Em um comentário para as orelhas de “Ensaio sobre a jukebox”, o editor Angel Bojadsen diz que Peter Handke, neste livro “foge completamente de qualquer cronologia linear, da narrativa convencional” e que “compõe uma metafísica da escrita”. Tais comentários me assombraram de pronto, pois dava a entender que seria uma leitura mais técnica e com um senso estético apuradíssimo, sobressaindo-se diante de uma possível história, essa em segundo plano. Algo que me remeteu, em um primeiro momento à “Tarântula”, de Bob Dylan, o que não, é sinceramente, um elogio.
Foi com alívio que eu comecei, então, a leitura de “Ensaio sobre a jukebox”, pois nada do que o editor havia dito se fazia presente ali; talvez até estivesse de fato, mas de maneira tão simples, acertada e eficiente, que virar as páginas se tornou algo muito prazeroso e feliz.
Este ensaio sobre a jukebox fala exatamente sobre isso: um escritor decide falar sobre este objeto, afim de esclarecer a importância de uma jukebox na sua vida enquanto jovem, assim como momentos cruciais em sua vida que ela estivera, de alguma forma, inserida no momento.
O grande cerne da questão, o leitor vai reconhecer ao longo das páginas, não é falar sobre a jukebox, mas sim o processo de escrita que esse escritor impõe a si mesmo a cada início de livro, a cada página escrita. O próprio escritor informa que falar sobre jukebox é algo secundário, afinal, o que é uma jukebox? Por que ela pode ser algo importante para ele, e ao mesmo tempo, indiferente para alguém? Qual assunto seria de interesse geral?
Vemos então o escritor - e eu digo escritor porque em nenhum momento é dito que esse escritor é o próprio Handke, afinal, este livro não é classificado como biografia ou não-ficção, e sim como uma ficção – se deslocando de sua casa e indo para a Espanha, em um local totalmente pacato, à procura de inspiração para tal ensaio. Começa então uma odisseia sobre a escrita e todos os seus detalhes, que vão desde o melhor lugar para se escrever, se em um hotel, um motel, uma cabana compartilhada; até a posição da mesa no ambiente importa, se pegará mais ou menos sol ao longo dia, se ficará muito escuro a partir de determinado horário.
Enfim, é um prato de intimidade para o leitor. Diversos são os autores que, em entrevistas, informam suas manias, processos beirando os rituais religiosos que precisam fazer para que tenham um dia promissor e produtivo de escrita; Peter Handke nos apresenta isso de maneira sincera e elegante, ante a justificativa de uma persona escrever sobre um objeto de afetividade pessoal, mas que, ironicamente, é ignorado por todo.
Apresentado como enigmático e até mesmo uma leitura difícil, “Ensaio sobre a jukebox” é uma leitura deliciosa sobre os tortuosos processos de escrita, narrando em detalhes todas as dificuldades de um escritor até que o livro chegue até nós, impresso e pronto para ser lido. Se Handke havia me frustrado com seu “Don Juan (narrado por ele mesmo)”, me conquistou com este “Ensaio”.
Este livro faz parte do projeto "Lendo Nobel". Mais em: