Troca de papéis
De início, os papéis estão bem definidos: um é o patrão, aristocrático; outro é o criado, pertencente a uma classe inferior, subalterna. Ao longo da história, o autor do livro vai explorando a sutileza dessa relação, em que um domina e outro é dominado. Mas quem domina mesmo? Quem, afinal de contas, é o dominado? O criado, aos poucos, vai penetrando no espírito e na personalidade do patrão, percebendo-lhe os pontos fracos, sendo que a preguiça, a lassidão e a comodidade de ter tudo à mão, sem fazer esforço, por parte do jovem aristocrata, vai criando uma chance de seu servidor ir se apropriando da situação, minando a capacidade de comando do patrão, até que se atinge um clímax em que ocorre uma inversão de papéis: O criado está com o patrão em seu poder, de tal forma que este já não vive sem aquele e se submete, se anula como ser autônomo. É uma novela repleta de sutilezas psicológicas nesse tipo de relacionamento, denunciando as diferenças entre classes sociais e o fascínio de um ser humano dominar outro, explorando-lhe as fraquezas e tornando-o completa e inexoravelmente dependente. É o triunfo do servo e a derrota do senhor. O livro foi filmado, na década de sessenta, numa direção magistral de Joseph Losey e numa interpretação também magistral de Dick Bogarde (o criado), com uma brilhante atuação de James Fox (o jovem aristocrata), tendo Sara Miles compondo o triângulo dessa instigante, bem urdida e inteligente novela de Robin Maugham, sobrinho do famoso escritor inglês Somerset Maugham. Já tinha lido o livro quando assisti ao filme, numa sessão chamada “Cinema de Arte” e numa época em que havia salas de cinemas espalhadas em vários pontos da cidade do Recife.

