Beethoven

Beethoven Lewis Lockwood


Compartilhe


Beethoven


A Música e a Vida




Lewis Lockwood, um dos grandes especialistas em Beethoven da atualidade, conduz o leitor com leveza e poesia pela aventura criativa do maior compositor de todos os tempos. Combinando vida e obra de um artista singular, Lockwood narra a infância de Beethoven em Bonn, seu prodigioso talento ao piano, sua viagem para Viena em busca de Mozart, o início da surdez e a solidão cada vez maior; também analisa as principais obras do compositor.

Saiu na Imprensa:



O Globo / Data: 24/12/2004

Um ato de afirmação vital

Luiz Paulo Horta



O livro de Lewis Lockwood — Beethoven — A música e a vida — é um belo acréscimo para as nossas estantes de música. Nesse ponto, um scholar americano tem sorte. Vejam, por exemplo, o caso de Lockwood. Violoncelista, ele tocou Beethoven (sobretudo a música de câmara) durante a vida toda — o que é um bom ponto de partida para um trabalho analítico. Nos anos 50, quando ele estudava em Princeton, a universidade tinha um curso de graduação sobre a biografia de Beethoven dado por Elliot Forbes. Esse Forbes, na época, trabalhava numa nova edição (lançada em 1964) da monumental “Vida de Beethoven” escrita no século XIX pelo também americano Thayer.



Em 1977, conta Lockwood, ele retomou uma produtiva amizade com Maynard Solomon — autor de um brilhante trabalho sobre Beethoven (publicado no Brasil) que abriu perspectivas realmente novas sobre o assunto, aproveitando o talento e a prática psicanalítica de Solomon.



ozart e Beethoven, a obra de arte não é o espelho direto da vida



É claro que trabalhar nessas condições facilita muita coisa — mas também cria um padrão muito alto. Qual seria, nesse caso, a justificativa de uma nova “Vida de Beethoven”? Lockwood tem uma explicação engenhosa — a idéia de uma série de pintores retratando um mesmo assunto, mas acrescentando cada um a sua visão pessoal.



Em parte, é isso. Mas é mais que isso. O livro de Lockwood, por exemplo, é um excelente complemento ao de Solomon no sentido de que este último trabalhou muito mais o lado biográfico, enquanto que Lockwood inclui no livro uma parte bem ampla de análises musicais.



Isso poderá assustar o leitor ocasional; mas não a quem realmente goste de música. Claro que, lendo o livro, você pode “escorregar” tranquilamente por cima desta ou daquela análise — a narrativa não depende disso. Mas como não são análises áridas, de erudição, quem gosta de música também poderá tirar disso bastante prazer. Inclusive porque, como explica Lockwood, num caso como o de Beethoven, vida e obra estão intrincadamente relacionadas — uma ajudando a entender a outra.



Esta não é, claro, uma ligação direta. Não se pode ler na obra de um gênio musical a narrativa encadeada dos seus estados de espírito. Mozart, por exemplo, saltava do trágico para o luminoso com uma facilidade espantosa.



No caso de Beethoven, o processo não é menos complexo. Por exemplo, no trágico ano de 1802 — o do Testamento de Heiligenstadt — ele andou brincando com a idéia do suicídio: naquele momento, já não havia qualquer ilusão possível sobre o processo de surdez que o fora separando paulatinamente do mundo.



O Testamento é a carta que ele escreveu para os seus contemporâneos (e que acabou ficando na gaveta) onde o drama é exposto com uma sinceridade e uma intensidade extraordinárias. E nesse mesmo texto ele diz que escolheu viver, “agarrar o destino pela garganta”. Nessa mesma época, entretanto, ele estava terminando a Sinfonia n. 2, que é bastante amável; e a Sinfonia Heróica, que também coincide com esse período, parece ter mais a ver com a história de Napoleão (a quem ele pensara em dedicar a obra) do que com as vicissitudes pessoais do compositor (embora uma obra tão poderosa quanto a Heróica também possa ser lida como aquela afirmação da vida de que tratava o Testamento).



Temos então, em Beethoven, uma sucessão de planos, de profundidades, que vão conversando umas com as outras. O caso de Beethoven não é muito comum, porque, nele, o artista e o ser humano são igualmente interessantes (ao contrário de umas vidas de artista que parecem só se manter de pé por causa da obra).





Beethoven era um ser intensamente vital — na verdade, uma força da natureza (baixo, atarracado, também tinha enorme força física). Mas essa força vital foi submetida, desde o início, a pressões muito grandes.



Tudo isso está muito bem contado no livro. Por exemplo, como um certo mal-estar diante da vida precede o drama da surdez: liga-se aos episódios de uma infância infeliz, onde a mãe era um precioso ponto de referência. Mas ela morre, e Beethoven, o mais velho de uns poucos irmãos, fica com a virtual responsabilidade da casa, porque o pai era alcoólatra, violento.



A Nona Sinfonia serve de modelo para tudo o que vem depois



Já nesse tempo ele sofria. Mais tarde, continuaria sofrendo. Houve a surdez; houve a nunca bem resolvida relação com o “eterno feminino” (ele queria se casar, mas seus projetos nunca davam certo). Houve o drama do sobrinho Karl, em quem ele (o artista solitário) concentrou suas afeições, depois da morte de seu irmão, pai do menino. Mas essa também foi uma relação dolorida, muito por causa da inabilidade de Beethoven, de seu lado autoritário.



Numa criatura menor, tudo isso fecharia o horizonte num contexto sombrio. Mas ele era Beethoven. Disse Margareth Fuller, notável personagem do romantismo americano, amiga de Emerson: “a mente é grande se ela pode conter Beethoven”. Este é o desafio que Beethoven lança a cada um de nós — e por isso ele escreveu a obra “libertária” que é a Nona Sinfonia, e que fecha com a “Ode à Alegria” de Schiller. A essa Nona, Lockwood dedica longa e amorosa análise. Ela é obra da fase final de Beethoven; grande na duração, mas também na substância. Compositores como Brahms, Mahler, Bruckner, partem da Nona quando pensam em fazer sinfonias. E a Nona começa com um movimento de dimensões cósmicas, em que parecem oscilar os próprios fundamentos do universo.



Seria o Beethoven “filósofo”, o revolucionário da música, abrindo novas fronteiras. Mas vem a seguir o Scherzo, e, nesse extraordinário movimento, é o universo inteiro que dança, ao sopro de uma inspiração orgiástica. Lembra o Beethoven que nunca deixou de andar solto pela natureza. É a euforia de quem está em contato com o mistério criador. É uma lição de vida desse Beethoven “final”, que enxergava uma espécie de alvorada eterna uma vez terminada a “noite escura da alma”.





Veja mais

Sobre o autor:



LOCKWOOD, LEWIS

Lewis Lockwood é pesquisador e professor de música na Harvard University, publicou vários artigos e ensaios importantes sobre a obra do compositor Beethoven. Alguns de seus textos foram reunidos no livro Beethoven: Studies in the Creative Process (1992) e editou, com Mark Kroll, o livro Beethoven Violin Sonatas: History, Criticism, Performance (2004). Com Beethoven: a música e a vida, ele foi finalista do Prêmio Pulitzer, em 2003.






Edições (1)

ver mais
Beethoven

Similares

(5) ver mais
Bernstein
Vida de Beethoven
Beethoven: Angústia e Triunfo
A Nona Sinfonia

Resenhas para Beethoven (2)

ver mais
Tour de Force
on 15/1/09


Um verdadeiro "tour de force" para quem não é músico. A obra se atém, como o próprio subtítulo já indica, mais à música do que à vida de Beethoven, mas consegue interligar os dois aspectos. A dificuldade está na extensa análise musical de cada obra, com um texto bem técnico, que talvez torne a leitura cansativa. Essencial para quem conhece a fundo a bora de Beethoven. Passa a servir de guia para quando se escutar qualquer obra do músico, pois mesmo sendo técnico, ao lado da música, per... leia mais

Estatísticas

Desejam27
Trocam1
Avaliações 4.2 / 33
5
ranking 39
39%
4
ranking 42
42%
3
ranking 18
18%
2
ranking 0
0%
1
ranking 0
0%

62%

38%

alexandre
cadastrou em:
09/01/2009 11:32:32