
Tudo está no lance: é uma “fórmula”, mas essa fórmula não corresponde a nenhum ritual; as situações em que digo eu-te-amo não podem ser classificadas: eu-te-amo é irreprimível e imprevisível. A que ordem linguística pertence pois esse ser bizarro, esse arremedo de linguagem, por demais fraseado para resultar da pulsão, por demais gritado para resultar da frase? Não é nem totalmente um enunciado (nenhuma mensagem aí está congelada, armazenada, mumificada, pronta para a dissecção), nem totalmente enunciação (o sujeito não se deixa intimidar pelo jogo dos lugares interlocutórios). Poderíamos denominá-lo proferição. Para a proferição, nenhum lugar científico: eu-te-amo não pertence nem a linguistica nem à semiologia. Sua instância (aquilo a partir de que podemos falá-lo) seria antes a Música. A semelhança do que acontece com o canto, na proferição do eu-te-amo, o desejo não é nem recalcado (como o enunciado), nem reconhecido (justamente onde não se esperava: como na enunciação), mas simplesmente: gozado. O gozo não se diz; mas ele fala e diz: eu-te-amo.
– BARTHES, Roland. Eu-te-amo. In: Fragmentos de um discurso amoroso. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 176
"Autonomia pessoal é produto de nossa imaginação, não a maneira como vivemos. Ainda assim, fomos jogados num tempo no qual tudo é provisório. Novas tecnologias alteram nossas vidas diariamente. As tradições do passado não podem ser resgatadas. Ao mesmo tempo, fazemos pouca idéia do que o futuro trará. Somos forçados a viver como se fossemos livres. O culto da escolha reflete o fato de termos que improvisar nossas vidas. Que não possamos fazer de outra maneira é uma marca de nossa não-liberdade. Escolher tornou-se um fetiche, mas a marca de um fetiche é não ser escolhido."
GRAY, John. O fetiche da escolha. In: Cachorros de palha. p. 126