Palavras sujas - Coleção Goiânia em Prosa e Verso

    Tatyana Lima

    Editora da UCG / Editora Kelps
    2009
    64 páginas
    2h 8m
    ISBN-13: 9788577667895
    Português Brasileiro

    A ANTI-POESIA DE TATYANA LIMA A poesia pós-moderna não quer mais emocionar. Quer, isto sim, sacudir as palavras, extraindo delas sons rascantes, muitas vezes inarticulados. Assovios e dissonâncias são igualmente bem-vindos. Seus versos são blindados contra qualquer tipo de sentimento que não seja a estranheza. É uma poesia com dispositivo de auto-destruição. Não se emocione, por favor, sugere ela. Leia-me e siga em frente. Se você olhar para trás, vai se transformar numa estátua de sal. Os versos de Tatyana Lima são, neste sentido, anti-poesia. Eles emocionam! Não que seja essa sua intenção: é antes seu destino. Cada poema é um espelho partido onde se reflete o leitor. E este não tem outra saída exceto sentir. Nenhum tapume erudito se interpõe entre leitor e emoção. É um discurso de alta voltagem literária, cheio de fios desencapados. A maioria dos versos são brancos; os adjetivos, rasos e precisos. Algumas vezes, Tatyana discute o próprio fazer poético. Mostra a si mesma e a nós os tijolos e cimento de sua construção literária: 'as palavras me saem como roupas dobradas de uma gaveta no armário vêm lavadas e passadas prontas para serem usadas algumas são apropriadas e combinam com o que espero dizer outras, não me servem é preciso devolver. umas já estão manchadas, velhs,puídas de tão usadas de tão moídas. mas são confortáveis uso-as distraídas. outras me apertam, incomodam mas são bonitas estas uso para serem ditas de outra forma mofam novas pobres palavras interditas. acabo usando tantas e elas nunca se acabam. gavetinha bendita que me dá o verbo, o sentimento e a palavra.' A poesia de Tatyana dispensa atavios da moda. É emocionante e universal. Sua arquitetura tem a enganosa simplicidade de uma teia de aranha. Sem pressa, vai urdindo em torno de nós uma armadilha perfeita. Em pouco tempo, estamos presos. Há romances, intrigas, assombros, introspecção, flagelos. Ler Tatyana Lima é jogar-se inteiro numa aventura sensorial e encantatória. Vivemos seus medos e perdas como se fossem nossos. Percebe-se também uma funda tristeza. A maioria dos poemas exala angústia. Ela tem um jeito úncio de "chorar por dentro". Tem um orgulho ancestral que a impede de exibir suas dores em toda a sua plenitude. O poema "Herança" é um bom exemplo disso. Fica difícil ler Tatyana Lima sem lembrar-se de Emily Dickinson e Yves Bonnefoy (que ela nunca leu). São mamíferos da mesma espécie num mundo ainda regido por dinossauros. Não há mais nada a dizer. Mergulhe em seu livro. Carlos Jordão Publicitário e escritor, autor de "O alfabeto do arroz", primeiro volume de uma trilogia.

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    Ademar de Queiroz19/04/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    De alma lavada

    "Palavras sujas" é uma busca por coisas perdidas na memória, nas estradas, no tempo, no peito: sonhos, alegria, filmes, ideais, amigos, livros, canções, amores, juventude... Se os poemas carregam um quê de angústia nas entrelinhas, relevam - em todos os versos - uma pessoa inquieta e determinada a encher de vida a próxima página, o dia seguinte, o encontro futuro, os sentimentos por vir. E faz tudo isso conduzindo os leitores, suave e delicadamente, por caminhos de penumbra, medos e descobertas, ora compartilhando sua própria caminhada, ora fortalecendo-se com a companhia deles para dar mais um passo rumo à verdade que dói e liberta. E ainda tem um detalhe: ao escrever sempre com minúsculas, Tatyana o faz como quem não vê nada de especial nas suas dores, sem querer ressaltar/realçar suas tristezas, colocando-as na vala comum dos sentimentos de todos os mortais, identificando-os como universais, singelos, corriqueiros mesmo, de domínio comum. PS: Abaixo, dois poemas de "Palavras sujas" mute às vezes, é preciso falar apenas pra esvaziar a mente cheia de dúvidas e mistéros. é preciso falar em código, para que o óbvio não transpareça aos cínicos. é preciso falar para aceitar o que é negado - em vão. falar para que a força do verbo recrie o mundo. falo menos do que calo, falo menos do que vejo, falo apesar. e quando cessa a fala, o silêncio me devolve o eco. no avesso das palavras é que me apego, que me pacifico. falo. mas é o silêncio que me faz compreender. silenciosa ouço os outros falarem. falo também, rio também, mas nada digo. alguns acham que escondo mistérios, e me colocam um interesse que certamente não tenho, não mais que qualquer um. sou uma pessoa silenciosa, dessas que ninguém vê ao primeiro olhar, às vezes, nem ao segundo. estou sempre na terceira margem do rio: a do fundo.

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