A rua

A rua Ann Petry


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A rua





Publicado em 1946, A rua, de Ann Petry (1908-1997), tornou-se rapidamente o primeiro romance de uma autora negra a superar a marca de 1 milhão de exemplares vendidos nos Estados Unidos – e bateu o recorde com folga: vendeu 1,5 milhão de cópias. No cânone da literatura afro-americana, contudo, a autora nem sempre foi devidamente lembrada, apesar de ter alcançado um equilíbrio raro: uniu observação social implacável a características da melhor tradição do thriller, sendo comparada a clássicos do romance policial como Raymond Chandler e Patricia Highsmith.

Mais de sete décadas depois de sua primeira edição no Brasil, o romance de Ann Petry recebeu nova tradução, de Cecília Floresta, e vem acompanhado do posfácio da escritora americana Tayari Jones. A maior parte do enredo se desenvolve, efetivamente, em uma rua, a 116th Street, que tem papel-chave na vida da protagonista, Lutie Jones, que tenta sobreviver com um filho de 8 anos no tumultuado bairro nova-iorquino do Harlem. Nas palavras de Tayari Jones, “a 116th Street é a resoluta antagonista e representa a intersecção entre racismo, sexismo, pobreza e fragilidade humana”.

São esses os elementos que conferem ao romance um ponto de vista incomum mesmo entre os clássicos da produção literária afro-americana, em geral marcadamente masculinos. Lutie Jones é uma mulher que sai de seu meio familiar na região da Nova Inglaterra e deixa para trás o companheiro que não consegue ajudá-la a criar o filho. Ela tampouco pode contar com o pai beberrão e sua nova esposa.

Resta-lhe, de início, o trabalho de empregada doméstica na mansão de uma família rica que a trata com condescendência num ambiente abertamente racista. Lutie, no entanto, compartilha com seus patrões o credo no “sonho americano”, traduzido no elogio ao empreendedorismo formulado por Benjamin Franklin. Essa convicção a leva a abandonar o trabalho doméstico para estudar datilografia e conseguir empregos melhores. “Em outras palavras, Lutie é uma americana”, observa Tayari Jones. “Contudo, ela é uma americana negra, e esses termos nem sempre combinam.”

No prédio decadente e sujo onde Lutie encontra um apartamento ao alcance de sua pouca renda, Lutie convive com um zelador de presença ameaçadora e a dona de um bordel que a convida insistentemente a trabalhar para ela. O único personagem branco na 116th Street é o dono do prédio e também de um bar onde Lutie começa a se apresentar como cantora, estimulada pelo pianista e líder da banda da casa – um homem negro que sabe se virar na selva urbana.

Enquanto ganha a vida, Lutie tem de deixar seu filho sozinho nos horários em que ele não está na escola. A atmosfera construída por Petry traduz a iminência de perigos por toda parte de um cenário marcado por miséria e atitudes de salve-se-quem-puder. O leitor é envolvido numa multiplicidade de pontos de vista – embora a autora naturalmente dê ênfase à vida interior da protagonista, com frequência leva os leitores aos pensamentos e atitudes de quase todos os personagens, mesmo os mais sinistros.

Ficção / Literatura Estrangeira / Romance

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on 23/11/21


Marquei como lido devido a outra edição (em espanhol), mas a desta editora merece ser divulgada e já adquiri um exemplar. Esse livro, publicado em 1946, está em pré-venda, e é uma daquelas obras em que temas que hoje nos aparecem como novos já foram tratados há pelo menos duas gerações, como a dupla jornada feminina e a experiência da maternidade como mãe solteira. Dois ótimos motivos para lê-lo: pelos temas entrelaçados (é interseccionalidade que fala?) e pela qualidade da obra. O... leia mais

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Carlos.Eduardo
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Jenifer
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23/11/2021 18:46:40

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