Aione
23/04/2013Em Busca de Um Final Feliz é um romance documentário não ficcional de Katherine Boo, autora vencedora do Prêmio Pulitzer.
Em sua obra, narra a vida dos moradores de Annawandi, uma das maiores favelas indianas situada ao lado do luxuoso Aeroporto Internacional de Mumbai, documentada durante os quatro anos em que lá viveu. Ao iniciar a leitura, eu sabia que a autora havia morado em Annawandi, mas acreditava que as histórias relatadas fossem ficcionais. Somente ao ler sua nota, ao final do livro, foi que percebi que todos os acontecimentos, inclusive os nomes das personagens, são reais.
Como todo morador da favela sabia, só havia três meios de se escapar da miséria: encontrando um nicho empresarial, como tinha acontecido com os Husain, que encontraram um negócio rentável no lixo; política e corrupção, nas quais Asha depositava suas esperanças; e, por fim, a educação. Vários pais na favela estavam passando a pão e água para poder pagar ensino particular para seus filhos.
página 92
Katherine conta que, para compor os momentos correspondentes aos pensamentos das personagens, ela se utilizou de inúmeras entrevistas e relatos dos moradores. Assim, tornou possível transmitir não apenas suas opiniões, mas também seus pensamentos sobre determinadas situações, permitindo uma melhor compreensão do mundo em que vivem.
O sistema de justiça criminal da Índia era um mercado, assim como o do lixo, Abdul entendia isso agora. A inocência e a culpa poderiam ser compradas e vendidas como um quilo de sacolas plásticas.
página 137
O que achei mais fascinante foi a maneira de como ela conseguiu repassar para o leitor uma realidade tão distante, possibilitando que ela fosse compreendida despida de julgamentos. São diversas as situações em que as personagens poderiam facilmente ser condenadas como insensíveis ou corruptas, mas isso não acontece porque conseguimos entender suas motivações, principalmente pelo cenário no qual vivem. Quando impera o instinto de sobrevivência, as questões morais se tornam mais abstratas.
- Por algum tempo, eu tentei evitar que o gelo dentro de mim derretesse – foi assim que ele se expressou. – Mas agora estou simplesmente me transformando em água suja, como todos os outros. Eu digo a Allah que eu O amo imensamente, imensamente. Mas também digo a Ele que não posso ser melhor, porque Ele sabe como o mundo é.
página 272
Outro ponto é que ela não faz uso de uma linguagem com apelo emocional. O livro pode sim sensibilizar o leitor, mas por conta do que é relatado, e não por essa ter sido a intenção da autora. Sua escrita é forte por ser direta, desprovida de artifícios típicos de romances nos quais ocorre o predomínio da linguagem emotiva.
Ainda assim, achei incrível o quanto ela conseguiu transmitir os conflitos internos vividos por vários dos jovens da história. Ela contrapõe o desejo de se seguir uma conduta moral – não baseada na opinião alheia, e sim em seus próprios princípios e crenças – com a impossibilidade de assim agir em um meio corrompido. E, em momento algum, ela coloca as personagens corruptas como vilãs, nem as demais como heroínas. Todas fazem parte de um mesmo sistema e todas estão em busca de seus finais felizes.
Não era tarde demais, aos 17 anos ou qualquer que fosse sua idade agora, para resistir às influências corruptas desse mundo e de sua natureza. Um menino não estudado e desajeitado ainda poderia ser capaz de ter integridade: ele pretendia lembrar-se disso e de qualquer outra verdade que O Mestre falara.
página 162
Tenho somente um ponto a ressaltar que pode ser visto como negativo, mas que, em minha opinião, não deve assim ser classificado. O fato de haver muitos personagens torna a leitura, inicialmente, um pouco confusa no sentido de que leva um tempo até que o leitor se acostume com todos e os memorize. Ainda, por não ser um livro cujo foco é o entretenimento, a leitura não é daquelas que te faz querer devorar as páginas, embora não seja cansativa ou provida de um vocabulário complicado.
Em suma, Em Busca de Um Final Feliz se torna interessante não por ser uma leitura para entretenimento, e sim para engrandecimento, tanto pela apresentação da cultura e realidades distantes das vividas por nós quanto pela exposição de situações, sentimentos e pensamentos de pessoas que as vivenciam. Ainda que seja um romance documentário, sua narrativa não é em forma de relato e sim similar a outros romances ficcionais, com o diferencial de ser verídico. Recomendo, principalmente, por seu conteúdo.