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As Intermitências da Morte

José Saramago
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Andrea 14/09/2014

No dia seguinte, ninguém morreu
O que aconteceria se, a partir de amanhã, ninguém morresse? É a essa pergunta que José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1998, procura responder em seu romance As intermitências da morte (2005, Companhia das Letras, 207 páginas).

As conseqüências advindas da interrupção das atividades da morte é o gancho utilizado por Saramago para retomar a crítica social presente em tantas de suas obras. A partir de um fato sobrenatural, inicia uma série de reflexões sobre os valores humanos, o comportamento das instituições (governo e igreja) frente a crises e a imortalidade.

O livro é uma fábula que, como o título diz, versa sobre a morte. Esta morte, contudo, é vista de duas maneiras. Uma delas é o fim da vida, o falecimento, o ato de morrer, presente na primeira parte da narrativa. A outra, é uma personagem com sentimentos e vontades próprias, apresentada na segunda parte. O mais correto, para diferenciá-las, seria chamar a primeira morte e a segunda Morte - com maiúscula, mas o autor, como a morte, tem seus aferros estilísticos. Como conseqüência, acabamos por perceber uma só personagem com duas faces, que carrega em si o poder de tirar vidas ao mesmo tempo em que lida com seus conflitos íntimos.

A história é dividida em três partes. Para contar as peripécias da morte e seus caprichos, Saramago inicia a narrativa - em terceira pessoa - no dia em que ninguém morreu. A partir de uma decisão arbitrária da morte - personagem principal do livro - que se julgava injustiçada pelos homens e subestimada em sua importância, durante cerca de sete meses, nenhum ser humano morre no país fictício no qual se desenrola a ação. As conseqüências de tal fato são descritas no primeiro terço do livro.

O autor leva o leitor à reflexão sobre os problemas que se acumulariam se, de fato, a morte deixasse de agir. Hospitais e asilos lotados, seguradoras e funerárias sem função, a previdência social sobrecarregada. Traça o retrato de uma sociedade na qual o número de idosos cresceria indefinidamente. É interessante perceber que, apesar de almejar a imortalidade, o homem não costuma refletir sobre suas conseqüências. O cenário pintado por Saramago leva à questão: a imortalidade vale a pena?

Já neste trecho, percebe-se a crítica social da obra. Em um exercício de criatividade, o autor propõe, através de seus personagens (primeiro-ministro, chefe da igreja, presidentes de associações), algumas soluções para os problemas que se acumulam. Cria a maphia, organização amoral e criminosa que, mediante pagamento, leva os doentes terminais para morrerem além das fronteiras do país. Agindo sob o aval não-oficial do governo, a maphia resolve o problema de algumas famílias e retarda a crise superpopulacional que, sem dúvida, se abaterá sobre o país se realmente as pessoas deixarem de morrer. É uma crítica velada às ações criminosas que se avolumam sob os olhos dos governos.

Na segunda parte da história, por algum motivo a morte se cansa de suas férias e envia uma carta à imprensa declarando que voltará a matar. O método, contudo, será novo: cada pessoa receberá, uma semana antes de seu desenlace, uma carta violeta informando que sua vida chegará ao fim. Durante algumas páginas, o autor se volta ao detalhamento das conseqüências desta situação. Mais uma vez, as ações e reações de chefes de estado e igreja, dirigentes de associações e maphia denotam uma crítica social irônica e metafórica (cabe aqui lembrar que Saramago é assumidamente comunista e ateu).

Na última parte do livro, Saramago surpreende o leitor ao deixar de lado as crises do país fictício e descrever uma história de amor entre a morte e o violoncelista - o homem a quem ela não consegue matar. A personagem principal é vestida com ares humanos, e o autor consegue criar no leitor uma certa simpatia por essa figura tão execrada pela humanidade. A figura da morte é pintada com toda gama de sentimentos e conflitos próprios do homem: solidão, insegurança e finalmente o amor. Ela personaliza, também, o ser humano autômato, que durante toda sua vida limita-se a agir conforme lhe foi determinado, sem questionamentos, deixando-se levar pelas circunstâncias, sem perguntar-se o porque de nada. É mais uma crítica do autor.

O final da fábula, entretanto, é um desfecho otimista (ao menos sob o ponto de vista da morte), no qual Saramago dá mostras de que a ironia e acidez não são suas únicas ferramentas de trabalho.

Saramago não delimita tempo e espaço para a narrativa, apesar de fornecer algumas dicas. O local é um país fictício, com governo monárquico, do qual não se sabe a língua pátria nem o continente, e a religião principal é o Catolicismo.

Sobre o tempo, ao longo do romance são feitas menções às novidades tecnológicas modernas, o que faz crer que o enredo se passa nos dias atuais. Pode-se perceber essa marcação temporal no diálogo a seguir, entre a morte e a gadanha:

(...) Se te tivesse mandando a ti, com esse teu gosto pelos métodos expeditivos, a questão já estaria resolvida, mas os tempos mudaram muito ultimamente, há que atualizar os meios e os sistemas, pôr-se a par das novas tecnologias, por exemplo, utilizar o correio eletrónico, tenho ouvido dizer que é o que há de mais higiénico, que não deixa cair borrões nem mancha os dedos, além disso é rápido, no mesmo instante em que a pessoa abre o outlook express da microsoft já está filada (...) (página 137)

José Saramago possui maneira peculiar de construir seu texto. Essa característica, presente em toda sua obra, é identificada claramente em As intermitências da morte. Ele despoja-se da utilização dos pontos de interrogação, exclamação, dois pontos, travessão, limitando-se à utilização de vírgula e ponto final. Os parágrafos seguem uma lógica particular, e nomes próprios estão sempre grafados em letra minúscula. De forma irreverente, o autor repassa à sua personagem principal os mesmos traços gramaticais. É evidente no trecho a seguir, uma sagaz resposta aos críticos da língua que condenam seu estilo:

Segundo a opinião autorizada de um gramático consultado pelo jornal, a morte, simplesmente, não dominava nem sequer os primeiros rudimentos da arte de escrever. Logo a caligrafia, disse ele, é estranhamente irregular (...), mas isso ainda se perdoaria, ainda poderia ser tomado como defeito menor à vista da sintaxe caótica, da ausência de pontos finais, do não uso de parêntisis absolutamente necessários, da eliminação obsessiva dos parágrafos, da virgulação aos saltinhos e, pecado sem perdão, da intencional e quase diabólica abolição da letra maiúscula, que, imagine-se, chega a ser omitida na própria assinatura da carta e substituída pela minúscula correspondente. Uma vergonha, uma provocação, continuava o gramático, e perguntava, Se a morte, que teve o impagável privilégio de assistir no passado aos maiores génios da literatura, escreve desta maneira, como não o farão amanhã as nossas crianças se lhes dá para imitar semelhante monstruosidade filológica, a pretexto de que, andando a morte por cá há tanto tempo, deverá saber tudo de todos os ramos do conhecimento. (página 111)

Mais uma forte característica do autor, a intertextualidade, está presente de forma sutil nas referências à Proust, ao Barão de Münchhausen e ao Conde Drácula de Bram Stoker. Outro elemento estilístico de Saramago merece ressalva. Tal como muito bem fez Machado de Assis, o autor faz com que o narrador de As intermitências da morte efetue pausas na narrativa para dialogar com o leitor:

Os actores do dramático lance que acaba de ser descrito com desusada minúcia num relato que até agora havia preferido oferecer ao leitor curioso, por assim dizer, uma visão panorâmica dos factos, foram, quando da sua inopinada entrada em cena, socialmente classificados como camponeses pobres. O erro, resultante de uma impressão precipitada do narrador, de um exame que não passou de superficial, deverá, por respeito à verdade, ser imediatamente rectificado. (página 45)

Os amantes da concisão, do modo lacónico, da economia de linguagem, decerto se estarão perguntando porquê, sendo a idéia assim tão simples, foi preciso todo este arrazoado para chegarmos enfim ao ponto crítico. A resposta também é simples, e vamos dá-la utilizando um termo actual, moderníssimo, com o qual gostaríamos de ver compensados os arcaísmos com que, na provável opinião de alguns, hemos salpicado de mofo este relato (...). (página 67)

O enredo reflexivo, o estilo diferenciado e a crítica social são razões suficientes para um mergulho em As intermitências da morte. Somado a isso, temos o prazer de ler uma obra em seu idioma original, que não pode ser comparado ao da leitura de uma tradução. Muito da sutileza e do sarcasmo presentes nesta obra tende a se perder em traduções. E afinal, José Saramago é a única possibilidade de nós, brasileiros lermos um Prêmio Nobel em nossa língua mãe.
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Marcelo 09/07/2014

"A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste."
Se este livro fosse um rio, seria um rio calmo e sereno. Ele começa narrando calmamente as consequências da ausência repentina da morte em um pequeno país de 10 milhões de habitantes, então passa a narrar o desespero das pessoas quando, ao invés de simplesmente morrer, passam a ser avisadas uma semana antes, e então relata um acontecimento na "vida" da morte, personificada como o ceifador sinistro, cujo nome não começa com maiúscula por razões descritas na obra. É consideravelmente curto, rápido, mas marcante. Gostei, e recomendo.
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Meire 15/06/2014

As Intermitências da Morte - uma reflexão
Na verdade, isso não é uma resenha, é mais uma impressão.

Adoro ler Saramago. O texto fluido sempre me "pega de jeito" e acabo não conseguindo parar de ler. E esse livro não é exceção.
Entretanto, devo dizer que tive que parar a leitura por várias vezes para refletir sobre questões propostas pelo autor nas entrelinhas.

Encontramos a morte personificada nessa história, mas não é sobre ela o livro, penso eu, mas sobre como a sociedade construiu suas instituições e suas crenças a partir dela.
Como já o fez em seu maravilhoso Ensaio sobre a Cegueira, Saramago nos convida a refletir, agora, sobre as implicações da ausência da morte e sobre como isso poderia corroer os mais nobres sentimentos humanos.

Leitura indicada para aqueles que conseguem ler além da história e têm coragem de refletir sobre as questões que ela evoca.
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sonia 06/06/2014

reflexões sobre a morte
Com sua veia humorística e seu viés anticatólico, Saramago imagina o que aconteceria em um mundo sem morte, mas via dando à indesejada das gentes uma feição cada vez mais 'humana', até o final que me surpreendeu - e olha que eu já estou em uma idade em que pouca coisa me surpreende; depois de Dias Gomes e Alarcon, pouca coisa mais poderia ser feita com o tema, mas ele fez!
Sutil, ligeiramente engraçado, filosófico, com tiradas como estas:
'a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem'
'com as palavras todo cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas'
'... Caim matou Abel; depois de tão deplorável acontecimento que, logo no princípio do mundo veio mostrar como é difícil viver em família'
'as pessoas dizem coisas à toa, lançam palavras à aventura e não lhes passa pela cabeça pensar nas conseguências '
Ora, pois pois.... concordas?
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Gustavo 17/05/2014

Viva e deixe morrer
Cansada de ser tão abominada e injuriada pelos homens, a Morte decide entrar em greve. Tal fato inusitado resulta em uma verdadeira desordem social, política, econômica e religiosa. Os hospitais, lotados de doentes moribundos, não possuem mais leitos para os novos enfermos. As bases dogmáticas da Igreja se esvaecem sem a possibilidade já agora de ressurreição. A máfia lucra com a falta de morte, traficando doentes moribundos para países vizinhos (onde a Morte continua a trabalhar), causando um grande problema diplomático. Funerárias vão à falência. O sistema estatal de seguridade social não comporta mais aposentados. Asilos ficam lotados. A velhice prolonga-se sem fim, sem permitir que o homem descanse em paz. A vida, sem o perigo da morte, de certo modo, perde o seu sentido.
Em uma alegoria brilhantemente escrita, com a pena da fina ironia, Saramago demonstra que a morte, embora temida e odiada, é de suma importância ao ser humano.
Gustavo 31/05/2014minha estante
Muito obrigado, Luana! Depois me conte o que achou do livro!


Luana_Corazza 31/05/2014minha estante
Resenha muito boa! Só aumentou minha vontade de ler o livro, parabéns!




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"Uma ferramenta como essa pode certamente ser usada por professores para incentivar a leitura."

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