
Para julgar pela capa
Bottomless Belly Button é tudo aquilo que aparenta ser por fora, e um pouco mais. Suas 720 páginas não-numeradas (sim!) são o que primeiro chamam a atenção, o estilo externo e interno do livro combinam como nenhum outro (como se a capa não fosse uma capa), na lombada do livro a indicação de gênero não poderia ser mais precisa: "family comedy/drama/horror/mystery/romance", tal como a recomendação na primeira página: "Three parts - take breaks reading between them.". Acredite em tudo aquilo que a capa lhe disser e leia sem intervalos, à exceção daqueles recomendados pelo autor. A história é envolvente, complexa, e tão bem narrada, que a 720ª página chega bem antes do esperado. Recomendo bastante.

Viagens
Assim como Pyongyang e Crônicas Birmanesas, Shenzhen é um relato - minimalista e encantador - da viagem de Guy Delisle ao local que dá nome ao livro. Interessante notar como os três livros têm uma evidente "evolução": Pyongyang é maior, os desenhos têm traços mais limpos, e é mais elaborado/completo, por assim dizer, que Shenzhen. Assim como Crônicas Birmanesas é maior, mais elaborado/completo e de traço mais limpo que Pyongyang. Recomendo a leitura de todos, se possível em ordem, para fechar com as Crônicas, que são chave de ouro.

Kafka... de Crumb?
Fiquei ligeiramente aborrecida com este título, primeiramente. Porque o Kafka aqui apresentado é tão de Crumb quanto de David Zane Mairowitz, que produziu os textos. Ou talvez até mais do segundo. O título original, entretanto, é muito mais sensato: Introducing Kafka. Quanto ao conteúdo, é bom no que se propõe. Bom, apenas, não mais que isso. O livro apresenta coisas demais, e nenhuma delas tão bem ou profundamente. A biografia é agradável, de leitura simples, bastante satisfatória aos que conhecem pouco ou nada do autor. Os desenhos de Robert Crumb falam por si próprios e, por isso mesmo, achei que dentro desta proposta se desvalorizaram. Algumas obras de Kafka são apresentadas no livro, em versões curtíssimas e com a linguagem "traduzida" a uma versão rápida e atual, o que a meu ver tira todo o Kafka delas, deixando apenas sinopses vazias (valorizadas pelo toque de Crumb), contando finais a torto e a direito. Se o livro dobrasse de tamanho e fosse dado mais tratamento aos contos, seria uma ótima "introdução a kafka". Mas a melhor literatura sobre Kafka, tenho que concordar com Mairowitz, continua sendo o próprio Kafka. Apesar de tudo, o livro valeu a pena pelo Crumb.

Releituras de Kafka
Não dispensa a leitura do original, mas apresenta aqui intensas releituras de alguns mini-contos de Kafka. Apenas "Um Artista da Fome" me deixou um pouco insatisfeita, talvez pelo enorme gosto que tenho neste conto, um dos favoritos. Embora completo e visualmente incrível, este livro deve ser "uma" das literaturas de Kafka na estante, não "a" literatura de Kafka na estante, compreendem? Como um extra. Divertidíssimo extra. Uma pena ser tão fininho :)

Retratos de Guy Delisle
Tal qual Pyongyang, aqui Delisle transmite uma imagem de fácil e leve recepção da cultura/ditadura birmanesa, mais alguns pormenores (e pormaiores) locais. Um pouco maior que Pyongyang, o que agradou muito, e um pouco mais profundo. Como nesta viagem o motivo teve ligações diretas com as ações do governo (pois Delisle foi acompanhando sua mulher a trabalho para MSF-França), as descrições tendem à seriedade do trabalho, sem fugir daquele traço e leve humor de Delisle, que não deixam ninguém na mão. Além disso, a organização em pequenas "esquetes" faz o tamanho do livro não assustar em nada. E depois da segunda obra lida, pronto, virei fã. E recomendo :)

UM retrato da coréia do norte.
Amei o livro. O desenho de Delisle é minimalista e encantador. E ele descreve o regime da coréia do norte com total leveza e um quase descompromisso; de forma que não fica nem um pouco pesado de ler, e as ironias fazem bem rir. O que combina muito bem com o tipo de história que temos aqui: não é nenhum tipo de jornalismo investigativo, apenas um quadrinho autobiográfico muito bem descrito. Ótima pedida :)

Corram, Chics!
Fraquíssimo guia de "comportamento" contemporâneo. Poucas vezes me deparei na leitura com algo de relevante. A etiqueta contemporânea é nada mais que um tratamento de bom senso em cima da etiqueta clássica, o que a autora até se propõe no livro, mas falta com o bom senso quando foge do tema pra contar caso. Fora os assuntos de tecnologias, melhor buscar um livro de etiqueta clássica nos sebos, que é garantia de divertimento e, de quebra, um manual de etiqueta pra servir de base ao que quer que seja. Antiquado, mas muito mais enriquecedor. Fica a dica.

"skinny bitch"
Apesar da capa/título não condizerem com a edição original americana, o conteúdo "traduzido" para as marcas equivalentes no brasil foram um ótimo trabalho da tradução. Guia explicativo, embora com algumas adjetivações desnecessárias. Vale saber ser crítico na hora de ler/aplicar.

who watches the watchmen?
Graphic novel como pouco se vê por aí. Séria, engajada, quase real. Tipo de ficção que leva o leitor para dentro da obra. Retrato quase cru da condição humana. Através do diário de Rorschach temos a sensação vívida do nojo pela podridão humana. Afirmação dramática, mas não deixa de ser verdade. Leitura obrigatória para a apreciação da versão cinematográfica deste. E o melhor? História completa em apenas 12 revistas (nessa edição, reunidas). :)

