As Intermitências da Morte

As Intermitências da Morte
4.37021 3860



Resenhas - As Intermitências da Morte


119 encontrados | exibindo 1 a 15
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |


Felipe Lima 24/08/2015

Nada Mais Humano Que a Própria morte
A cada livro que leio de Saramago mais surpreso e impressionado fico. Comprova-se claramente que sua fama é merecida, mesmo tendo alguns obstáculos (forma de escrita modernista e o idioma pt-pt) ainda sim, estes não conseguem ofuscar o brilho hipnotizante da obra do autor. "As Intermitências da Morte" trabalha sobre a figura da morte que assombra a todos os seres humanos. À medida em que Saramago humaniza a morte, ele também começa a desconstruir os temores humanos que a cercam, demonstrando que tememos ao que vem post-mortem e não a morte em si.
Extremamente sagaz e sutil, o autor lusitano consegue construir sua trama baseando numa antiga pergunta: "O que aconteceria se um dia nos livrássemos da morte?". A resposta mostra-se bastante crível quando o escritor passa por várias instituições humanas (como o Governo, a Igreja e a Famila) apontando como aquilo que o homem mais deseja, poderia levar a sociedade em que vive a uma situação de colapso. Depois de um breve momento de euforia, os homens percebem que a morte é uma parte vital do nosso ciclo de existência e que sem a mesma a vida tornar-se quase impossível.
Num segundo momento do livro, após de desconstruir o homem e sua relação com a morte, chega a vez da própria morte ser desconstruída pelo autor. Saramago consegue com maestria, dar feições tão humanas a morte (às vezes mais humanas que as das personagens humanas do livro) que é muito fácil para o leitor simpatizar com a ceifadora. Como todos a morte aos poucos sente, descobre e vivência sentimentos que são de características humanas (vaidade, culpa, pena), chegando ao seu clímax ao reconhecer-se de gato humana, quando a mesma se descobre falível. Até mesmo o violoncelista, que só tem destaque nos últimos 4 capítulos, consegue ter uma profundidade que nos cativa. Conhecê-lo por si e pelos olhos da morte nos dá uma chance de criar um carinho pela personagem que para alguns autores é difícil construir em poucas páginas. Encantado e satisfeito eu chego ao fim do livro, refletindo sobre as inúmeras questões postas pelo escritor as vezes de forma sutil, ora de forma irônica e outra de forma totalmente clara. Só mesmo Saramago para me fazer ler um capítulo inteiro e me fazer sentir diversas coisas: eu começava me divertindo no capítulo, no meio achava que o mesmo estava ficando maçante e quando chegava no final e eu tinha a ideia completa de onde o autor queria chegar eu pensava "Meu Deus... Isso é genial!"
comentários(0)comente



Fidel 05/08/2015

Um belo dia você acorda e fica sabendo que naquele dia ninguém morreu. Nenhuma das almas já encomendadas deixou o seu casulo.

Imagine que maravilha saber que agora você viverá (em carne e osso) para sempre.

E se isso acontecer, imagine os problemas que surgiriam com as pessoas em seus leitos de morte, eternamente moribundas, aguardando uma morte que não vem. Imagine os problemas sociais, como populações que crescem sem parar e ninguém morre e a promessa do paraíso pós-morte que nunca virá se um dia a morte se aposentar. Se nós não morrêssemos, viver seria um grande problema, pelo menos é o que escreve José Saramago em "As Intermitências da Morte".

Com humor e leveza Saramago, faz uma sátira a morte e a vida eterna, mostrando que o fim da morte seria o fim do homem e da sociedade em que este se encontra. Dito de outra forma: sem a morte não há vida para ser vivida.

Um exemplo dos grandes problemas apontados por Saramago sobre o fim da morte é comentado no livro pelo clero e o primeiro-ministro em que o primeiro chama a atenção da autoridade sobre a preocupação que este tem que sem a morte não há paraíso e sem paraíso não há igreja, porque não haverá ninguém para salvar. Esta é também a visão crítica de Saramago de que toda essência da religião se firma na morte.

Para alcançar o paraíso é preciso morrer e o caminho que leva a morte que salva é a religião.

Mas a reflexão que o livro propõem vai além das questões religiosas e mostra que a morte tem um poderoso papel social. Ela é a condição humana que determina que para sermos humanos, precisamos morrer, posto que tudo o que somos e pensamos, a morte é o referencial, a medida de tudo. Vivemos intensamente, pois sabemos que vamos morrer e isto é sabido desde o momento que temos a consciência do que somos. Apenas os humanos são capazes de ter a percepção da morte, pelo menos é o que diz ciência. Mas todos os seres vivos precisam do ciclo de vida e morte, pois caso contrário não seríamos seres vivos.

site: http://fideldicasdelivros.blogspot.com.br/
comentários(0)comente



Laura.Mota 26/07/2015

Intermitências da morte
Saramago coloca mais uma vez em prática aquele tipo de pensamento que às vezes temos, do tipo "e se de repente o mundo....", que invocam o absurdo. Mas em Saramago o absurdo se torna possível e aqui a morte dá um chilique e resolve parar com seus serviços por um tempo. O que parecia uma dádiva logo se mostra um problema: a igreja, as funerárias, os filósofos, o governo se põem a pensar: E agora? O livro, que poderia ser trágico ou sinistro por conta do tema da morte se mostra leve e de algum modo divertido a partir do momento em que o narrador vai mostrando seu lado irônico e em que o leitor pode interagir com ele. A morte, agora personagem, (mesmo com o 'm' minúsculo, como ela mesma quer) se mostra mais humana do que poderíamos imaginar.
comentários(0)comente



raizaqxavier 25/07/2015

Saramago surpreendendo
Um dos finais mais lindos que já li na vida!
comentários(0)comente



Stella Gomes 21/07/2015

As intermitências da Morte
Mais uma vez José Saramago mostra como o ser humano pode ser ingrato.
Cansada de tanta reclamação a seu respeito, a morte decidiu entrar em greve e mostrar o quão importante é para a sobrevivência da sociedade tal como conhecemos e da dignidade da mesma. Mostra através de sua greve o quanto o homem pode ser hipócrita por utilizar-se de certas situações de sofrimento para ganho próprio.
Na primeira parte do livro Saramago apresenta a morte como figura capaz de acabar com tudo e com todos em um piscar de olhos e sem nenhum remorso. Já no segundo momento ele a apresenta como um ser que sofre por ser incompreendido e até mesmo capaz de amar.
Novamente José Saramago foi GENIAL ao deixar ao leitor a responsabilidade de imaginar um final para esta história.

Adorei!
Alcinéia 23/07/2015minha estante
Amei!!!




Alcinéia 13/07/2015

“A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste.”

A morte decidiu oferecer aos seres humanos que tanto lhe detestam uma pequena amostra do que seria viver para sempre, isto é, eternamente, e, no dia seguinte ninguém morreu...
Não há no dicionário palavras suficientes para descrever este livro, até a metade ele é maravilhoso, daí para o final é muito melhor. Nesta obra Saramago critica a Igreja, o Estado, a mídia a e hipocrisia do ser humano, e, ao mesmo tempo nos emociona com um incrível romance... Perfeito!!!
Na primeira parte do livro a morte nos é apresentada como fatal, aquela que decide, e se com sua presença a humanidade sofre, em sua ausência esta definha. A morte passa de odiada, a desejada. Na segunda parte, a morte não perde o seu poder, mas ela conhece o único sentimento que lhe é mais forte e o qual não consegue vencer... o amor.
Emocionante!!!
comentários(0)comente



Débora 06/07/2015

Nem rei, estado, máphia, polícia, igreja ou Deus. Apenas morte.
Quando a morte rompe com o automatismo perceptivo e de suas funções, ela põe em xeque tudo o que se tem por certo das leis da existência, do ciclo da vida, rompe com a verdade absoluta e já sedimentada e causa dúvidas e confusão generalizada. A morte aqui (a)parece ávida por novidade. Indagando, experimentando e descobrindo-se senhora do seu destino. Nem o rei, nem o estado, nem a "máphia", polícia, nem igreja e nem mesmo Deus são maiores que a morte. A morte é soberana e personagem principal num livro nada convencional e que pode conduzir teu pensamento à lugares nada comuns.
Allice 10/07/2015minha estante
Já queria ler, e depois da tua resenha quero deu mais vontade ainda!


Débora 12/07/2015minha estante
À principio, a história não empolga. Ele começa discorrendo sobre as consequências da ausência de morte e é necessário reflexão. Mas quando a morte deixa de ser mostrada apenas como coadjuvante da vida humana e passa a ter consciência de si, e indagar e promover mudanças até então impensáveis, acho que vale a pena todo o esforço inicial.


Rodrigo Pereira 29/07/2015minha estante
Ótima resenha. Li muito pouco do Saramago, mas agora fiquei bastante interessado nessa obra :)




Horroshow 31/05/2015

Impecável
Resenha por Marina Borges

À última badalada do dia 31 de dezembro, tudo parece mudar. Pessoas que estavam à beira da morte parecem dar um novo suspiro em direção a uma nova vida, ou melhor, à imortalidade. No dia 1° de janeiro tudo é diferente. Cidadãos, jornalistas e até mesmo clérigos procuram uma explicação para o que estava acontecendo. Por onde a Morte está?

Como poderíamos imaginar, esse acontecimento abala todas as estruturas da sociedade. De repente, gerações e mais gerações coexistiriam. Seguro de vida? Para quê? As seguradoras, na tentativa de não falir, oferecem novos planos. Todos tentam se adaptar a essa nova realidade, apesar do aparente caos. Até as fronteiras precisam ser repensadas, já que esse fenômeno afeta apenas aquele país e algumas famílias tentam levar seus familiares para morrer nos países vizinhos. Parece perturbador, certo?

(... Leia mais no link abaixo)

site: http://bloghorrorshow.blogspot.com.br/2015/02/as-intermitencias-da-morte-jose-saramago.html
comentários(0)comente



Erikson 07/05/2015

Ai está mais um livro que li depois de ver uma resenha da Tati (https://www.youtube.com/channel/UCmEKnMzbltaFyiA6H46IDng). Deve ter quase dois anos que vi a resenha e queria ler o livro, porém só depois de comprar meu kobinho e baixar a versão digital que fui conseguir ler. Nunca tinha lido nada do Saramago, acho que comecei bem.

Que livro ótimo! História boa, diálogos ótimos e uma escrita ótima também!

Tudo se passa em um país que não é informado qual é, onde quando um novo ano começa as pessoas simplesmente não morrem mais, enquanto nos outros paises continua a se morrer normalmente. Em função disto várias coisas acontecem no país, surge uma onda de patriotismo, a igreja se sente ameaçada, pois sempre falou a respeito da reencarnação, as funeráreas se revoltam pois o seu negócio simplesmente se torna inútil, as seguradoras também se dão conta de que seu negócio está ameaçado. Depois as funerárias se adaptam a demanda, e passam a cuidar apenas de animais e as seguradoras definem uma idade em que as pessoas seram consideradas mortas.

Passada a euforia inicial das pessoas, os problemas começam a aparecer. A previdencia social não vai dar conta de assegurar uma aposentadoria para as pessoas, pois as contas não vão fechar, vai ter muito mais pessoas velhas sempre e este número só vai aumentar já que nenhum idoso vai morrer e a população nova e ativa vai ser uma minoria que não vai poder custear isso. Algumas pessoas que simplesmente deveriam ter morrido simplesmente não tem condições de seguir uma vida normal devido ao modo brutal que deviam ter morrido e as consequencias disto, sendo assim acabam impactando na vida de suas famílias e de pessoas próximos. A densidade demográfica também acaba aumentando muito e logo as pessoas se dão conta que a morte ter deixado de atuar não é uma benção, mas sim uma maldição...

A segunda parte do livro também é excelente, nesta parte se passa a conhecer a Morte e sua história, além de se ter contato do romance que surge entre ela e um músico que ela já devia ter matado, porém ela simplesmente não consegue fazê-lo...


Trechos que mais legal:
"Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressureição, e sem ressurreição não há igreja, ó diabo";

"Dizia o que qualquer católico, e o senhor não é uma exceção, tem obrigação de saber, que sem ressurreição não há igreja, além disso, como lhe veio à cabeça que deus poderá querer o seu próprio fim, afimá-lo é um sacrilégio";

"mas a vantagem da igreja é que, embora às vezes não o pareça, ao gerir o que está no alto, governa o que está embaixo";

"Não se esqueça, senhor primeiro-ministro, de que fora das fronteiras do nosso país se continua a morrer com toda a normalidade, e isso é um bom sinal.

Questão de ponto de vista, eminência, talvez lá de fora nos estejam a olhar como um oásis, um jardim, um novo paraíso.

Ou um inferno, se forem inteligentes";

"Bandeias tomaram conta da pasiagem, com maior visibilidade nas cidades pela evidente razão de estarem mais beneficiadas de varandas e janelas que o campo. Era impossível resisitir a um tal fervor patriótico, sobretudo porque, vindas não se sabia da onde, haviam começado a difundir-se certas declarações inquietantes, para não dizer francamente ameaçadoras, como fossem, por exemplo, quem não puser a imortal bandeira da pátria à janela da sua casa, não merece estar vivo";

"As primeiras e formais reclamações vieram das emrpesas do negócio funerário. Brutalmente desprovidos da sua matéria-prima";

"Uma terrível ameaça que vem pôr em perigo a sobrevivência da nossa indústria, foi que declarou aos órgãos de comunicação social o presidente da federação das companhia seguradoras."

"Apertado pelos governos dos três países limítrofes e pela oposição política interna, o chefe do governo condenou a desumana ação, apelou ao respeito pela vida e anunciou que as forças armadas tomariam imediatamente posições ao longo da fonteira para impedir a passagem de qualquer cidadão em estado de diminuição física terminal, que fosse o intento de sua própria iniciativa, quer determinado por arbitrária decisão de parentes";

"Durante duas semanas o plano funcionou mais ou menos na perfeição, mas a partir daí, uns quantos vigilantes começaram a queixar-se de que estavam a receber ameaças pelo telefone, cominando-os, se queriam viver uma vida tranquila, a fazerem vista grossa ao tŕafico clandestino de padecentes terminais, e mesmo a fechar os olhos por completo se não queria aumentar com seu próprio corpo a quantidade das pessoas de cuja observação haviam sido encarregados";

"A máphia está a negociar um outro acordo de cavalheiros com a indústria funerária com vista a uma racionalização de esforços e a uma distribuição de tarefas, o que significa, em linguagem de trazer por casa, que ela se encarrega de fornecer os mortos, contribuindo as agências funerárias com os meios e a técnica para enterrá-los";

"E agora como vou eu retificar um desvio que não podia ter sucedido, se um caso assim não tem precedentes, se nada de semelahnte está previsto nos regulamentos, perguntava-se a morte, sobretudo poruqe era com quarenta e nove anos que ele deveria ter morrido e não com os cinquenta que já tem. Via-se que a pobre morte estava perplexa, desconcertada, que pouco lhe faltava para começar a dar com a cabeça nas paredes de pura aflição";
comentários(0)comente



Rita.Sodre 04/05/2015

Mais uma leitura concluída. Texto crítico, irônico e desafiador. A falta da morte e suas consequências nas diferentes instâncias da vida em sociedade. Discussões morais são os pontos altos. Um tanto decepcionada com o final, mas, quem sabe, os finais não sejam tão importantes e, antes, as provocações feitas ao longo da história.
comentários(0)comente



Antonio Volnei 02/05/2015

Intermitências da morte
O que seria do mundo se um dia a morte resolvesse fazer greve? Esta é uma discussão que esta obra traz em seu bojo
comentários(0)comente



Dani A. 26/03/2015

Com toda a certeza esse não é o gênero de livro que eu gosto de ler,mais fui obrigada a ler por causa de uma disciplina da faculdade e nossa me surpreendeu,de uma forma bem positiva!

O tema central se trata de um país em que as pessoas não morrem mais e pensando assim,nossa que benção,mais não,ao contrário,aí é que as coisas pioram,e nossa o autor retrata de uma forma irônica e engraçada as desvantagens de as pessoas não morrerem mais,gostei bastante,serviu para refletir,nunca tinha parado p/ pensar no caos que seria se ninguém mais morresse...

Só não gostei muito da última parte,mais achei super inteligente mostrar o 'outro lado da dona morte',fiquei morrendo de dó dela kkkk.
Gostei!
Lucila 26/03/2015minha estante
Gosto de beijo na boca, amor, abraços... rsrsrsrrs


Dani A. 26/03/2015minha estante
Pois é,melhor né kkkkkkkk
Mais dentro dos poucos livros 'diferentes' que eu li,desse eu até gostei!




JOY 18/03/2015

Dona Morte, ops, Dona morte!
Surpreendente livro, nos conta a história do dia a dia da dona morte, com letra minúscula sim, senhor. Relato muito interessante que nos faz pensar na importância do ciclo da vida... O que aconteceria se as pessoas parassem de morrer? Saramago lista uma gama de eventos e possibilidades Fantásticas. E o fim do livro é perfeito... Tem o tom perfeito.
comentários(0)comente



Alan 04/03/2015

O meu livro preferido dentre os feitos por José Saramago, apesar de que "Caim" é um livro excelente também. "As Intermitências da Morte" é fantástico, pois nos coloca numa hipotética situação em que a Morte simplesmente resolve deixar de matar e o livro nos mostra as consequências disso.
comentários(0)comente



Cassionei 23/02/2015

SARAMAGO E A MORTE
Viemos a este mundo para nascer, crescer e morrer, certo? Talvez. Talvez? Bom, eu nasci, você nasceu, eu cresci, você cresceu. Mas eu vou morrer? Você vai morrer? Já disseram que a única coisa certa na nossa vida é que vamos morrer. Certa por quê? Porque outros morreram? Agora porque os outros passaram dessa para melhor (?) eu tenho que ir também?

Bom, não estou velho e nem no fim da vida para me preocupar com isso, muito menos uma inquietação filosófica me faz escrever este texto. O tema vem à tona por causa do último romance de José Saramago (ou melhor, do mais recente, porque ele não vai morrer agora), As intermitências da morte (Companhia das Letras, 208p.). Imaginem, senhoras e senhores, se as pessoas deixassem de morrer. Quais as conseqüências? Imaginaram? Pois esse é o ponto de partida da história. Bem, mas o que vocês, simples mortais, imaginaram está longe do que a mente brilhante de Saramago pode criar, me desculpem. A capacidade criativa do autor português também nunca morra. Basta lembrar romances como Ensaio sobre a cegueira ou Jangada de pedra, e depois ler o atual, para entender por que ele é um dos maiores escritores contemporâneos e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

A maioria dos críticos, porém, não pensa dessa forma ou porque gostaria que ele escrevesse sempre obras-primas ou porque nunca gostou de nenhum dos seus livros. Nessa última categoria estão os que admiram o também português António Lobo Antunes e não querem admirar ao mesmo tempo José Saramago, pois para eles o primeiro, autor de romances como Exortação aos crocodilos, era quem deveria ter ganhado o Prêmio Nobel. Da mesma forma, a postura política de Saramago incomoda muitas pessoas, como se isso influenciasse na qualidade de um livro.

Voltemos ao romance, então.

A principal personagem é a própria morte. Por um simples capricho ela resolve que não vai mais “trabalhar” em um determinado país. As conseqüências são alarmantes. Nessa primeira parte, cabe de tudo um pouco do rol de temas do escritor português: há a discussão sobre a finitude do ser humano, a velhice, etc. Não poderia, da mesma forma, faltar o lado polêmico do autor, quando ele analisa as conseqüências políticas e principalmente religiosas que a ausência da morte acarretaria. Pouco foi comentado, porém - apesar de ser um tema que seguidamente está em pauta -, que o romance também trata da eutanásia. Não havendo morte, como ficariam os doentes em estado terminal? Vale lembrar que as mortes cessaram, mas não as doenças. A solução para esse impasse? Leia o romance.

Na segunda parte, a morte resolve voltar a atuar e escreve uma carta para uma emissora de TV, para que seja anunciado que, à meia-noite daquele dia, tudo voltaria ao normal e que todos aqueles que deveriam ter morrido naquele período, morreriam agora. Mais caos à vista, continuando a narrativa a flertar com o realismo mágico latino-americano. Ela anuncia também uma novidade: antes de morrer, cada pessoa receberá uma carta anunciando sua partida com 7 dias de antecedência, podendo assim resolver suas pendências no mundo dos vivos e se despedir dos familiares e amigos. Uma das cartas, no entanto, teima em voltar para a remetente. E é quando começa a terceira parte, a melhor do romance.

Num estilo mais poético, ao contrário do tom mais amargo e irônico do restante da história, a morte toma feições humanas, se transformando numa mulher, e vai ao encontro do destinatário da carta. Trata-se de um violoncelista, escolha acertada para poder contrapor a suavidade da música clássica com uma situação tão dura que é a morte. Pode surpreender os fãs acostumados com a acidez saramaguiana. O desfecho, no entanto, pode decepcionar um pouco, mas nada que tire o brilho do resto do romance.

As intermitências da morte faz parte do tipo de literatura que nos deixa inquietos, no faz refletir, acaba com nossas certezas. Devemos nos preocupar com a morte ou o que vem depois dela? Em vez de pensar somente nela, não deveríamos viver o tempo presente, aproveitando nossa vida na Terra? José Saramago nos mostra que a morte é, paradoxalmente, parte da vida e não passagem para outra. Ateu, acredita que as religiões se apoderam da idéia da morte para existirem. Certo ou não, se há outra vida depois dessa, espero que lá tenha romances tão bons como esse para ler.

Cassionei N. Petry, escritor e professor de Língua Portuguesa e Literatura.

site: http://cassionei.blogspot.com.br/2008/12/gazeta-do-sul-caderno-mix-30-de-junho.html#links
comentários(0)comente



119 encontrados | exibindo 1 a 15
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |



logo skoob
"O contato direto com outros leitores incentiva a ler e adquirir livros que nem imaginávamos existir."

Revista Época