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Em Busca de um Final Feliz

Vida, morte e esperança entre os barracos de Mumbai

Katherine Boo
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Caique 05/04/2013

Em Busca de um Final Feliz - Blog EPL
Quando a existência é definida pelos sonhos de pessoas reais, a esperança surge.

- Publicada originalmente no blog Entre Páginas de Livros (www.entrepaginasdelivros.com)

Em Busca de um Final Feliz - Katherine Boo | 288 Páginas | Documentário / Não Ficção | Editora Novo Conceito 2013 | Preço: R$29.90 | Skoob | NOTA: 5/5

Obs: Disponível também em e-book.


Não vejo outra maneira de começar essa resenha sem antes apresentar-lhe a autora o livro em questão (Em Busca de um Final Feliz): Katherine Boo. Antes mesmo de ler a narrativa, a autora já chamou minha atenção conquistando também admiração pois ela é uma redatora em uma importante revista americana e já ganhou muitos prêmios nos últimos 20 anos com suas reportagens dentro de comunidades carentes onde observou como as sociedades distribuem oportunidades e como os indivíduos escapam da pobreza. Esse é o seu primeiro livro que precisou de um longo e árduo trabalho para sua escrito.

Katherine, que é casada com um indiano, resolveu encarar e conhecer os problemas da Índia, uma nação que está cada vez mais rica e poderosa no sistema capitalista mas que abriga 1/3 da pobreza e 1/4 da fome do planeta. Em 2007 ela viajou para uma favela indiana chamada Annawadi que está localizada perto do Aeroporto Internacional de Mumbai e de estilosos prédios que abrigam os turistas e pessoas da classe média. Essa favela não é a maior, abriga cerca de 3000 habitantes que sofrem na miséria e tentam diversos meios para conseguir dinheiro para sustentar a família, mas foi escolhida estrategicamente pela facilidade para abordar as histórias dos principais moradores que lutam para ter um final feliz ou até mesmo daqueles que desacreditam na vida.

O livro é um documentário que pode ser facilmente confundido com um romance devido a ótima escrita da autora, contém começo e meio, não tendo fim por se tratar de fatos verídicos, mas seu término ocorre depois dos 3 anos que a autora passou na favela observando tudo o que acontecia. O interessante é que Katherine não expõe explicitamente a sua opinião e nem se envolve nas coisas que acontecem, detalhando apenas o necessário sobre a vida sofrida dos personagens para que o leitor possa entender com clareza os acontecimentos sem deixar a leitura cansativa e/ou demorada.

O que a autora fez foi entrevistar os moradores de Annawadi para conhecer os seus sentimentos e suas histórias e ambições, tudo o que ela via também era transcrito no papel. É assim que conhecemos a família Hassan, constituída de 11 filhos, que sofre um preconceito por serem muçulmanos e por lucrar um pouco mais que outras famílias na separação de lixo reciclado. A vizinha deles é a Fátima (Perna Só), uma mulher deficiente que só queria um pouco de atenção, o que a fazia trair o marido com outros rapazes. Tal atitude era também observada por Asha, mas ela chamava atenção dos políticos para conseguir status na favela e dinheiro, claro. Sua filha, Manju era a única que estava cursando faculdade, era bonita, mas ao contrário da mãe era correta e queria ter um bom casamento. Também conhecemos Sunil, um garoto que é catador de lixo que sonha em um dia ter dinheiro e ''crescer na vida'' e outros personagens que marcam a narrativa.

Também vale ressaltar a vasta corrupção existente no governo indiano, a falta de atenção e a covardia que os policiais fazem com as pessoas menos favorecidas, que não são capazes de fornecer propinas para eles. Esses mesmos policiais exigiam, as vezes, dinheiro para os moradores de Annawadi que não podiam contestar por não ter direito a terra. O lento e falho sistema judicial, a violência e a falta de atenção de toda a população com os moradores das favelas também são muito bem retratados na história. É triste saber que enquanto os moradores de Annawadi precisam comer sapo, por exemplo, eu estou com ''toda mordomia''.


Em Busca de um Final Feliz é um ótimo livro para quem não se preocupa com finais felizes, mas realistas, e que está disposto a chorar e rir em alguns momentos. O livro forte e é capaz de prender, sem nenhum esforço, qualquer leitor que esteja interessado em ler algo que pode mudar sua visão de ver e encarar o mundo de forma verdadeira e humana. Clichê não define a obra de Kkatherine Boo que possui uma excelente tradução, revisão, narração, diagramação e capa, além de um ótimo prefácio que foi bem escrito por Zeca Camargo, mas que deixa a desejar um pouco na tradução do título.

" Por algum tempo, eu tentei evitar que o gelo dentro de mim derretesse. Mas agora estou simplesmente me transformando em água suja, como todos os outros. Eu digo a Allah que eu O amo imensamente. Mas também digo a Ele que não posso ser melhor, porque ele sabe como o mundo é." - Abdul Hassan

Espero que tenha gostado da resenha, é difícil escrever sobre essa narrativa englobando tudo o que acontece assim como o todas as causas de tanta miséria e pobreza existente em um país com a economia que mais cresce no mundo. Se ainda tiver alguma dúvida sugiro que você dê uma chance a esse livro, por mais que o gênero seja um pouco mais forte e adulto vale a pena entender melhor as coisas que acontecem no mundo em que vivemos.

Copyright 2013© - MyFreeCopyright. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução de qualquer parte desse texto sem autorização do autor.
Marília 12/04/2013minha estante
Achei sua resenha extremamente completa. Deu um amplo panorama das circunstâncias e objetivos com que este livro foi escrito e me despertou uma imensa vontade de lê-lo muito em breve.




Lucianoasantos 16/04/2013

Um retrato vívido da realidade indiana
Muito se fala sobre as desigualdades sociais, e se pergunta sobre como é possível que exista um abismo tão grande entre a qualidade de vida da minoria mais rica e a da maioria mais pobre. Meu professor de Economia, na faculdade, diria que ele é inerente ao capitalismo. Em “Em Busca de Um Final Feliz”, primeiro livro da experiente jornalista Katherine Boo, conhecemos a favela de Annawadi, na Índia, e somos apresentados a uma gama incrível de personagens vivendo do lado mais pobre deste abismo.

A Annawadi palco do livro é uma pequena favela onde as condições de vida podem ser consideradas menos que sub humanas – esgoto a céu aberto; proliferação de ratos; bica comunitária e deficiente para compartilhamento de água; vícios; pessoas trabalhando muito para ganhar o equivalente a menos de um dólar por dia, e etc. – que fica ao lado de um moderno aeroporto de Mumbai e hotéis cinco estrelas que contrastam com o ambiente onde vivem e marginalizam ainda mais os moradores que acompanhamos durante a narrativa da autora: como Sunil, Manju, Meena, e a família Husein: Zehrunisa, Karam e seus filhos, em especial Abdul.

É na favela que os personagens se encontram e desenvolvem suas relações que são objeto de observação da autora: o modo como levam à vida, pura e simplesmente, teimando em subsistir em condições tão precárias enquanto estão tão próximos do que há de mais moderno e luxuoso no mundo capitalista.

A primeira coisa que percebemos é como, incrivelmente, e mesmo colocados na mesma posição de excluídos do sistema social, os moradores de Annawadi são orgulhosos, briguentos e preconceituosos. A família Husain se sente discriminada por ser mulçumana e viver em meio a uma população majoritariamente hindu, ao mesmo tempo em que os outros moradores os invejam – muitas vezes abertamente – por estarem, Zehrunisa e sua família, prosperando com seu negócio de reciclagem de lixo.

E as situações vão se seguindo e criando uma certa tensão que sempre fica no ar chegando ao ponto de os garotos comentarem que a melhor maneira de se viver na favela é não se fazer ser notado. Prosperando – e aqui leia-se “ganhando o suficiente para se alimentar bem e se conceder pequenos luxos, como uma cama de ferro, uma colcha ou uma parede de alvenaria que os livre de mais mordidas de rato” – os Husain atraem para si a ira de Fátima, a Perna só, uma mulher ressentida e explosiva, que mesmo tendo apenas uma perna não perde uma oportunidade de arrumar confusão.

Enciumada com o bom momento que vive os Husain, ela se auto imola e coloca no chefe da família, Karam, e em dois de seus filhos, Kerkasham e, principalmente, Abdul, a culpa pelo ocorrido, naquele que é o maior gancho de todo o livro.

Nos apresentando um sistema apodrecido e completamente tomado pela corrupção, Katherine Boo acompanha o desenrolar da acusação e julgamento da família Husain, e temos uma noção do como é desesperadora a situação do país e de seus serviços públicos: os médicos do hospital público cobram pela consulta; os medicamentos destes hospitais são desviados, assim como os recursos para programas educacionais, de saneamento básico e incentivos econômicos; os relatórios policiais podem te favorecer ou incriminar, conforme sua disposição para contribuir com o policial encarregado, e etc. Difere do Brasil? Não.

Um fato que merece a atenção é a questão da sujeição à fé. Em “Cruzando o Caminho do Sol”, de Corban Addison – e também publicado por aqui pela Editora Novo Conceito – o autor dizia que as irmãs raptadas e vendidas como escravas, Sita e Ahalya, tinham uma profunda resignação quanto ao seu destino, baseando-se em preceitos religiosos que diziam – à grosso modo – que tudo o que estava acontecendo com elas era o desejado pelos deuses – ou “buscado” por elas através do karma –, então pouco havia o que se fazer.

A mim me soa como instrumento de alienação, mas funciona. Porém, aqui, no “Em Busca de Um Final Feliz”, já se nota uma mentalidade mais desenvolvida que refuta esta afirmação. Cansados da situação na qual vivem – e, no caso de Abdul, um jovem reservado mas que se mostra muito inteligente e perspicaz para observar o mundo à sua volta – com uma quase certeza de que o que fazem para mudar isto é muito pouco e apenas ilusório, afinal, estão somente subsistindo, muitos deles já entendem que sua situação pouco tem a ver com desígnios das divindades.

Mas isto não trás nenhum conforto, ao contrário. Estando em uma situação desesperadora, a ilusão de que aquilo que está acontecendo foge ao seu controle e nada pode ser feito, sendo um desígnio de um ser superior, é um sentimento bem mais acalentador que a plena consciência de que pouco se pode fazer para mudar o fato em um mundo corrompido por forças humanas. Talvez seja melhor saber a verdade, mas isto trás uma sensação de desespero da qual a ignorância trazida pela religião os protegeria.

A narrativa do livro é rápida embora basicamente descritiva – de ambientes, situações e sentimentos. Apesar de narrar passagens da vida de diversos moradores, é na família Husain e seu julgamento que recai boa parte da ação do livro, de modo que, nos momentos em que a autora os deixou – e a sua situação – em suspenso, a leitura não fluiu tão bem, mas talvez por eu ter me afeiçoado a eles: são amorosos, preocupados, interessados em progredir, em muito contrastando com os demais moradores de Annawadi.

Confesso que, lendo o livro, fiquei confuso por ele ser classificado como não-ficção. Em minhas experiências anteriores, a diferenciação entre aquilo que era ficção e o que não o era sempre se mostravam claras, o que não aconteceu aqui. Narrando em terceira pessoa, a autora se faz sempre presente, mas não se coloca como uma observadora, do tipo “vi um garoto estudando”. Ao contrário, ela diz “Mirchi estudava para suas provas finais”, como se contasse uma história.

Na “Nota da Autora”, ao final do livro, finalmente compreendi: todos os fatos, pessoas e locais narrados no livro são reais e frutos de anos de entrevistas e convivência levados à cabo pela autora, o que potencializou o efeito que a leitura teve em mim: então toda aquela miséria, o desespero das pessoas, as tragédias de cada dia, tudo foi real. Não que eu não quisesse enxergar, todos sabemos como o mundo pode ser, mas, nos deparando com alguém falando tão diretamente sobre o assunto, não há como deixar de ficar impressionado.

É um livro que dá um nó na garganta. Com seus personagens vívidos, pintados em cores realistas que só a não-ficção se permite, Boo construiu um grande livro. Dizem que, para solucionar um problema, primeiro é necessário saber que ele existe. Me pergunto como, se já estamos entupidos de ciência, ainda não começamos a nos mexer…

Resenha originalmente publicada aqui: http://www.pontolivro.com/2013/04/em-busca-de-um-final-feliz-resenha-119.html
cris 15/05/2013minha estante
Gostei muito do tema do livro as vezes é bom ler um pouco da realidade do mundo em que vivemos nós fazem abrir os olhos para a realidade que nós certa, gostei muito da resenha e quero ler.


Viviane 09/05/2013minha estante
Parece ser aquelas histórias que nos deixam emocionadas, e com personagens que correm atrás de seus sonhos para realizá-los. Adorei sua resenha, me deixou com muita curiosidade ao respeito do livro!

Beijos, Viviane.


gy 04/05/2013minha estante
O livro parece ser bom... Realista ao extremo... Não se vê muitos livros desse gênero... Eu adoraria ler... Vou colocar em minha lista de leitura...


Ivi 01/05/2013minha estante
O nome do livro atrai, mas a capa assusta. Adorei o fato do livro ter "nota da autora", assim, muita coisa se explica!!! bj


Kelry 30/04/2013minha estante
Estou querendo ler esse livrou, pois nunca li algo do estilo, e acho que irei gostar, pois esse assunto me toca.


luluzinhapinkgv 28/04/2013minha estante
Nossa, dentro do conforto da nossa casa é dificil acreditar na quantidade de pessoas que passam por fome e necessidades né? O bom desse tipo de livro é que abre os nossos olhos para o problema que está em nossa volta e a nossa responsabilidade de fazer alguma coisa! Quero muito ler!
bjos


Maristela 28/04/2013minha estante
Todos os livros que li que têm como tema a Índia, as histórias são maravilhosas. Espero que esse também seja o caso desse livro. A capa é linda e a resenha maravilhosa.




Leandro 10/04/2013

Em busca de um final com esperança...
Katherine Boo tem uma estreia primorosa em seu livro "Em Busca de um final feliz"...

O Livro tem prefácio escrito por Zeca Camargo que faz um resumo de toda estória e todo contexto político e econômico da Índia entre 2007 e 2009 (período que se iniciou a grande crise global).

O Livro é uma ficção verídifica e Katherine relata a vida de diversos personagens, moradores da favela de Annawadi na Índia. A favela fica ao redor de um luxuoso aeroporto e hoteis e ela consegue retratar bem a diferença entre o lugar rico e o imprestável.

Interessante foi que a autora não quis glamourizar a favela e sim relatar com veêmencia o sofrimento de um povo que vive naquele lugar sujo e mal cheiroso, porque o que temos visto atualmente na TV são pessoas felizes vivendo em meio ao caos.

A história que mais me comoveu sem dúvida foi a da família Husain... o que alguém que praticamente convive junto, separados por uma parede, pode fazer contra outra, pela falta de perspectiva financeira e até de auto estima.

O livro te proporciona sentimentos de tristeza e de revolta: meu Deus, como um país emergente tem tanta desigualdade social? O relato da autora te dá a sensação que ninguém ali tem princípios éticos... tantos subornos, propinas, médicos, policiais, juízes... todos fazendo parte do mesmo saco de farinha... mas por outro lado percebe que a fé de pessoas tão "insignificantes" é capaz de fazer mudar os acontecimentos.

Adorei a leitura do livro. Como Economista, o livro também mostra uma realidade econômica da Índia que muitas vezes não é mostrada ao restante do mundo.

Vale a pena a leitura.

"Aquilo que você não quer estará sempre com você
Aquilo que você quer nunca estará com você
Você terá que ir aonde não quer ir
E quando achar que tem muito mais por viver, então você vai morrer" PG. 254

"Por algum tempo, eu tentei evitar que o gelo dentro de mim derretesse. Mas agora estou simplesmente me transformando em água suja, como todos os outros. Eu digo a Allah que eu O amo imensamente, imensamente. Mas também digo a Ele que não posso ser melhor, porque ele sabe como o mundo é." PG. 272

Uma salva de palmas para Boo.



loucoporleitura 08/04/2013

Annawadi, uma favela na Índia. Não é a maior de lá, mas talvez a de maior contraste social, fica ao lado do Aeroporto de Mumbai. Vários personagens riquíssimos (não de grana, de conteúdo), um menino catador de lixo que sonha enriquecer, Sunil Sharma, uma moça linda que quer ser professora , Manju, e uma mulher casada, prostituta e que só tem uma perna, a Fátima Perna Só. Nossa quanta imaginação para "criar" personagens tão elaborados. Mas é aí o grande diferencial desse livro, todos os personagens são reais, inclusive os nomes são mesmos deles, e a autora morou na favela para escrever esse livro, mas se falamos logo que é um "livro-reportagem" talvez muitos não se interessariam.
Nessa favela, a reciclagem é talvez a grande renda de todos, e é através dela que algumas famílias começam a melhorar sua vida, mas dependendo dos vizinhos, isso pode não ser uma boa. Abdul (16 ou 19 anos) é quem mantem a casa, e aos poucos vai conseguindo melhorar sua casa, e ao conseguir reformar a cozinha de sua mãe , provoca a ira de Fátima Perna Só, sua vizinha de parede, na verdade quase um compensado, ela se incomoda com o barulho e com um pouco de sujeira que diz cair em sua comida, e promete se vingar da família de Abdul, e para isso coloca fogo em seu próprio corpo para incrimina-los, e é aí que o principal enredo se desenvolve.

Em algumas entrevistas a autora informou que vivenciou tudo e que não queria se envolver, só escrever sobre a história, a única vez que isso não o ocorreu foi quando aos gritos impediu que uma menina fosse estuprada, mas esse caso não está no livro. A autora inclusive presenciou alguns roubos ao aeroporto (roubo de lixo).
Por vezes, a impressão é que o livro se passa no Brasil, tamanha corrupção e pessoas dispostas a dar um "jeitinho" , lógico com uma compensação financeira, como quando a mãe de Abdul paga para obter uma certidão de nascimento para que ele seja considerado menor e julgado como tal, a mãe não tem certeza da idade dele. Quando um médico via inspecionar o menino, informa que se ele tiver uma certa quantidade de dinheiro, ele será menor, mas se ele não tiver o dinheiro, ele será maior de idade, ele não tem, mas por pena o médico o classifica como menor de idade. Essa é uma de outras coisas interessantes, a autora não tem a preocupação em classificar um vilão, mas de mostrar os fatos, sem rotular ninguém.
O julgamento de Abdul, seu pai e sua irmã , se dará no decorrer do livro , mas muitas outras histórias interessantes fazem parte dele também. Como Manju, a menina linda e idealista da favela, que dá aula para crianças carentes e é filha de Asha, uma espécie de administradora da favela, sempre disposta a ajudar, lógico que com interesse por trás de cada caso.
Mas o que mais me chamou atenção no livro é que não temos o lado "coitadinho", costumo brincar que se fosse um programa que revitaliza a casa das pessoas, teríamos a visão do Luciano Huck , uma visão otimista e não a visão do Gugu, mais sensacionalista.Acompanhe a jornada de todos esse e outros moradores de Annawadi.

Obs: o nome original do livro é: Behind the beautiful forevers , algo mais ou menos como por trás das belas para sempre , que era uma placa comercial da L'oreal , mas optou-se mudar o nome na tradução , e talvez de a impressão de livro de auto ajuda.

Confiram essa e outras resenha em: www.loucoporleitura.com.br


Aione 23/04/2013

Em Busca de Um Final Feliz é um romance documentário não ficcional de Katherine Boo, autora vencedora do Prêmio Pulitzer.
Em sua obra, narra a vida dos moradores de Annawandi, uma das maiores favelas indianas situada ao lado do luxuoso Aeroporto Internacional de Mumbai, documentada durante os quatro anos em que lá viveu. Ao iniciar a leitura, eu sabia que a autora havia morado em Annawandi, mas acreditava que as histórias relatadas fossem ficcionais. Somente ao ler sua nota, ao final do livro, foi que percebi que todos os acontecimentos, inclusive os nomes das personagens, são reais.

Como todo morador da favela sabia, só havia três meios de se escapar da miséria: encontrando um nicho empresarial, como tinha acontecido com os Husain, que encontraram um negócio rentável no lixo; política e corrupção, nas quais Asha depositava suas esperanças; e, por fim, a educação. Vários pais na favela estavam passando a pão e água para poder pagar ensino particular para seus filhos.
página 92

Katherine conta que, para compor os momentos correspondentes aos pensamentos das personagens, ela se utilizou de inúmeras entrevistas e relatos dos moradores. Assim, tornou possível transmitir não apenas suas opiniões, mas também seus pensamentos sobre determinadas situações, permitindo uma melhor compreensão do mundo em que vivem.

O sistema de justiça criminal da Índia era um mercado, assim como o do lixo, Abdul entendia isso agora. A inocência e a culpa poderiam ser compradas e vendidas como um quilo de sacolas plásticas.
página 137

O que achei mais fascinante foi a maneira de como ela conseguiu repassar para o leitor uma realidade tão distante, possibilitando que ela fosse compreendida despida de julgamentos. São diversas as situações em que as personagens poderiam facilmente ser condenadas como insensíveis ou corruptas, mas isso não acontece porque conseguimos entender suas motivações, principalmente pelo cenário no qual vivem. Quando impera o instinto de sobrevivência, as questões morais se tornam mais abstratas.

- Por algum tempo, eu tentei evitar que o gelo dentro de mim derretesse – foi assim que ele se expressou. – Mas agora estou simplesmente me transformando em água suja, como todos os outros. Eu digo a Allah que eu O amo imensamente, imensamente. Mas também digo a Ele que não posso ser melhor, porque Ele sabe como o mundo é.
página 272

Outro ponto é que ela não faz uso de uma linguagem com apelo emocional. O livro pode sim sensibilizar o leitor, mas por conta do que é relatado, e não por essa ter sido a intenção da autora. Sua escrita é forte por ser direta, desprovida de artifícios típicos de romances nos quais ocorre o predomínio da linguagem emotiva.
Ainda assim, achei incrível o quanto ela conseguiu transmitir os conflitos internos vividos por vários dos jovens da história. Ela contrapõe o desejo de se seguir uma conduta moral – não baseada na opinião alheia, e sim em seus próprios princípios e crenças – com a impossibilidade de assim agir em um meio corrompido. E, em momento algum, ela coloca as personagens corruptas como vilãs, nem as demais como heroínas. Todas fazem parte de um mesmo sistema e todas estão em busca de seus finais felizes.

Não era tarde demais, aos 17 anos ou qualquer que fosse sua idade agora, para resistir às influências corruptas desse mundo e de sua natureza. Um menino não estudado e desajeitado ainda poderia ser capaz de ter integridade: ele pretendia lembrar-se disso e de qualquer outra verdade que O Mestre falara.
página 162

Tenho somente um ponto a ressaltar que pode ser visto como negativo, mas que, em minha opinião, não deve assim ser classificado. O fato de haver muitos personagens torna a leitura, inicialmente, um pouco confusa no sentido de que leva um tempo até que o leitor se acostume com todos e os memorize. Ainda, por não ser um livro cujo foco é o entretenimento, a leitura não é daquelas que te faz querer devorar as páginas, embora não seja cansativa ou provida de um vocabulário complicado.
Em suma, Em Busca de Um Final Feliz se torna interessante não por ser uma leitura para entretenimento, e sim para engrandecimento, tanto pela apresentação da cultura e realidades distantes das vividas por nós quanto pela exposição de situações, sentimentos e pensamentos de pessoas que as vivenciam. Ainda que seja um romance documentário, sua narrativa não é em forma de relato e sim similar a outros romances ficcionais, com o diferencial de ser verídico. Recomendo, principalmente, por seu conteúdo.


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