Os 16 contos reunidos em “Histórias de encanto e espanto”, livro do escritor baiano Cyro de Mattos (nascido em 1939 em Itabuna), recentemente editado pela Editora Penalux, traduzem com perfeição a qualidade e versatilidade de um autor que há décadas trilha a vereda literária. Com efeito, o senhor Cyro de Mattos em vias de completar 81 anos tem em seu currículo a edição de trinta e três livros sendo oito no exterior: Portugal, Itália, França e Alemanha, além de contos e poemas inclusos em antologias importantes em vários outros idiomas. É muito.
Mas para além de tantos e tantos livros publicados, ficamos a nos perguntar o que pensa um homem assim, que dedica toda uma vida à essa profissão, hobby, loucura ou que nome tenha? Colhemos pistas em um depoimento (1) do próprio autor e que reproduzimos nesses dias em que pululam escritores e “candidatos a” certíssimos de que glória, fama e fortuna andam de mãos dadas com o fazer literário. O buraco é outro, e é muito mais embaixo do que se acredita. Com a palavra o autor: “Precisamos da literatura como a atmosfera. Dela nos servimos para inaugurar novos sentidos da vida. Sem querer polemizar, penso que a literatura é uma profissão da qual não pode fugir quem a abraçou como fundamento da vida. É condição, ato ou efeito de professar, perseguir, proferir crenças e valores. Declarar publicamente ao outro que não vivemos sozinhos, navegamos em águas precárias em que as perplexidades avultam”.
E é justamente no curso dessa navegação, e em meio às imensas perplexidades da vida, que lemos os contos reunidos em “Histórias de encanto e espanto”. Cumpre acrescentar - e sempre que me deparo com uma obra que traz à tona certas características regionais – insisto em repetir porque perduram equívocos imensos quando falamos em tendências, escolas e essa parafernália conceitual com que cercamos a literatura. Todos os contos dessa obra são ambientados num território de terras do sul da Bahia, também conhecido com as terras do Japará.
Na sua prosa colorida transparece a vida e, nela, as relações sociais mais profundas, até mesmo com as âncoras históricas. O que interessa ao ficcionista é, assim, as criaturas mais do que a paisagem, ainda que permaneça fiel ao que é peculiar ao meio físico. Na forma concisa da contística desse autor fica patente a preocupação com o sentido social que valoriza o homem em vez de fazê-lo um títere ante o meio. Dentro do regional mais genuíno, o sentido universal denuncia a presença da qualidade literária quando esta almeja bem mais do que simples virtuosismo formal. São textos que acabam por configurar um libelo de intenções redentoras.
E assim, assistimos por vezes em cenário de mata fechada, hostil e impenetrável que vai dando lugar à roças de cacau e/ou pastos, por vezes em cidades inchadas pela ocupação desordenada, atuações em um tempo recuado ou hodierno, de uma gama de personagens que encarnam os conhecidos coronéis sempre sedentos pela posse da terra, a gente pobre que sonha um dia possuir vastidões de terras sob o seu domínio, os miseráveis pobres diabos que um sistema social pautado na escravidão sempre gerou (e continua a gerar), jagunços, pretos, padres, menores abandonados ao léu da sorte, ciganos, putas e o rebotalho dos povos autóctones. Aí nossas origens. Este o nosso legado ancestral que engendrou personagens com suas misérias e grandezas, virtudes e vícios, quedas e tropeços na busca da afirmação de suas identidades e de que são exemplos pungentes contos como “Os negros”, “Uma índia chamada Kinani” e “Narrativa de Beda Cigano”.
Falamos acima em versatilidade porque há também na obra, textos nos quais a narração deixa de ser um fato externo, colhido por intermediação do contista, para ser experiência pessoal com forte conteúdo memorialístico, na qual narrador e tema se fundem – não se sabendo qual deles, tema ou narrador, predomina. É o caso do belíssimo “Pelas águas”, que narra a morte por afogamento de um menino em um rio, e como esta repercute ao longo do tempo, na vida do seu coleguinha de aventuras. Temos aí uma verdade artística plasmada pela personalidade que tanto se deixa influir por fatores extrínsecos, quanto alterna a interpretação da condição humana ante a cruel realidade da morte. Em outras narrativas percebemos ainda um fundo saudosista quando aparece contraposta à dura realidade atual de devastação ambiental, um passado onde a natureza explodia em vida. Há algo de dramático nessas memórias a nos mostrar no que vamos transformando o planeta, de que é exemplo o conto “Restos da mata”
O conto por se tornar um documento social e psicológico, reflete neste autor, um regionalismo que deixa de enfocar enfaticamente os costumes, as falas, as paisagens. Um regionalismo que, por suas amplas inquirições existenciais, transborda do espaço ficcional sugerido pela geografia em que se localiza. O autor conhece de perto os cenários e os tipos que descreve, e na firmeza de estilo que décadas de labor literário lhe deram, sabe trazê-los com vida às páginas de seus contos, embebidos ainda em tudo que os moldou. Recolhe as suas histórias na tradição oral também, mas sem se tornar um mero coletor de motivos folclóricos. Sabe conservar o sentido histórico que dá relevo às mudanças – uma espécie de terceira dimensão que destaca os traços da realidade objetiva e que fornece o enquadramento social das personagens e dos cenários.
Livro: “Histórias de encanto e espanto”, Contos de Cyro de Mattos – Editora Penalux, Guaratinguetá - São Paulo, 2019, 246 p. - ISBN: 978-85-5833-584-3
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(1) Artigo de Cyro de Mattos, intitulado “Literatura e crença” e publicado in: Cyro de Mattos : estudos literários / Reheniglei Rehem organizadora. - Ilhéus, BA : Editus, 2017 - 173 p. : il. ; anexos . - (Coleção Cadernos de aula ; n. 12)