária, pelos meninos sem pai e sem mãe que acabam virando ladrões, mesmo contra a sua vontade, até vendedores e catadores de lixo.

Achei impressionante como em nenhum momento a autora deixa de frisar a humanidade desses sujeitos, suas dores, suas penas, seus sonhos, sua complexidade de sentimentos e interpretação do mundo, a pobreza não retira de ninguém a humanidade, embora faça as pessoas fazerem coisas inacreditáveis. É incrível como ela consegue fugir de julgamentos precipitados como conseguiu ver as coisas com generosidade.

Uma vez eu li em um livro de português do ensino fundamental um poema de Ulisses Tavares sobre pessoas que existem e parecem imaginação, a leitura do excelente livro de Katherine Boo me lembrou esse poema da página 1 até a página 288 e com ele encerro a resenha:

"Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina entre uma refeição e outra.
Tem gente sentindo frio.
E não é o frio que você imagina entre o chuveiro e a toalha.
Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina entre a receita e a aspirina.
Tem gente sem esperança.
Mas não é o desalento que você imagina entre o pesadelo e o despertar.
Tem gente pelos cantos.
E não são os cantos que você imagina entre o passeio e a casa.
Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina entre o presente e a mesada.
Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina entre a escola e a novela.
Tem gente que existe e parece imaginação."

(Ulisses Tavares)

Resenha por Pandora
http://www.skoob.com.br/estante/livro/26464608

link postagem Saleta de Leitura
http://saletadeleitura.blogspot.com.br/2013/05/resenha-do-livro-em-busca-de-um-final.html


Isie Fernandes 28/07/2013

Um livro que faz rir e chorar

"Parecia que os barracos haviam caído do céu e foram amassados na aterrissagem." (página 190)

Em Busca de um Final Feliz é um livro de não ficção que conta a história real de alguns moradores de Annawadi, uma pequena, populosa e miserável favela construída nos arredores do aeroporto de Mumbai - Índia.

Inicialmente, achei que não conseguiria ler o livro, pois a presença de diversos personagens, surgindo um após o outro, me confundia. Contudo, persisti na leitura e não me arrependo. Katherine Boo esteve, desde novembro de 2007 até março de 2011 em Annawadi, coletando informações dos moradores da favela e conseguiu contar histórias diferentes, sob visões absolutamente distintas.

Logo somos apresentados a Abdul e sua família, revendedores de lixo que conseguiram melhorar um pouco de vida e por isso despertaram a inveja de muitos vizinhos; a Sunil, um garoto que tem medo de não crescer e se tornar um adulto com aparência infantil; a Asha, uma mulher astuta e determinada, disposta a fazer o que for necessário para entrar na corrupta política de Mumbai e livrar sua família da miséria; a Manju, filha de Asha, uma linda jovem que conseguiu entrar para faculdade e se reveza entre tomar conta da casa, dos irmãos, da escolinha de ensino básico para crianças da favela e estudar para se tornar a primeira mulher de Annawadi graduada numa faculdade; a Fátima, mais conhecida como Perna Só, devido a sua deficiência física; a diversos personagens reais, dentre os quais o meu favorito - aliás, o meu favorito em todo o livro - é Kalu, um ladrãozinho que sabia contar histórias como ninguém e que também foi o primeiro a arrancar lágrimas dos meus olhos.

"Ele achava melhor começar o dia já sabendo que este dia seria tão chato quanto os anteriores. Desta forma, ele não ficaria tão desapontado." (página 156)

Um livro que faz rir e chorar. Rir, porque muitos personagens são crianças com responsabilidades de adultos, e eles são tão ingênuos a ponto de ter medo de fantasmas e de acreditar em lendas a respeito de travestis que dançam e lançam maldições. Chorar, porque é tanta corrupção, injustiça e miséria que no fim das contas são mais lágrimas do que risos.

"Ser tão pobre para ter de trabalhar tão jovem já parecia um castigo suficientemente grande". (página 158)

Mas a esperança dos personagens é realmente animadora. Tudo que eu posso desejar é que eles alcancem os seus sonhos e tenham um final feliz.

"Minhas flores vivem mais tempo porque eu não guardo nada sombrio no meu coração. Eu deixo as coisas ruins saírem." (Meena, página 209)

Postado originalmente:

site: http://isiefernandes.blogspot.com.br/2013/07/resenha-em-busca-de-um-final-feliz.html
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