Desfazendo nós, criando laços
No livro ensina-se que, para espantar um mal pressagio como sonhar com dente, que culturalmente significa algo muito ruim, deve-se ir até uma arvore bem bonita e cheia de vida, bater nela três vezes com a mão direita e pedir com muita fé que ela, em nome da mão Natureza, absorva essa carga enérgica negativa. Depois deve acender uma vela para o anjo de guarda num lugar que seja acima da altura da cabeça e colocar ao lado um copo de água com açúcar. Em seguida reza-se pedindo proteção a ele e a Deus, pois nada nesse mundo acontece sem que Deus queira. De resto fica a recomendação para não se comentar nada com ninguém, a não ser que seja para ensinar outra pessoa.
Outra parte fala sobre fazer uma novena para as Santas Almas. A novena é feita durante nove dias seguidos, donde reza-se um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Salve-Rainha, todo dia às seis horas da tarde com um copo de água na mão. Ao termino pede-se ajuda para as Santas Almas e depois que acaba joga a água na pia em água corrente (com a torneira aberta). O mais importante é ter fé e procurar não se preocupar muito, pois Deus sabe o que faz. Nada nessa vida acontece sem à vontade do Pai.
De resto também gostei quando o autor diz que para tudo tem hora e quando chega à hora ninguém escapa. É assim com a vida, a morte e com quaisquer mudanças que tenham de ocorrer conosco. Quando chega a hora vamos de um extremo a outro numa mudança de cento e oitenta graus. Mudamos a maneira de pensar e as atitudes antigas passam a não nos preencher mais. Quando chega a hora de crescermos, não concordamos com o jeito velho de ser, queremos algo novo, desejamos a verdadeira paz de espírito. Passamos a sonhar com a vontade de estar de bem conosco próprios. E se não houver uma mudança real e verdadeira no fundo de nossos corações, nada muda. Nós queremos mudança, mas a natureza não dá saltos, ela segue a um ciclo natural. Tem etapas, requer sacrifício, perseverança e, acima de tudo, atitude. Em resumo posso dizer que gostei do livro. Muito me agrada narração em primeira pessoa, estilo autobiografia.
O autor deixa claro que uma pessoa ao ser presa por pequeno delito, sai da cadeia preparado para grandes crimes. Incrível analisar o resultado da união de cinco itens que tanto intensificam a criminalidade (pioram o mundo ao invés de ajudá-lo):
1 - aprendizados que se adquire com outros presos ao ficar numa cela que possui grandes criminosos,
2 - a revolta que se sente pela vida sem liberdade e sem o mínimo de conforto e higiene,
3 - os maus tratos propositais de policiais,
4 – a intermediação de agentes penitenciários sem escrúpulos que aceitam drogas ou dinheiro para se aliar aos bandidos facilitando suas fugas,
5 – a constante formação de novas quadrilhas conseqüente das amizades que surgem entre os detentos.
Fiquei impressionada ao constatar que o autor relata sua utilização de drogas como se fosse algo super normal e natural (para ele e todos que usam realmente deve ser), talvez tanto quanto chupar uma bala. Fico pensando o quanto o mundo pode ser melhor se todas as forças negativas do ser humano se convergirem para o amor. Fiquei comovida com a sagacidade e determinação que os ladrões, traficantes, dentre outros tipos de criminosos, precisam ter para sobreviver no mundo da fuga, dos conflitos com policiais, as tentativas de sair da cadeia cavando buracos e túneis de maneira tão complexa que nem pude compreender direito. Ah se toda essa força, persistência e concentração fosse utilizada no bem! Fico até chocada de pensar nos resultados que teríamos, no respeito com que nos trataríamos, na confiança da moral e da justiça que se estabelecia no seio da humanidade. Uma vez ouvi dizer que se os homens maus soubessem o valor do bem, eles o praticariam por esperteza.
Também achei válido notar a cumplicidade existente entre os membros de uma gangue e o efeito de violência e morte que pode surgir por uma simples traição entre os ‘parceiros’. Gostei de conhecer algumas gírias relacionadas aos que estão acostumados com a cadeia. Incrédula eu não consegui entender como alguém pode suportar cometer tanta asneira e correr tantos riscos como o autor do livro e supostamente tantos outros presidiários. Nitidamente dá a impressão de ser mais fácil trabalhar do que roubar ou tentar viver do tráfico. Sinceramente o livro parece ir tão ao extremo da minha vida pacata e simples que me senti lendo uma ficção e por vezes precisava me lembrar mentalmente que era uma historia verídica.
Daí eu ficava repetindo a mesma pergunta: como pode? A verdade é que existem muitas coisas que desconheço a gravidade e a possibilidade de serem reais, pois vivo no meu mundinho à parte, isolado, mais fictício do que a realidade que se achega até mim com cara de ficção. Foi uma leitura boa, mas que me causou sensações estranhas.
É um pouco desgastante reconhecer e aceitar os ‘pontos fracos’ que existe nesse mundo por causa da iniqüidade humana. De todo modo, o mais importante é crer que tudo nesse universo caminha para a evolução e centra-se no desenvolvimento pleno do amor.
Finalizando, eis a frase que também finaliza o livro e que muito gostei: “...errando ou acertando, estamos sempre aprendendo. Quando a gente pensa que tudo terminou, na realidade, para Deus, apenas começou”.