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Os Cus de Judas

António Lobo Antunes
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Marcos Bassini 26/01/2009

Ao contrário do título, o estilo é lindo.
Se existe um exagero, no seu país natal, de se considerar Lobo Antunes como o melhor escritor em língua portuguesa depois do Eça, não é exagero nenhum dizer que ele é dono de uma obra ímpar em que o estilo é tão próximo à poesia que a história deixa de ser importante e o deleite passa a ser a forma.


Izze 25/03/2010

Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes
Frases longas, parágrafos sem fim e nenhuma ordem cronológica de apresentação dos fatos. Essa é a característica inconfundível de António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa. E não há forma melhor de conferir sua genialidade narrativa como em uma de suas primeiras publicações, Os Cus de Judas.





Formado em medicina, com especialização em psiquiatria, Lobo Antunes atuou como médico na guerra de independência da Angola. E foi essa experiência que marcou profundamente seus três primeiros romances, entre eles Os Cus de Judas. Falo isso para ilustrar o enredo da obra, pois essa vivência da guerra é que gerou uma das grandes obras da língua portuguesa.



Publicado no Brasil pela Alfaguara, Os Cus de Judas conta os dias de um médico do exército português na guerra angolana, alternando o relato das tragédias do país com lembranças da juventude do narrador. Uma leitura densa, carregada de emoção e reflexões sobre a guerra e a própria vida. O protagonista/narrador passa anos em Angola, um “cu de Judas” sem lei, onde todos parecem animais, onde a morte pode aparecer a qualquer momento.



Com referências a livros, músicas e filmes, o protagonista ilustra suas vivências, procurando passar ao leitor da melhor forma possível os seus sentimentos em relação a cada momento de sua vida. A angústia de estar longe da mulher grávida de sua primeira filha, a saudade da família, que de certa forma o empurrou para a guerra, os horrores dos seus pacientes mutilados. E a constatação de que a única coisa realmente útil que podia fazer por eles era trazer a morte. Pois quem gostaria de se manter vivo para ver mais das atrocidades, da miséria dos cus de Judas para onde eram enviados?



António Lobo Antunes fala de como a guerra se crava na pessoa, tornando-a difícil de esquecer, de arrancar da pele. Os dias de serviço em Angola afetam diretamente a personagem, lhe tira um pedaço da vontade de se manter vivo. Na volta para casa, ele se sente tão perdido que apenas a guerra lhe parece familiar, aconchegante. Contudo, um conforto longe de ser apreciado. O protagonista se sente tão desesperado a essa vivência desumana que se segura em qualquer coisa, por mais insignificante que ela seja, para se manter em pé. Principalmente quando percebe que parte da negligência do país vem de seus próprios companheiros.



A guerra não tem sentido, nem propósito, além de matar e destroçar. Como sair bem de um conflito que não leva a nada, depois de ver milhares de pessoas perecerem por conta dele? São pensamentos assim que não saem da mente do narrador, que muda sua ideologia e abrem nele feridas que nunca vão se cicatrizar. O que resta a ele é aprender a conviver com ela, com as lembranças dela, para se manter são.



Lobo Antunes construiu uma narrativa de uma intensidade tão real que torna impossível de largar o livro, por mais complicado que ele pareça ser. Logo o leitor se habitua ao seu estilo, e entra nos horrores do combate que ele vivenciou. Terminando a leitura com uma melancolia profunda por, como o protagonista, não poder fazer nada para diminuir o sofrimento daqueles que na guerra vivem. Uma leitura recomendada, de uma crítica relevante sobre atos irracionais que não trazem benefício algum.



[rizzenhas.com] [ambrosia.com.br]
jkdornelles 12/10/2010minha estante
Lobo Antunes sem dúvida é um dos maiores escritores da nossa lingua. Parece que foi necessário sofrer demais pra de fato botar o dedo na ferida do Império Portugal: Eles saquearam um bucado e pra não retornar em nada. É mesmo uma leitura triste, mas de uma tristeza libertadora.




*Carina* 11/10/2010

“O que seria de nós, não é, se fôssemos de facto felizes?”
Vou começar dizendo, antes de qualquer coisa, que acho que "Os Cus de Judas" é uma obra-prima.

A escrita de Lobo Antunes realmente não é fácil, não é algo que seja possível ler em qualquer lugar, de qualquer jeito. É preciso degustar o que ele escreve. E ainda assim, o gosto que fica é amargo. Em vários momentos durante a leitura a palavra "cru" era a que me vinha para definir o que estava lendo.

É um livro que fala de guerra, morte, amor, tudo com a mesma dureza. É impressionante como Lobo Antunes escreve de modo tão poético e ao mesmo tempo tão seco. As palavras não acolchoam a dureza dos sentimentos do protagonista. A sensação que tive o livro todo foi da busca por um conforto que não chegava nunca. E não é isso a vida? Não é o que a maioria de nós faz, diariamente? Nesse ponto fiz um paralelo com “Jerusalém”, do Gonçalo M. Tavares. O protagonista de “Os Cus de Judas” me parece igualmente encalacrado em seu desespero, ao mesmo tempo achando que o problema é que lhe faltam certas coisas, que algum dia as possuirá, seja um amor, o fim da guerra, outra personalidade, e enquanto isso a vida lhe passa e tudo que acontece de possivelmente bom é negligenciado. Como diz genialmente Lobo Antunes:

“Não é em si que não acredito, é em mim, na minha repugnância em me dar, no meu pânico de que me queiram, na minha inexplicável necessidade de destruir os fugazes instantes agradáveis do quotidiano, triturando-os de acidez e ironia até os transformar no Cerelac da chata amargura habitual.”

Nesse momento, que já é depois da metade do livro, Lobo Antunes, através do protagonista pergunta:

“O que seria de nós, não é, se fôssemos de facto felizes?”

É uma pergunta que me tocou muito porque não sei respondê-la. A teoria dele é que não sabemos lidar com isso, com momentos felizes e fugazes, com um amor que nos é dado sem nada pedir em troca, que isso nos confunde. Minha tendência, por mais que eu não goste, é de concordar com ele. Termino aqui na esperança de que algum dia alguém me convença do contrário.


Felipe 18/08/2009

Linguagem e conteúdo
Confesso que a fama do autor que me levou a ler esta obra, pois Lobo Antunes é considerado por muitos o melhor autor vivo em nosso idioma, lembrando que ainda está vivo um escritor em português ganhador do Nobel, José Saramago. Optei por ler “Os cus de Judas” por muitos considerarem sua obra-prima, tinha enormes expectativas, todas positivas.

A obra trata da guerra de independência de Angola, mas para aqueles que querem ter um relato fiel da guerra, o livro decepciona. Ele é quase uma autobiografia ou talvez uma visão egocêntrica da guerra. Os relatos dizem respeito à angústia e experiência de uma pessoa no campo de batalha, em nenhum momento existe uma reflexão sobre o outro lado ou as causas colonialistas que levaram o exército português a Angola. É a visão do colonizador sobre a estranheza da colônia rebelde que não aceita a invasão de um povo estrangeiro. Com certeza o livro não atingiu sua fama pelo conteúdo que deixa um leitor crítico irritado com a falta de sensibilidade do autor-personagem.

O grande mérito de Lobo Antunes está na forma, para mim não existe ninguém que escreveu da mesma maneira antes dele. Ele é totalmente original, o que explica sua fama e a devoção que causa em seus leitores. Se existe algo entre prosa e poesia, ninguém fez melhor que o autor português. Seu texto é denso, extremamente denso, cada página é vencida a muito custo. Eu pensei em abandonar o livro por diversas vezes. Poderia considerar que o texto de Antunes intimida e desafia o leitor a continuar até o próximo capítulo. O ponto anedótico para o leitor brasileiro são alguns termos portugueses que só podemos especular sobre a que se referem, como gelado de pauzinho (picolé?) e agência de caixões (funerária?).

A linguagem de Lobo Antunes é ácida, não poupa ninguém, tampouco ele mesmo. É não linear, o leitor nunca sabe o que será narrado, quando ocorreu e principalmente onde. O tema da sexualidade permeia todo o livro, com descrições dignas de Jorge Amado. Não se pode considerar que o texto de Lobo Antunes seja uma leitura divertida, é um texto para se apreciar. Um trecho escolhido ao acaso que sintetiza a narrativa de Lobo Antunes com sua acidez e densidade “Compreenda-me: pertencemos a uma terra em que a vivacidade faz às vezes do talento e onde a destreza ocupa o lugar da capacidade criadora, e creio com frequência que não passamos de facto de débeis mentais habilidosos consertando os fusíveis da alma à custa de expedientes de arame”.

Quase não há falas e os diálogos inexistem. Poucos parágrafos, a narrativa é contínua e sem pausas, o que às vezes deixa o leitor tonto e confuso sobre o que está lendo. Cada frase é bem construída, e elas se sucedem sem refresco.

O que eu realmente não gostei, além do conteúdo, é o não respeito a várias regras gramaticais da língua portuguesa. Eu não acho que por mais famoso e importante que seja um escritor ele seja maior que nossa língua. Ao escrever sem respeitar as regras, o escritor dificulta a leitura e nos faz perguntar se as regras do português são feitas apenas para nós mortais, se grandes escritores não devam respeitá-las. Minha opinião é que certamente as regras gramáticas devem ser respeitadas por todos, inclusive para grandes escritores como António Lobo Antunes.



Claire Scorzi 08/06/2010

Intimismo inesperado
É um olhar intimista sobre a guerra de independência de Angola, o que eu não esperava; pensei que seria um desses romances-painel sobre um acontecimento grandioso.

Narrando a uma desconhecida encontrada num bar em Lisboa aquilo que vivenciou como médico em Angola - em espaços isolados, às vezes desérticos, com freqüência tensos - um homem vai desvelando não só sua esperiência, como também suas lembranças da infância, das mulheres - do que ele era 'antes', enfim. Ninguém sai de uma coisa como essa sendo a mesma pessoa, se sabe. Mas é talento do escritor explorar isso, e o modo como Lobo Antunes o faz fascina, choca, nos agarra à sua narrativa. Lido num jato só, "Os cus de Judas" consegue ser olhar atento na sua aparente espontaneidade/ ligeireza: as confissões do médico vão e vem, se expandindo e se recolhendo. Um retrato pequeno, talvez; porém forte.


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