O extrativismo caracterizou, historicamente, a maneira pela qual os países latino americanos se inseriram na periferia do capitalismo global, como eternos provedores de commodities. Entre os anos 2000 e 2015, com o superciclo dessas commodities no mercado Internacional, os governos progressistas da AL enxergaram no neoextrativismo a fonte geradora de recursos para promoverem as reformas sociais de seus programas políticos e, com isso, promoverem o desenvolvimento e reduzirem a distância em relação aos países do norte do globo.
Se, por um lado, o modelo neoextrativista gerou os superávits que possibilitaram a esses governos reduzir a pobreza por meio de programas sociais e melhorar a situação das camadas mais baixas pela valorização do salário e inserção ao mundo do consumo, por outro, ele manteve a AL na periferia do capitalismo, com a reprimarização das economias, ao mesmo tempo em que produziu um gigantesco passivo socioambiental. Basta olhar para o Brasil para confirmarmos o diagnóstico: altíssima concentração de terras e renda, violação aos direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais, desindustrialização precoce, desmatamento da Amazônia e do Cerrado, assassinato de lideranças comunitárias e ativistas ambientais, crimes ambientais de Mariana e Brumadinho, etc.
Evidentemente, com a gradativa redução dos preços das commodities após a crise de 2008, o que intensificou a exploração da natureza para compensar as perdas, a AL se afundou em uma grave crise econômica, social e ambiental.
Neste contexto, surgiram vários movimentos político-ambientais que têm pautado a resistência ao modelo neoextrativista, como os ecoterritoriais, os indígenas e os ecofeministas. Esses movimentos são pautados em uma nova interpretação da nossa relação com a natureza, a partir de perspectivas como o bem viver, os direitos da natureza, a ética do cuidado, o decrescimento, o bem comum, entre outros. Eles propõem alternativas ao modelo de desenvolvimento hegemônico, de baixo pra cima, que passam pela valorização das economias locais e regionais, pela agroecologia, pela despatriarcalização, etc.
É disso que trata este livro excelente, escrito pela socióloga argentina Maristella Svampa. Convido a todos à leitura, pela urgência da necessidade de buscarmos um novo modelo de desenvolvimento, que seja fundado na pauta socioambiental.