O Mito Moderno da Natureza Intocada

Antonio Carlos Diegues



Resenhas - O Mito Moderno da Natureza Intocada


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Jônatas 16/05/2013

O MITO MODERNO DA NATUREZA INTOCADA

RESENHA CRÍTICA

O MITO MODERNO DA NATUREZA INTOCADA
ANTONIO CARLOS DIEGUES

3ª edição, Editora Hucitec
São Paulo, 2001












1. Introdução
A comparação do surgimento de unidades de conservação (UCs) no Brasil, com os Estados Unidos, por volta da década de 80, dá enfoque a análise prática da eficácia do modelo norte- americano aplicado no Brasil. O autor questiona a diferença ecológica e cultural do país como fator que dificulta a proteção do meio natural, principalmente, frente aos habitantes dessas áreas ( índios, população ribeirinha, camponeses) que possui modo de vida oposto à sociedade industrial, dita como destruidora do meio natural a ser protegido. A grande questão do livro,gira em torno da harmonização entre a natureza “intocada”, o homem da sociedade urbano-industrial e, sobretudo, entre as populações que desfrutavam de maior contato físico com a natureza, utilizando para tanto, o critério histórico de relação homem-natureza, seja como moradia, meio de sobrevivência ou por tradição cultural. Neste ultimo ponto, fica caracterizado as sociedades tradicionalistas, denominadas assim, pelo seu trabalho tradicional de extração e usufruto na natureza. É defendida, também, a ideia que a conservação da diversidade biológica e a cultural devem caminhar juntas. A grande questão que não foi discutida nas ideias gerais do livro, na sua introdução, foi o escopo econômico do Estado frente as áreas de reserva nacional, pois sabemos que muitos conflitos já foram originados pelos interesses estatais e de empresas privadas na exploração de determinadas unidades de conservações. Sem falar de conflitos de relevância no país que surgiram a partir dessa questão, como o conflito originado na reserva indígena do Xingu e as disputas entre seringueiros e autoridades políticas que resultaram no assassinato do ativista Chico Mendes.

2. O Surgimento do Movimento para Criação de Áreas Naturais
Protegidas nos Estados Unidos e suas Bases Ideológicas e críticas à exportação do modelo.
O autor analisa a história de criação das unidades de conservação nos EUA, citando a primeiro parque nacional criado que foi o de yellowstone, esse parque caracteriza a tendência de separação da vida puramente selvagem “wilderness” dos homens que lá habitavam. Esse era o modelo de conservação norte-americano. As grandes críticas de utilização deste modelo pelos países subdesenvolvidos, vem dos chamados sócio-ambientalistas, próprio da ecologia social. Visando não somente a preservação, mas também a utilização do meio ambiente pelos seus moradores, evitando a migração e o caos social. O autor cita várias escolas de ecologia (como ecologia profunda e eco-socialismo) e sua influência na época em que foram produzidas. Porém, sobre essas teorias e escolas citadas, não estão ligadas relações práticas, diferenciações e fundamentos, tornando a compreensão pouca objetiva. Ao fim do terceiro capítulo ele defende, com bases nas teorias citadas, a possibilidade de adequação do homem ou grupos tradicionais junto com a natureza a ser preservada, descreditando o modelo “wilderness” americano. Sobre esse modelo de conservacionismo “wilderness”, incide o aspecto religioso do neomito, pois nela há uma relação entre a racionalidade e o mitológico, havendo noções empíricas-racionais como o próprio conceito de biodiversidade e, também, elementos míticos que remetem a ideia de paraíso perdido, primitiva a própria intervenção humana.
Cabe ressaltar aqui uma importante opinião do autor. Ao ser analisado o mito bioantropomórfico, aquele que parte da premissa que as comunidades tradicionais possuem uma relação diferenciada com a natureza e o dito mundo selvagem, e o neomito, a ideia surgida da sociedade urbano-industrial, que apregoa o mito moderno da natureza intocada, ele defende ser este mito moderno o utilizado para fundar as bases do turismo ecológico, e sobre esse mito recaia várias críticas do autor no transcorrer do livro.
3. As representações do mundo natural, o espaço publico, o espaço dos “comunitários” e o saber tradicional.
O autor defende a utilização de três maneiras de representação, organização e legitimação das relações humanas, a saber: a representação pelo espaço público, pela sociedade em geral; a representação do saber tradicional; e a representação do espaço comunitário, este menos perceptivo na sociedade. A grande importância da diferenciação desses modos de relação com a natureza, é a própria forma de contato que cada grupo possui com a natureza “intocada”, o exemplo dado pelo autor, é a representação que a floresta amazônica tem para um grupo indígena da região, de acolhimento , de lar, de meio de subsistência, etc. e a mesma representação que esse bioma tem para um colono sulino , de barreira a ser vencida, de fonte potencial de lucro, etc.
Essas representações são feitas , principalmente, pela organização de trabalho existente entre esses grupos, as atividades materiais. Porém, recai sobre as formas tradicionais do trabalho, uma crítica não exposta pelo autor, é defendido a forma tradicional como a mais benéfica com o meio natural e com a sociedade nela atuante, de uma forma generalizada. Mas existem comunidades que ainda utilizam-se de meios arcaicos para produção nessas terras, meios esses que como as queimadas incorre na queda de produtividade da terra ao longo dos anos. Logo, a esses grupos e essas técnicas de trabalho deveria ser feitas uma observação necessária, algo não exposto pelo autor. É ilustrado também um confronto entre saberes tradicionais e científicos, defendendo de forma acertada a indiferença por parte do conhecimento científico, dos saberes tradicionais, sendo que a ciência contribui para o aumento das desigualdades sociais. Mais uma vez , uma visão diminuída do autor sobre a ciência e os saberes científicos, imputando a ela fato que podendo ser verdade, não é verdade pura em si, pois o próprio conhecimento cientifico das causas das desigualdades sociais, seus fundamentos, consequências, atualidades e soluções são resolvidos por ramos científicos que buscam a organização ambiental e um desenvolvimento sustentável.
4. As Populações Tradicionais: Conflitos e Ambigüidades
Ao falar de comunidades tradicionais, indígenas e camponesas, o autor traça a ideia que os camponeses tradicionais são uma expressão local da sociedade em sentido amplo, como sendo a sociedade urbano-industrial e nacional. Já os povos nativos são definidos, pelo banco mundial, atr5avés de critérios, a saber: a) ligação intensa com os territórios ancestrais;
b) auto-identificação e identificação pelos outros como grupos culturais distintos;
c) linguagem própria, muitas vezes não a nacional;
d)presença de instituições sociais e políticas próprias e tradicionais;
e)sistemas de produção principalmente voltados para a subsistência.
Com base nessas informações, o autor estabelece suas ideias sobre o impacto de cada grupo com seus meios de exploração natural, no ambiente protegido. Através dessas representações, símbolos e mitos que as populações tradicionais constroem seus mecanismos que irão se relacionar com o meio ambiente. Na definição dada de comunidades tradicionais, está ligada a ideia de relação econômica de acumulação de capital, essas comunidades teriam relações econômicas baseadas na auto-subisistência como característica principal. O autor diz que o mito da intocabilidade da natureza, também se reproduz para a intocabilidade cultural, mostrando que esses grupos se desenvolvem e tem suas culturas ( relações de trabalho, produção e extração) alteradas no decorrer tempo. Porem ao ter a cultura alterada tem-se também modificada a forma de se relacionar com o meio, vindo esse grupo a prejudicar a natureza se adotarem meios urbanos-industriais de exploração, cultivo e forma de vida. Exatamente sobre essa questão, combinar formas antigas de produção sem estagnar o processo evolutivo, que o autor fundamenta poucas formas e soluções do problema.

5. Parques nacionais e conservações no Brasil

De igual modo como ocorre nos EUA , aqui no Brasil os parques nacionais ou similares, são áreas delimitadas voltadas para o publico, com ênfase na recreação e educação , desta forma se pensa nas populações externas da área ambiental e nunca nos seus habitantes primários. Este método tem como objetivo evitar os avanços da sociedade urbano-industrial, exemplificado várias vezes no texto, tanto no Brasil quanto no exterior, como exemplo a criação do parque nacional da Amazônia, em Itaituba, com mais de 1000000 ha. Neste caso a população dita “rústica” foi retirada do parque, discussão já bem atinada no texto, já que a legislação atual proíbe os grupos tradicionais habitando nas reservas e parques.
A grande proposta de alteração dessa forma de se dispor as unidades de conservação,se baseia em três pontos:
a)reconhecer a necessidade de não reassentar as populações tradicionais que moravam em áreas transformadas em unidades de conservação, manten do-as no próprio local; b)implantar medidas que melhorem as condições de vida dessas populações dentro dessas unidades, investindo em sistemas de manejo e produção que de um lado salvaguardem as necessidades de preservação de áreas consideradas essenciais e de outro lado promovam o bem-estar das populações que vivem dentro e nas imediações das unidades de conservação. Os sistemas tradicionais de manejo (pesca, coleta, agricultura) coerentes com a conservação dos recursos devem ser estudados, reconhecidos e até melhorados; c) introduzir novas categorias de conservação que levem em conta de forma integral a necessidade de se harmonizar a presença dos moradores tradicionais e da preservação. Muitos destes pontos são presentes na forma da reserva extrativista.
O autor a todo momento abre a visão para a questão social relacionadas às terras, a sociedade e a economia, principalmente em respeito da migração e do êxodo rural e do processo de favelização crescente nas grandes cidades, surgindo assim o ambientalismo dos anos 80 ligado às questões sócias. Esse ecologismo dos movimentos sociais travou sérios conflitos com o avanço das fronteiras agrícolas nesta década, devido o crescimento do agronegócio no país, durante o período que ficou conhecido como milagre econômico, trazendo consequências sociais graves:
"Os custos sociais e ambientais dessas posturas têm se revelado inumeráveis; tanto por contribuir com a elevação do quadro de miséria que assola o pais, como por destituir as populações de seus bens materiais e simbólicos, levando-as a descaracterização sócio-cultural, e conseqüentemente, a perda para a humanidade de todo um saber patrimonial, acumulado e construído a partir de relações harmoniosas com a natureza." (Cunha, 1993:91)
Afirmando que a miséria crescente devido esse quadro econômico-produtivo, faz surgir atividades predatórias dos recursos naturais, antes não praticadas. Cabe ressaltar os avanços dos movimentos dos seringueiros, obtendo a desapropriação por vastas áreas do INCRA, concretizando a tão defendida harmonização entre homem tradicional e natureza.

6. Conclusões

O autor faz um extenso paralelo entre a forma de unidades de conservação norte americana “wilderness”, com a adoção desse sistema pelo Brasil, demonstrando suas implicações, objetivos, pontos negativos e criticas. O mito moderno da natureza intocada é o ponto foco do texto e através delas surge o questionamento do melhor modelo a ser adotado pelo Brasil, levando em conta a particularidade de seus grupos tradicionais, suas culturas e formas de relação produtiva e de trabalho com a área a ser preservada. Porém segundo dados do Banco Mundial, ocorre uma desmitificação do mito da natureza intocada, seguida da importância das populações tradicionais na conservação da biodiversidade, populações estas, que possuem mitos e simbologias sobre a natureza que merecem ser respeitadas, dando enfoque na relevância de preservação cultural dessas populações. Carece de objetivos e critérios fundamentados para o alcance dessas metas, ou senão, de no mínimo um norte mais concreto para a realização pratica do matéria defendida pelo autor, e não somente uma união entre sociedade, entidades e Estado em busca de efetivação de um tema, que como se afirma o autor se conhece muito pouco.
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Adriano 15/04/2011

os jardins do éden
A necessidade de copiar os padrões exteriores marca uma amarga época em nosso país. Interessante saber que o domínio cultural americano não só influenciou nossos costumes, mas também o modo de visão, equivocada, de preservar nosso precioso meio ambiente natural. O que é bom para os E.U.A ou a comunidade europeia nem sempre é melhor para nós. Nossas realidades e necessidades são outras. Nossos costumes, padrões, clima e cultura são específicos e divergem dos arquétipos exteriores.
A correlação entre o sistema preservacionista imposto na criação de Unidades de Conservação (UC) e o mito do paraíso perdido pelo homem na criação, é instigante. O mito da natureza intocável cria padrões de abordagens na conservação de ambientes naturais, que excluem comunidades indígenas e tradicionais no processo de criação e manutenção de UCs. Perde-se o conhecimento tradicional e natural com a exclusão e proibição do acesso dessas comunidades aos seus espaços de vida.
A falta de inter-relação entre as disciplinas e o respeito a todo tipo de conhecimento, seja intelectual ou tradicional, é o maior entrave e obstáculo ao pleno entendimento e desenvolvimento de um meio ambiente sustentável. “A vaidade é um pecado grave, mas a vaidade intelectual é o pior deles”.
Este livro aborda todas estas questões de forma consistente e elaborada. Quanto à criação da Lei de Minas, citada no decurso do livro, sugiro a leitura de O Escândalo do Petróleo e Ferro, de Monteiro Lobado, que traz outra visão das interferências do capital estrangeiro na elaboração da legislação brasileira.
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