As Pernas da Tia Corália

As Pernas da Tia Corália Antônio Prata


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As Pernas da Tia Corália





Se você olhasse atentamente para uma berinjela, roxa e carnuda, mas olhasse mesmo, como quem a visse pela primeira vez, talvez descobrisse formas e texturas insuspeitadas. Ou quem sabe aquelas pernas, as da tia Corália, mesmo existindo na sala apenas na sua imaginação ou na capa de um livro, provocassem súbitas e inexplicáveis sensações. O inusitado, o revelador, o olhar original. É o que Antonio Prata propõe neste livro, que reúne 17 contos escritos com a leveza e ousadia, que associam o culto ao deboche com uma peculiar aptidão para olhar tudo, incluindo aí pernas e berinjelas, sem pressa ou juízo de valor. E a cada página o leitor é surpreendido por uma interpretação atenta e única do cotidiano que muitas vezes passa despercebido e banal.


Opinião do Leitor:

Yasmin / Data: 5/8/2008
Conceito do leitor:
Recomendo!
Adorei o livro. São crônicas divertidas, com um humor inteligente. Li em uma sentada e recomendei pra todo mundo. Já conhecia um pouco do Antonio Prata pelas crônicas que ele publicava na Capricho, e com o livro tive certeza do seu talento.


Saiu na Imprensa:

Jornal do Brasil / Data: 5/4/2003
Um veterano de 25 anos
Antonio Prata mostra em seu quarto livro que é um dos nomes mais promissores de sua geração.

Flávio Carneiro

Quando Whoopy Goldberg anunciou: and the Oscar goes to João Arlindo, from Brasil! , João não se levantou para receber o prêmio, deixando chocados bilhões de espectadores em todo o mundo. Muitos séculos antes disso, um outro homem esquisito pedia insistentemente, e sem sucesso, um empréstimo para financiar sua nova invenção: uma coisa maluca chamada guarda-chuva. E num futuro indeterminado, as autoridades finalmente encontraram uma solução para a superpopulação dos presídios: os presos agora cumprem pena pedalando bicicletas ergométricas num longo túnel subterrâneo e assim geram energia para esteiras rolantes colocadas na superfície.

Essas e outras situações inusitadas compõem as histórias de As pernas da tia Corália, de Antonio Prata, que mal chegou aos 25 anos e publica seu quarto livro, com tiradas de veterano no trato com uma ficção marcada sobretudo pelo humor. Alguns dos bons contos do livro recortam da vida turbulenta das grandes metrópoles do século 21 matéria-prima para a elaboração de pequenas fábulas urbanas, como em Flexibility . Mas os caminhos são variados, e além deste o autor trilha também o da paródia, no divertidíssimo Pek & Pag , do fantástico, na maioria dos contos, ou do retrato irônico das neuroses contemporâneas, em Campeonatinho .

As narrativas de Antonio Prata se colocam sempre num território entre . Entre o conto e a crônica, entre o passado, o presente e o futuro, ou, ainda, entre a ficção e a realidade, o autor vai montando suas histórias e se mantendo como pode nesse espaço fronteiriço, feito um equilibrista na corda bamba. Habilidoso, sem dúvida, embora às vezes também vacile.

Dessa ficção colocada nos limites, resulta uma espécie de mundo paralelo, suspenso sobre o mundo, digamos, real. O insólito brota não de uma situação esdrúxula, completamente fora de nossa realidade, mas do próprio cotidiano, num jogo de espelhos que tem de um lado o fato e de outro a invenção. Exemplar, nesse sentido, é o conto Hipótese , em que o narrador pede uma maçã numa quitanda e, diante da surpresa da jovem vendedora - maçã?! -, cria toda uma biografia, possível e ao mesmo tempo delirante, da moça que supostamente nunca teria ouvido falar daquela fruta.

O inusitado surge, portanto, do próprio olhar do narrador. Se uma beringela é apenas uma hortaliça, como outra qualquer, pode assumir ares de obra de arte surrealista ou ovo fossilizado de pterodátilo se for vista assim pelo olhar diferenciado de quem enxerga não só a forma que o mundo tem mas também a que poderia ter.

Formular hipóteses, criar novos mundos possíveis, por mais absurdos que possam parecer à primeira vista, talvez seja a tarefa do escritor. E é exatamente o que faz Antonio Prata, por exemplo, em Reflexões sobre a planta ovo: um babaganuch existencial , ou em Marcas , que lembra Um sinal no espaço , de Italo Calvino.

É esse mesmo jogo das probabilidades que move o conto Bom senso , no qual se reproduz uma carta fictícia, escrita pelos pais de Santos Dumont, aconselhando-o (ou um pouco mais que isso) a desistir dessa bobagem de querer voar como os pássaros. Aqui, sobre o corpo da história oficial, o escritor lança o olhar oficioso, criando ou revelando formas até então insuspeitadas e fazendo emergir, assim, o ouro puro da ficção.

Vez ou outra, porém, o feitiço se volta contra o feiticeiro, e o conto acaba sendo apenas um arremedo do estilo que o próprio autor vai construindo no decorrer do livro. É o caso de E do lado de fora Malu chama para o café , Terça-feira de manhã , O fim e O rei de Roma . São contos que revelam a idéia, interessante, que os gerou, mas carecem de maior cuidado no principal, que é como dar forma literária a boas idéias. A impressão que se tem é a de que, nesses casos, o texto final saiu do forno antes da hora.

Pode ser que a irregularidade do livro se dê justamente pelo pouco tempo que lhe foi dedicado, como sugere o próprio Antonio Prata, travestido de personagem em CIA 2 , dando a entender que não levou mais que alguns meses para escrevê-lo. Informação, diga-se de passagem, que não diz a que veio e poderia muito bem não estar ali, evitando que o leitor - também ele senhor de suas hipóteses - entenda que houve, da parte do escritor, certo descaso com o produto oferecido a seu público.

O autor não pediu mas sua pouca idade é um convite a dar conselhos. Ele mesmo sabe, como se lê no ótimo Receitas , que não há fórmula mágica para se escrever um conto. De todo modo, é bom lembrar que se deve tomar cuidado com certos jogos de auto-referência, como o que se dá em CIA 2 , no qual Antonio Prata é seqüestrado para dar explicações à conhecida agência americana de espionagem sobre os segredos de estado que revela no conto anterior, CIA 1 .

É engraçado, mas tanto aqui quanto na orelha do livro (escrita pelo próprio autor e que parece se oferecer de bandeja à mordida do crítico) e numa ou noutra piada salpicada nas histórias, Prata poderia ter sido um pouco mais contido, de modo a não parecer que se considera a estrela que ainda não é. E que pode vir a ser, se apurar um pouco mais, sem pressa, sua escrita quase sempre leve, inteligente e inventiva.

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Resenhas para As Pernas da Tia Corália (3)

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on 12/7/09


Usando de um estilo irônico que remete a Luis Fernando Verissimo, Prata faz rir e refletir. Abrange temas que vão desde a religião e autoafirmação a história da aviação e televisão (rimas não propositais). O conto "Terça-feira de manhã" lembra "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago, porém, com uma sociedade destruída pela falta de cabelos, e não de visão, como a do deus português. Em "O rei de Roma", levanta-se a possibilidade de os ratos serem os verdadeiros donos do mundo. Em "P... leia mais

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