Dias ensolarados no Paraizo - Memórias

    Brazilia Oliveira de Lacerda

    Chão Editora
    2020
    104 páginas
    3h 28m
    ISBN-13: 9786599012211
    Português Brasileiro

    Brazilia Oliveira de Lacerda nasceu um ano antes da abolição da escravatura. Bisneta de visconde (do Rio Claro), neta de barão (de Arary) e nora de conde (do Pinhal), foi não apenas uma legítima representante da elite agrária paulista, mas também, revela-se agora, uma de suas raras cronistas. Quando morreu, em 1966, aos 79 anos, deixou na gaveta diversas recordações de vida, preservadas em pequenos cadernos pautados, preenchidos de próprio punho. Os manuscritos presentes nesta edição cobrem treze desses anos. O primeiro caderno tem como ponto de partida a chegada da família à fazenda Paraizo, em São Carlos do Pinhal, e retraça as experiências vividas por Brazilia dos seis aos dez anos. O segundo caderno vai até seu 16º aniversário. O terceiro tem início no dia em que Brazilia completa dezessete anos, em 24 de maio de 1904, e termina logo depois de seu casamento com o primo Carlos Amadeu de Arruda Botelho, ocorrido cerca de dois anos mais tarde. Os principais cenários de suas recordações são a fazenda Paraizo, onde vivia com seus pais e irmãos, e São Paulo, onde a família passava dois meses por ano na casa que mantinham na capital. Nos dois cenários, sobressaem costumes ditados pela tradição e pela temporalidade dos cafezais. Com seu olhar atento e minucioso, Brazilia recorda as brincadeiras com os irmãos e primos, as aulas em casa com preceptoras europeias, a relação com os empregados da fazenda, as festas no terreiro, as receitas de doces, a lida diária nos cafezais, o trabalho de costura e de contabilidade da fazenda, as touradas na praça da República e o convívio com a alta sociedade paulistana nas temporadas na capital. Com descrições pormenorizadas do cotidiano, os registros aqui publicados reforçam a dimensão histórica da economia cafeeira na transição do século XIX para o século XX e jogam luz sobre a atuação feminina em domínios historicamente tratados como exclusivos dos “barões do café”. Preparada para desempenhar o único papel que cabia às mulheres da época, Brazilia terminou legando para a posteridade um ponto precioso para entender a história do Brasil.

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    Mariana Dal Chico15/04/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    “Dias ensolarados no Paraizo”, um livro de memórias de Brazilia Oliveira de Lacerda, foi publicado recentemente pela Chão Editora que me enviou um exemplar de cortesia. A Chão editora tem “o objetivo de resgatar e publicar documentos, relatos, diários, memórias e crônicas, e dar voz a personagens e visões muitas vezes esquecidas.” Esse livro de memórias foi baseado em três diários de Brazilia, que começa em 1.893, quando ela tinha seis anos ao chegar na fazenda Paraizo e termina quando ela tem 19 anos, meses após seu casamento. O ponto de vista em primeira pessoa feminino, é uma raridade na documentação histórica desse período. Numa leitura superficial, acompanhamos a rotina de uma menina que divide sua vida entre a fazenda e a cidade de São Paulo. Seus afazeres domésticos — funcionamento do forno à lenha, refino de açúcar, costura —, disposição da moradia, a precariedade do banheiro, plantio do café. Conforme fica mais velha, também relata as festas e visitas a parentes quando estão em São Paulo. Nas entrelinhas, é possível perceber o papel da mulher na sociedade daquela época, sua importância nas fazendas de café — Brazilia aprendeu cedo a ajudar o pai com a administração e contabilidade da fazenda —, recortes urbanos sociais e espaciais da cidade de São Paulo. Jorge Caldeira aponta em seu posfácio como “a gradação da cor da pele servia como um juízo sobre as qualidades morais que ia muito além da discussão dos dias atuais, fundada na importação do sistema conceitual binário note-americano.” Gostei muito da leitura, que é fluida e me transportou no tempo. Recomendo tanto para quem tem interessem em relatos históricos, como para quem gosta de romance histórico.

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