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Aula de português

Encontro & Interação

Irandé Antunes
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Mariane 23/09/2013

Se as aulas de português fossem como esse livro, de chatas elas nada seriam.
"Um dos raros ótimos livros/textos indicados pela minha faculdade. Um livro finalmente voltado aos erros da prática de ensino em sala de aula e o que se pode mudar, diferenciar e melhorar nessa prática. Um livro perfeito para estudantes de letras, mas principalmente para muitos docentes que muitas vezes sabem que trabalhar a gramática, literatura, leitura de uma forma mecânica, descontextualizada é totalmente errado, mas por preguiça, falta de interesse não reflete sobre sua própria prática de ensino e só consegue achar que o grande problema do fracasso na sua disciplina são os alunos.Com certeza se tornou o meu novo livro de cabeceira da faculdade. Muiito bom, muito útil." RECOMENDADÍSSIMO!
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Elcio Q. Couto 13/07/2013

Aula de Português - Irandé Antunes
Irandé Antunes é doutora em linguística pela Universidade Clássica de Lisboa e concentra seus estudos em coesão textual e gêneros textuais. Seus trabalhos, como Lutar com palavras: coesão e coerência, são referências na área e integram a bibliografia básica de diversos cursos de licenciatura de Letras Português no país. Além de sua atuação como pesquisadora, Antunes é profissional preocupada com a prática de ensino da língua portuguesa e exerce participação ativa na divulgação científica e de seus estudos junto a professores, por meio de palestras, cursos e outras atividades.

A unificação desses dois interesses resulta no livro Aula de Português: encontro & interação, em que a autora busca sistematizar suas reflexões e propostas para o ensino do Português pela abordagem interacionista, funcional e discursiva da língua, com a prática de produção e interpretação textual oral e escrito. O livro tem publicação pela Parábola, editora reconhecida pelo catálogo abrangente de obras voltadas às práticas de ensino da língua e ao estudo e reflexão das diversas correntes linguísticas.

Aula de Português: encontro & interação é composto por seis capítulos, em que a linguista reflete, sob uma perspectiva crítica, sobre as atuais práticas de ensino de português; apresenta um conjunto de princípios teóricos para a instauração de uma nova prática pedagógica fundamentada no oferecimento aos alunos da possibilidade de exercício discursivo pleno, relevante e adequado; e propõe um programa e uma série de atividades para a prática dos professores, consonantes com os princípios teóricos apresentados anteriormente, além de expor, ao fim do livro, uma proposta de avalição dos resultados alcançados pelas novas metodologias de ensino.

No capítulo 1, Refletindo sobre a prática de aula de português, Antunes critica o trabalho realizado na maioria das escolas brasileiras com a oralidade, a escrita, a leitura e a gramática. Para a autora, a abordagem que se faz desses quatro campos não confere relevância funcional para o aluno, tampouco amplia sua capacidade discursiva, não privilegia a participação do sujeito aprendiz e desfavorece as interações entre professor/aluno e aluno/aluno, além de apenas objetivar a avaliação de aprendizado de conceitos estanques para os quais não ocorrem práticas reflexivas: o ensino gramatical, por exemplo, segundo a especialista, concentra-se na apreensão da nomenclatura prescritiva e normativa, sem as noções de adequação e inadequação.

Como consequência dessas reflexões, a professora apresenta no capítulo 2, Assumindo a dimensão interacional da linguagem, princípios teóricos concernentes aos mesmos quatro campos analisados no capítulo anterior, sob a perspectiva interacionista da língua, e as respectivas implicações pedagógicas. Nesse capítulo, Antunes, apoiando-se nos preceitos de Bakhtin, conceitua língua como atividade de interação verbal entre interlocutores vinculada às circunstâncias de sua “atualização”, e defende que apenas o estudo textual e discursivo, relativamente à sua produção e interpretação, constitui o objeto de um ensino de língua relevante, funcional e produtivo. Dessa maneira, o ensino de produção e interpretação de textos orais e escritos deve conferir relevância funcional para o aluno, garantir a interação entre os agentes envolvidos no processo como sujeitos produtores (autores) e interlocutores, e contextualizar a gramática, não mais como nomenclatura prescritiva, mas como importante aos usos sociais da língua.

A seguir, no capítulo 3, Repensando o objeto de ensino de uma aula de português, a autora propõe atividades concretas que possam auxiliar o professor numa abordagem de ensino da língua que garanta a consecução dos objetivos apresentados nos capítulos anteriores: o ensino da língua que possibilite o “a ampliação da competência comunicativa do aluno para falar, ouvir, ler e escrever textos fluentes, adequados e socialmente relevantes” (pag. 122).

A abordagem de Antunes é essencialmente didática, mas sem descuido do escopo teórico, e busca, por meio de uma linguagem simples, clara e acessível, conquistar a adesão do professor para a prática de reflexão do ensino de português e incitá-lo à mudança. Não se trata de um manual ou guia, ou ainda um receituário e, embora os exemplos e propostas de atividades prodiguem pelo texto, o leitor é instigado a buscar por si só, a partir do referencial teórico apresentado, as alternativas mais viáveis e condizentes com a realidade específica em que se insere.

Aula de Português: encontro & interação posiciona Antunes como importante referência para a reflexão sobre o ensino contextualizado e de relevância social da língua portuguesa. Aqui encontram eco os preceitos oficiais dos PCNs e os apontamentos reflexivos de Por que (não) ensinar gramática na escola, de Sírio Possenti, por exemplo, quanto à preocupação da reformulação da abordagem do ensino da língua.

Embora não tenha se furtado a considerar que a consecução dos objetivos pretendidos para o ensino da língua não depende unicamente da intervenção do professor em sala de aula, mas de políticas públicas efetivas é importante salientar que o livro poderia ter reservado um espaço maior a esse tipo de discussão. A ideia é que não se reserve apenas ao professor o “privilégio” de comandar a guinada total na qualidade de ensino do país: é preciso que se tenha consciência da importância do apoio do sistema oficial que sustenta o ensino.

À parte dessas considerações, Aula de Português: encontro & interação é obra indicada a todos que enxergam no ensino da língua uma importância fundamental para plena e mais eficaz participação social dos alunos, cidadãos.
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Nando 18/03/2011

Encontro e Interação (Fernando Lago)
Aula de português – encontro interação, de Irandé Antunes, é um livro dedicado especificamente aos professores, como deixa claro logo no início a autora, doutora em Linguística pela Universidade de Lisboa e professora da Universidade Federal do Ceará.

Longe de considerá-los como responsáveis exclusivos pelos problemas da educação, Antunes estimula os professores à luta pela mudança, apresenta alguns avanços já verificados e, como não se pode dar ao luxo de dispensar, evidencia algumas implicações que ainda resistem na prática docente, mesmo diante de algumas novas possibilidades surgidas no âmbito das políticas públicas. O trabalho centra-se em quatro elementos essenciais no estudo da linguagem, a oralidade, a leitura, a escrita e a gramática.

No primeiro capítulo Antunes faz uma análise a situação atual. Embora reconheça que fatores exteriores à escola implicam nos problemas com relação ao aprendizado, lembra-nos que já existem alguns avanços relacionados ao estudo e à percepção da Língua Portuguesa, tanto no sentido das políticas públicas quanto nos critérios de avaliação das provas e exames oficiais. Assim, a autora cita os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), que já privilegiam “a dimensão interacional e discursiva da língua” e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) que transcendem as definições e classificações gramaticais contemplando, nos seus descritores, um conjunto de habilidades e competências avaliadas através de textos de diferentes tipos, gêneros e funções. Assim, afirma, já não se pode culpar unicamente as políticas públicas pela maneira com que se trabalha a língua portuguesa na escola.

Ainda no primeiro capítulo, Antunes traz um pequeno esboço dos principais equívocos relacionados aos quatro elementos que citamos acima. Na oralidade, a autora aponta o descaso com relação à fala, como se esta não estivesse ligada ao estudo da língua ou vice e versa, como se na fala fossem permitidos todos os tipos de erros, não distinguindo situações de usos mais ou menos formais da oralidade. Com relação à escrita, Irandé nos apresenta equívocos relacionados ao não reconhecimento da interferência decisiva dos sujeitos na sua produção; a prática de escrita mecanizada, artificial, centrada nas regras e embasada em exercícios descontextualizados, como formar frases isoladas, sem função social e vazias de sentido, criando um abismo entre a língua do aluno e a “língua da escola”. No trabalho com a leitura a autora afirma que as escolas ainda se centram nas habilidades de decodificação da escrita, sem contemplar a dimensão interacional da língua, uma leitura desvinculada dos diferentes usos sociais que dela se pode (e deve) fazer. Sobre a gramática a autora explica que há vários equívocos quanto à maneira como ela é trabalhada na escola: fragmentada, descontextualizada, desvinculada com a realidade da língua escrita e falada, trabalhada através de frases soltas e sem sentido, apoiada apenas em regras e definições, inflexível, engessada, sem considerar os usos reais da língua – oral e escrita – e o processo de mudança por que ela passa.

É, então, a partir destes limites e equívocos que Irandé baseia seu trabalho para fundamentar elementos que contribuem na construção de novas formas de enxergar a língua portuguesa e de desenvolver o trabalho no ensino desta. Assim, no segundo capítulo, ela apresenta princípios teóricos que possam cumprir esta função.

Segundo Antunes, toda atividade de ensino de língua baseia-se em uma determinada concepção, ou seja, um conjunto de princípios teóricos a partir dos quais se percebe os fenômenos lingüísticos. Há duas tendências sob as quais tem sido pautada a percepção da língua. A primeira limitando-se ao conjunto abstrato dos símbolos e das regras, sem vínculo com as condições de usos reais da língua; a segunda pautando-se na linguagem como atuação social, enquanto atividade de interação entre sujeitos e, portanto, ligado a situações reais, concretas e diversificadas. É, pois, nesta segunda concepção que se embasam os princípios teóricos que a autora apresenta para cada elemento: oralidade, escrita, leitura e gramática. Essa concepção, afirma, possibilita enxergar a linguagem com mais amplitude, como atitude social, longe das concepções engessadas e embasadas apenas nas regras inflexíveis, que nem sempre levam o sujeito a algum lugar.

Com relação à escrita a maior preocupação da autora é a sua afirmação como elemento comunicativo entre sujeitos. A escrita não pode ser compreendida apenas como ferramenta avaliativa, mas toda a atividade escrita deve direcionar-se, deve dizer algo a alguém. Ressalta também a variação de formas e gêneros existente na escrita, dependendo de que ou a quem se destina. São também abordadas as condições para produção da escrita e as diferenças com relação à fala, além de apresentar-nos as diferentes etapas pelas quais se deve passar na elaboração de um texto escrito. Como questões pedagógicas, a autora apresenta as necessidades de propor textos que sejam de autoria dos alunos, vinculados comunicativamente, socialmente relevantes, diversificados, com destino (a quem escrever? Pra que?), contextualizados, coerentes, tecnicamente adequados.

Quanto à leitura, Antunes a apresenta como ferramenta de interação verbal escrita, atividade de acesso ao conhecimento, necessária para a aquisição de novos saberes e de aprendizado formal da língua. Ressalta a necessidade de se trabalhar o contexto extralinguístico do texto, ou seja, compreendê-lo a partir de elementos externos, conhecimentos prévios, estimulados por uma ou mais palavras nele contidas. Nas implicações pedagógicas a autora expõe a necessidade de se promover leitura de textos autênticos e reais (revistas, jornais, panfletos, livros, cartazes etc.); que o texto seja interativo, um encontro entre quem lê e quem escreve, atividades que vinculam leitura e escrita, pois há uma relação de interdependência entre elas. Ressalta-se também a necessidade de compreender as diversidades de gêneros literários, o trabalho com a coerência global do texto e a importância de reconhecer que cada texto, por mais inocente que pareça, é regido por uma concepção de mundo.

No que diz respeito à gramática, Irandé busca desconstruir o mito de que a gramática é o conjunto de regras estáticas e inflexíveis que regem apenas a linguagem escrita formal. Apresenta-nos a gramática como regras que especificam o funcionamento de uma língua no sentido geral, seja escrita ou falada. Dessa forma, nenhuma manifestação de linguagem existe sem gramática, sem normas, mesmo que, no ponto de vista da língua formal, seja considerada errada. A gramática existe em função da maneira como as pessoas se expressam e não o contrário, como se pensa; é um conjunto de regras que visam à compreensão de textos escritos e falados e, em geral, diversifica-se de acordo com a região geográfica. Como implicações pedagógicas a autoria recomenda que no trabalho com a gramática observe-se a relevância, utilidade e aplicação para os alunos das regras e definições trabalhadas na escola, uma gramática que observe a funcionalidade da língua, partindo de textos e fatos reais das manifestações lingüísticas; contextualizada e interessante, instigante ao aluno, flexível com relação às diversidades da linguagem.

A oralidade é apresentada neste livro como uma manifestação tão importante quanto a leitura e a escrita. Para a autora, não há oposição entre oralidade e escrita, estão intimamente relacionadas, embora possuam suas particularidades. Desta forma, Antunes manifesta em todo esse trabalho a preocupação em compreender a oralidade como um texto também elaborado e que, como tal, tem sua variedade de gênero, suas especificidades de público e suas diferenças de uso em situações formais e informais. Como recomendações pedagógicas, manifesta a importância da coerência a partir do tema em que se desenvolve o texto oral, dos tópicos e subtópicos da interação, recursos que mantém o encadeamento do texto, das diferenças entre escrita e oralidade, da diversidade de gêneros textuais nela também existentes, enfim, que se trabalhe a oralidade visando a interação e o convívio social entre os sujeitos, desenvolvendo também a capacidade de ouvir.

No terceiro capítulo Irandé Antunes retorna estes princípios pedagógicos a fim de fornecer ao professor elementos que ajudem na construção do ensino de língua portuguesa a partir desta concepção interacionista da linguagem. Assim ela contribui com sugestão de atividades e metodologias que visem essa concepção, enfocando-se em cada especificidade trabalhada para oralidade, leitura, escrita e gramática. No capítulo 4, volta-se os olhos para a avaliação que, admitindo-se uma concepção interacionista da linguagem, deve também ser encarada diferentemente das concepções avaliativas reinantes. Para ela, não se trata de uma questão técnica, mas sim de concepção. Neste sentido, a avaliação não deve ser apenas um processo para detectar erros e reprovar os incapazes de assimilar as normas da gramática, mas deve avaliar o processo de aprendizado a partir da compreensão da língua como objeto de comunicação entre os sujeitos e da necessidade de os educandos assim compreendê-la, bem como desenvolver competências para aplicá-la em situações reais.

Por fim, nos dois últimos capítulos, a título de conclusão, a autora ressalta a necessidade de o professor assumir a autonomia de seu trabalho pedagógico em língua portuguesa, assumir-se como especialista em língua portuguesa e ter segurança na sua ação docente, para avançar para além das concepções antigas da língua engessada, monótona e cheia de regras. Um ensino da língua que tenha sentido e significado para os alunos, porque é a sua língua e não a língua exclusiva da escola.

Universidade do Estado da Bahia. Departamento de Educação Campus X - Teixeira de Freitas. Março de 2011. Produzido para fins acadêmicos.
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