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    A casa das aranhas (Trilogia do corpo #3) -

    Marcia Barbieri

    Reformatório
    2019
    212 páginas
    7h 4m
    ISBN-13: 9788566887631
    Português Brasileiro
    4
    9 avaliações
    Leram13Lendo0Querem9Relendo0Abandonos0Resenhas2
    Favoritos1Desejados9Avaliaram9

    Último livro da Trilogia do Corpo, A Casa das Aranhas é onde o fluxo de consciência ganha um protagonismo intenso. O corpo em A Puta, O Enterro do Lobo Branco e agora em A Casa das Aranhas aprecia os cinco devires definidos por Deleuze e Guattari, sendo eles o devir-mulher, o devir-minoritário, o devir-revolucionário, o devir-animal e o devir-imperceptível, se revezando entre os títulos, uns mais categóricos que outros. Nos três volumes, o corpo pode estar em constrição por negligência ou caracterizado por metáforas animalescas, mas também pode carregar a força da resistência da mulher, que é revolucionária… Assim como pode ser um corpo ausente. Com um currículo que passa pela Filosofia, a autora trabalha esses aspectos de forma poderosa. O corpo nessa trilogia goza, desaparece, dá à luz, se vende, agoniza, arde, machuca, descansa, se fortalece, finda. Ele é cheio de possibilidades. No entanto, quando ele perde o fio da existência, ele é só ossos? Só unhas? Só vísceras? E Deus? Será que Deus tem corpo? Um pouco de Clarice, um pouco de Nin, um pouco de Woolf e um pouco de Hilst. Márcia traz em sua escrita algum tanto de cada uma dessas mulheres, e de tantas outras. A mulher está sempre no centro da escrita da autora, sempre como uma agente vital para uma revolução.

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    Clayton de Souza02/07/2021Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Reflexões após a leitura de A casa das aranhas, de Márcia Barbieri

    Dá desfecho à chamada Trilogia do corpo, iniciada em 2014 e composta das obras A puta (2014) e O enterro do lobo branco (2017), A casa das aranhas (2019), de Márcia Barbieri, obra de difícil classificação, distante dos moldes tradicionais do romance. O escopo da obra, em seu apego quase pasoliniano pela carne, pelo sexo, parece ser o de analisar o ser humano contemporâneo, em plena modernidade líquida, em suas neuras, suas taras e vícios imersos numa degradação moral que não conhece lenitivos. Nada nesse mundo parece atenuar o desajuste do homem com a realidade, seja o outro (concebido no máximo como um objeto de prazer, no mais, e ainda mera distração ao “tédio da existência”, seja até mesmo a arte, a literatura não promovendo qualquer iluminação entusiástica nas asas de um belo estilo. Tampouco o alento, dentro desse universo ficcional, parece residir na metafísica, na crença espiritual, por mais que um dos personagens busque recorrentemente alcançar o Nirvana à base de constante meditação, sendo amiúde interrompido pelos outros, não se despojando, além disso de suas considerações preconceituosas a respeito de classes sociais e suas diferenças: “Tudo bem, Estevão, se acha que isso pode ajudar, faça como preferir, não estou com cabeça para pensar em mesquinhas. Estou em meio a algo muito maior, você sente a força se expandindo ao redor do meu corpo (...) Claro que não sente, como poderia? Você ainda é um ser involuído, tudo bem” Enfim, esse olhar para o individual, para o íntimo, parece tomar o primeiro plano na obra, tornando-se sua quinta-essência. Não à toa, os capítulos não se subordinam à condução de um único narrador. Pelo contrário, cada qual assume o perspectivismo de um determinado personagem (o marido, a esposa – donos da pensão que é o palco da história - o criado Estevão, a “Mudinha” etc), e assume um formato análogo ao solilóquio, momento em que tais partícepes do drama não apenas impõem a plena manifestação de seu interior como também trazem à tona sua participação do drama de suas existências. Contudo, em termos formais, há menos dramaticidade que introspecção na obra. Não há um grande acontecimento em torno do qual A casa das aranhas se desenvolve: os abusos sexuais, os de diferença de classe, as taras, a amargura existencial etc., nenhum desses elementos pode reivindicar o protagonismo na história, este vindo a ser o próprio universo íntimo dos personagens e suas considerações enviesadas quantos aos fatos supracitados. Inclusive, formalmente, a própria obra não favoreceria uma dramaticidade romanesca linear: a obra apresenta quatro sugestões de leitura, com disposições distintas de capítulo, numa espécie de estrutura paradigmática onde as partes necessitam de relativo autonomia. A autora aqui paga tributo ao Cortázar de O jogo da amarelinha. Ainda no campo formal, mas também no conteúdo, antevê-se ecos do Dostoiévski de Memórias do subterrâneo (ou Notas do subsolo, a depender da tradução); até certo ponto, mesmo de Um copo de cólera, do nosso Raduan Nassar, nas relações ambíguas entre sexo e embate ideológico entre os parceiros. Sobretudo o sexo é uma obsessão, uma espécie de droga alienante ao ser que não vislumbra qualquer sentido na existência. Os homens então, reduzidos a animais, respondem com prontidão aos apelos físicos, ao passo que os animais (no caso, um cão) se antropomorfizam, no delírio disparatado do capítulo “Um homem sem cabeça”, sem que no entanto se distinga onde se demarcam as diferenças. Nos tempos atuais, nada mais atual.

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    • 4 estrelas22%
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    Marcia Barbieri

    Marcia Barbieri é paulista, formada em Port./Francês pela Unesp, pós-graduanda em Prática de Criação Literária, org. Nelson de Oliveira. Tem textos publicados nas revistas literárias Coyote, Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas e Meio Tom. Lançou em 2009 o livro de contos Anéis de Saturno pelo Clube de Autores. Lançou em junho do mesmo ano um livro de contos intitulado As mãos mirradas de Deus pela editora Multifoco. É colunista da revista literária eletrônica Sinestesia Cultural. Foi colunista da revista eletrônica Caos e Letras. Edita o blog A Vida Não Vale Um Conto. Mora em São Paulo. O romance inédito Mosaico de Rancores será lançado em 2013 na Alemanha pela editora Clandestino Publikationen. Atualmente é colunista da Revista literária O Bule. E Edita o blog: www.avidanaovaleumconto.blogspot.com. E-mail: marcia_barbieri@hotmail.com

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    São Paulo, Brasil

    Marcia Barbieri