Esse livro pede uma edição em português
Annie Ernaux não descreve apenas sobre a simplicidade do ato de fazer compras no hipermercado. Annie Ernaux rasga o cartão do hipermercado. Antes disso ela justifica: ''Somos uma comunidade de desejos, não de ações.'' Não nos preocupamos em pegar filas quilométricas, não olhamos nas caras das pessoas, nos tornamos pessoas frias e individualistas que aceitam bovinamente o método de compras automático de escaneamento de mercadorias, aceita o desemprego de caixeiras de hipermercado, aceita a segregação social dentro dos hipermercados (áreas de liquidação e produtos perto do vencimento), aceita a tolerância liberal aos feriados multiculturais em nome do mercado, da venda, das compras, mas jamais da cultura em si. É óbvio. O hipermercado que Ernaux frequenta é de uma rede que se instalou no Brasil e é frequentada pela classe média alta que pede privilégios, distinções, fidelidade, boas marcas, mas que na França atua também entre as classe mais baixas e imigrantes. Por isso promove festas multiculturais árabes, africanas, vende produtos kosher, halal. A autora mais uma vez é cirúrgica em expor seu ponto de vista (o microcosmo) fazendo uma crítica social das compras em super ou hipermercados. Na França, como no Brasil e em outros países, a cultura patriarcal e machista admite que mulheres façam as compras, quando se vê um casal eles estão comprando itens de festa, bebidas, raramente se vê homens fazendo as compras e quando se vê estão em seções específicas como de bebidas, tecnologia... A seção de livros do hipermercado vende revistas e jornais (sempre atrasados), os livros best seller de qualidade duvidosa ou títulos melodramáticos. Se o cliente entra com um jornal que comprou em banca tem que colocar em um saco plástico pois se deixa no carrinho tem que pagar. O sistema de vigilância dos hipermercados logo vai se confundir ou ultrapassar a atenção e cuidado que são dispensados ao serviço de fronteiras. Se é que já não ultrapassou tecnologicamente. ''Como toda vez que paro de registrar o presente, tenho a impressão de me afastar do movimento do mundo, de renunciar não só para dizer meu tempo, mas para vê-lo. Porque ver para escrever é ver diferente. É distinguir objetos, indivíduos, mecanismos e conferir-lhes o valor da existência. No entanto, nunca deixei de sentir a atratividade deste lugar e da vida coletiva, sutil e específica que ali acontece. Essa vida pode desaparecer em breve com a proliferação de sistemas de negócios individualistas, como pedidos pela internet e drive-thru, que dizem estar ganhando espaço nas classes média e alta a cada dia. Assim, as crianças tornadas adultas de hoje podem se lembrar com carinho das compras de sábado no Hyper U, assim como os de mais de cinquenta anos se lembram das mercearias fedorentas de ontem, onde bebiam "leite" em uma jarra de metal.


