LIVRO dá voz a mulheres silenciadas há muitos anos. Mulheres que fazem parte da história brasileira, mas cujas trajetórias permanecem tão pouco conhecidas quanto o período no qual seus caminhos, embora distintos, se cruzam: a ditadura civil-militar. Se ainda resta muito a esclarecer sobre as violências cometidas pelo Estado brasileiro durante o regime militar, muito mais falta revelar sobre as mulheres que estavam ao lado daqueles que tombaram. São mães, irmãs e esposas de pessoas que se posicionaram contra o autoritarismo de diferentes maneiras e que por isso foram perseguidas, torturadas e assassinadas. Mulheres que não se calaram, nem durante a ditadura nem em tempos ditos democráticos. Suas perguntas ecoam até hoje, apesar dos avanços conquistados ao longo de décadas. Muitas não sabem sequer para onde foram levados seus entes queridos, nem como, nem quando, nem por quem. Desde então, têm desvelado a verdade, disseminado memórias e lutado por justiça. Aquela sem a qual não há reconciliação possível, nem chances de um futuro sem desmandos. Aquela cuja ausência é uma sentença de impunidade permanente. É chegada a hora de conhecê-las. Saber de sua história e de sua resistência cotidiana. Acessar a força por trás dos pequenos grandes gestos. A resistência dos tribunais e das cortes e também a resistência silenciosa, que se faz nos detalhes. E de vê-las através das lentes de outras mulheres, num diálogo entre gerações tão potente quanto delicado. Este livro não é apenas uma homenagem a elas, nem somente uma reparação devida às famílias. Tampouco é só para os que viveram esses anos difíceis. Ao preencher um vazio inconteste, esta obra se destina a todos nós que merecemos e devemos conhecer nosso passado, a fim de identificar as repetições que conduzem a um desfecho anunciado. Para todos os que acreditam num mundo menos desigual e com justiça social. Se nos emocionamos com os fatos contidos nessas linhas, é para mobilizar nossas águas e reencontrar nelas a força de vida. É para construir os pilares de uma democracia real, de todos, para todos. É para engrossar o coro da luta delas, que é a nossa. Se elas não desistiram, como poderíamos nós, afinal?
Heroínas Desta História - Mulheres em Busca de Justiça por Familiares Mortos Pela Ditadura
Carla Borges, Tatiana Merlino
A ditadura militar no Brasil durou 21 anos, de 1º de abril de 1964 até 15 de março de 1985. Iniciou-se com o golpe militar que derrubou o governo democraticamente eleito do então presidente João Goulart. Tinha caráter autoritário e nacionalista e teve no comando Castelo Branco (1964-1967), Costa e Silva (1967-1969), Garrastazu Médici (1969-1974), Ernesto Geisel (1974-1979) e João Figueiredo (1979-1985). Em 13 de dezembro de 1968 foi emitido o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que já em seu preâmbulo se contradizia, afirmando que o golpe de 1964 (chamado no texto de Revolução Brasileira), visava assegurar autêntica ordem democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade da pessoa humana, no combate à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso povo ( ). Liberdade de quem? Dignidade humana de quem? Nas 15 histórias deste livro - algumas muito conhecidas, outras não - 15 mulheres contam como perderam, durante estes nefastos anos, pessoas que amavam, algumas delas torturadas e mortas, outras desaparecidas. Algumas destas mulheres morreram sem saber realmente o que aconteceu. É uma leitura muito, muito difícil, quando se tem o mínimo de humanidade e empatia. Quando o garoto entrou na sala da direção da escola, percebeu a tragédia. A diretora, uma pessoa conservadora, estava com os olhos marejados. O padre, que trazia a notícia, também. De início, ele falou em acidente. Luciana, então com 11 anos, perguntou se o pai estava bem. Santinho respondeu: O pai da gente morreu. O choro desabou em todos. - pág. 315. Porém, há os que não têm. Tinha uma freira que dizia: Por que não mataram antes? Era comunista, durou muito. - pág. 316. Para além do assassinato, que já é dificílimo de aceitar, há a impunidade, que mata pouco a pouco quem fica. E quem fica ainda escuta de alguns que foi bom, que foi bem feito, que se torturou pouco, que se não matou, devia ter matado. E há quem peça a volta da ditadura, o fechamento do congresso, a punição e o cerceamento da liberdade. Dos outros, claro. Afinal, nada acontece com quem anda na linha. Só morrer atropelado pelo trem. Primeiro levaram os negros Bertolt Brecht (1898-1956)⨠Primeiro levaram os negros Mas não me importei com isso Eu não era negro Em seguida levaram alguns operários Mas não me importei com isso Eu também não era operário Depois prenderam os miseráveis Mas não me importei com isso Porque eu não sou miserável Depois agarraram uns desempregados Mas como tenho meu emprego Também não me importei Agora estão me levando Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém Ninguém se importa comigo. O projeto gráfico desta edição é muito bom, fonte e espaçamento excelentes. Os destaques coloridos dão clareza ao texto. Todas as histórias são acompanhadas de fotos.
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