
Mais um grito ateu de Saramago. Desses que se ouve a quilômetros de distância. Não é só totalmente audível, mas principalmente admirável. A coragem, audácia, perspicácia e inteligência que só poderiam ter vindo de onde vieram. Fiquei encantada com a história de Caim, mas confesso que meu chamego ainda é o Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Meu primeiro contato com Roth e foi amor à primeira vista, ou leitura, literalmente falando. Chorei no começo do livro. Toda a descrição do enterro, a visão do morto pelas palavras dos familiares, me fizeram querer, e muito, mudar certas coisas da minha vida, certos relacionamentos. Ao passar as páginas, fui me perdendo, me confundindo com o Homem Comum e esquecendo mesmo quem sou. Me senti envelhecer, me vi idosa e dependente, doente, com medo da morte. Apesar das sensações, ou por causa delas, este é o tipo de livro que considero essencial.

É incrível a capacidade que Philip Roth tem de retratar a complexidade da mente humana. Não só a de Alexander Portnoy, mas principalmente esta. O livro é interessante como poucos e é, também, para poucos. Pela linguagem, aliás, pela ousadia de criar um personagem tão caricato e cheio de pormenores que ferem as imagens intocadas de judeus e americanos. Vi minhas angústias retratadas nas supostamente patéticas angústias de um Portnoy sarcástico ao extremo. Já procuro o próximo livro de Roth para ler.

Estou completamente apaixonada por ela, por essa tal de Duras. Essa menina vestida com sapatos altos e chapéu de homem. A menina que entrou no carro de um desconhecido e se entregou. Essa menina que viveu uma paixão tão intensa que nem se deu conta da importância que tinha. A menina que conheceu e gostou cedo dos prazeres carnais. Essa menina que podia ser eu na mesma idade, sobrevivendo de uma mesma essência lúbrica. É bonito ver que a experiência a marcou tanto quanto a mim. Reconfortante e nostálgico.

Terminei o livro com uma sensação péssima de ter perdido todas as palavras que Duras escreveu. Pensei não ter entendido absolutamente nada além do que tinha ali escrito. Encontrei uma mulher perturbada, Lol V. Stein, louca. Louca, vazia e ausente da vida. Alguém que precisa deitar em um campo de centeio e assistir ao deleite de Tatiana Karl e Jacques Hold, de longe, em uma moldura feita pela janela do Hotel de Bois, para poder existir de fato. Existir sentindo a própria anulação de si no desejo dos dois, que, naturalmente, a exclui, ou deveria. Não a vi como voyeur, ela vai muito além disso. Mas também não sei definir o que eu vi, de fato, em Lola. Ou deveria ver. Não sei.

Catherine foi um furacão que passou por mim e me deixou fora de órbita. Uma inteligência invejável. Uma história singular. Uma mulher de um potencial único. Talvez pela grande capacidade intelectual, é um tanto consciente demais do mundo exterior e interior, o que a perturba e a faz sair de si. Acompanhar as interpretações que ela faz de sua história foi começar a repensar e analisar a minha própria vida.

A minha curiosidade com este livro despertou depois de ler uma associação que faziam da leitura dele à produção d'O Caderno Rosa de Lori Lamb, escrito por Hilda Hilst supostamente após ter lido Bataille. Foi meu primeiro contato com o autor e único, até agora, mas que já me fez entender o tamanho e a importância da figura.
História do Olho é dessas narrativas que intrigam pela falta de sentido que, de repente, completa todo um quebra-cabeça. Em especial, o capítulo "Reminiscências": é lá onde é possível achar todas as peças que faltavam, é lá onde o autor se despe e onde nos vestimos dele. Confesso que ainda estou intrigada com a relação entre gozo e morte.

Conheci Bridget quando ainda não me via mulher, mas menina, ainda assim ela me rendeu uns bons risos. É engraçado que, mesmo naquela época, percebi que Jones não é uma só, mas um pouco de cada. Uma leitura que não é essencial na vida de ninguém, mas agradavelmente doce e engraçada.

Uma ironia, esse Bukowski. Não sei como me deixei levar por algo tão cru e desprovido de poesia, de beleza. É o texto pelo texto, a palavra pela palavra, o fato pelo fato. Sem metáforas, sem subterfúgios. Mesmo assim prende até a última página. O jeito de anti-herói de Henry cativa da forma mais estranha, mas cativa e ponto final.

Um clássico que merece e muito tal denominação. "O" é muito mais do que uma mulher ou um ideal de mulher escrito. "O" é o símbolo da confiança total, da entrega sem medida em nome de uma filosofia, de um modo escolhido de vida. É um amor que não conhece obstáculo, que torna fácil e total a anulação completa de si mesmo em favor do outro, do comando e da vontade do outro. Em uma sociedade onde o amor é essencialmente egoísta, a História de O chega e mexe com as estruturas de quem a lê.

