Cuidado! Seu Príncipe pode ser uma Cinderela -

    Consuelo Dieguez , Ticiana Azevedo

    Best Seller
    2010
    208 páginas
    6h 56m
    ISBN-10: 8576844656
    Português Brasileiro

    '(...) muitos gays se casam, têm filhos e passam a levar uma vida dupla pra lá de deplorável. São pessoas confusas que, sem a coragem de se assumir, ainda assim são individualistas e sem caráter a ponto de carregar uma mulher como sua refém sentimental pela vida afora. Ou pior: apenas para manter as aparências." Do prefácio de Gilberto Scofield Você conhece um cara, apaixona-se por ele, o relacionamento fica sério, mas uma sensação de que algo está errado paira sobre sua cabeça. Certa vez, ele deu um ataque porque você usou o xampu dele. Ele prefere viajar para fazer compras a passar um fim de semana romântico na serra. Além de tudo, basta beber um pouquinho que... pronto, ele solta a franga. Querida, você não desconfia de nada? Ok, sabemos que a paixão e o amor podem nos deixar cegas. O cara usa tênis Prada, passa todo o domingo com os “amigos” e tem um chamego especial pela mãe. Mesmo assim você continua considerando o rapaz atraente e sensível, e que tudo o que comentam por aí não passa de fofoca. Em Cuidado! Seu príncipe pode ser uma Cinderela, as jornalistas Consuelo Dieguez e Ticiana Azevedo apresentam um guia prático para ajudar as mulheres a identificar se o homem dos sonhos que têm ao seu lado é, na verdade, um gay sem coragem de sair do armário. Com base em histórias verdadeiras e entrevistas com mulheres que viveram esta situação, as autoras tratam do tema homossexualismo enrustido com seriedade, mas também com muito senso de humor. O ponto de partida deste guia é a história de Sofia, que viu seu belo marido – 1,90, louro, de olhos azuis – abandonar o casamento para viver ... com outro homem. Depois de muito desespero e tristeza, Sofia enxugou as lágrimas e se perguntou: “Peralá, passei sete anos morando como uma bicha e não percebi?” E aí os sinais vieram todos à tona: “Sua fixação por perfumes, por cremes, aquela vaidade excessiva, aquele monte de roupas de grife. Aqueles tênis Prada. Caramba, tênis Prada???!!! Como não liguei logo uma coisa com a outra? Afora a relação umbilical com a mãe, que tinha até a chave da nossa casa (coisa que eu cortei logo). E aquele xaveco todo com os amigos, por quem ele me trocava nos fins de semana.” Para facilitar a vida das mulheres, as autoras criaram um sistema de filtragem para identificar o gay no armário. São dez peneiras às quais as mulheres devem submeter o suspeito a fim de descobrir se ele é ou não uma biba. A peneiras tratam de pontos cruciais: vestuário, comportamento, vida social, interesses, atividades e, claro, sexo. Roupas separadinhas por cores e tecidos? Modelitos primavera, verão, outono, inverno? Trajes para manhã, tarde ou noite? Pois o suspeito já fica na primeira fase. Adora fofoca? Fica pra cima e pra baixo com seu cão galgo? Mamãe é uma referência? Ele é mesquinho com você e generoso com os amigos? Não se preocupe, com a prática, você se tornará uma especialista em descobrir gays no armário e nunca mais passará por situações constrangedoras ou relacionamentos instáveis. Cuidado! Seu príncipe pode ser uma Cinderela ensina a dar aquela peneirada em seu companheiro, ficante ou pretendente para descobrir, de forma definitiva, se vale a pena ou não investir na relação.

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    Andreia Santana07/07/2010Resenhou um livro
    1 (Ruim)

    Sobre preconceito e “queer eye”

    Diz o ditado que não se deve julgar um livro pela capa e seguindo fielmente a máxima, encarei a leitura de Cuidado! Seu príncipe pode ser uma Cinderela, lançamento do BestSeller, selo do Grupo Editorial Record, sem fazer pré-julgamentos. Uma amiga, editora de Literatura, me deu o livro para “uma avaliada”. Bem disposta para novas experiências literárias, comecei pela orelha, prefácio e tudo o mais que nos ajuda a entender o contexto da obra, daí em diante avancei pelo conteúdo propriamente dito das 207 páginas da publicação. O livro foi escrito por duas jornalistas, Consuelo Dieguez e Ticiana Azevedo, com base na experiência de uma personagem – Sofia – que por sete anos foi casada com um “gay no armário”. O casamento, diz a obra, foi a forma de o noivo disfarçar sua orientação sexual para a sociedade. Junto com a história de Sofia, as autoras – que optam por uma mistura de narrativa em primeira e terceira pessoas, depoimentos, entrevistas e roda de bate-papo, publicaram outros relatos de mulheres que tiveram envolvimento com homossexuais. Também publicaram depoimentos de gays e utilizaram um amigo hetero como contraponto. Hummm… O tema promete, visto que não são poucas as mulheres que já passaram pela situação de descobrir que os maridos são gays, tampouco são raras as que já se apaixonaram por homossexuais e há, inclusive, aquelas que acreditam que podem mudar a orientação sexual de outra pessoa. Não é a toa que a seara dos desejos e afetos humanos rende quilômetros de pano para a manga dos psicanalistas Só que os problemas com a abordagem do assunto começam logo no primeiro capítulo, quando fica muito claro que o discurso das autoras é o “heteronormativo” dominante (ou seja, aquele que categoriza os seres humanos e os aprisiona em rótulos, qualificando – adjetivando – as pessoas e atribuindo-lhes valor). Sofia, a personagem que viveu a experiência de descobrir a orientação sexual do marido logo depois de ter tido um aneurisma por estresse no trabalho, está visivelmente traumatizada e, lógico, uma pessoa assim vai avaliar todos os homens, sejam gays ou heteros, com uma lente de aumento passional. Boas intenções - A intenção das autoras, explicado logo na abertura do livro, é “orientar” as mulheres “incautas” para não caírem no conto do moço bonito, cheiroso, arrumadinho, porque esse tipo é logo taxado de “gay no armário”. Se for educado e culto então, batata!, as autoras e Sofia, sua personagem principal, vão logo dizendo que nem adianta investir porque “o cara gosta da mesma coisa que você”. Homem fino não existe, na abordagem deste livro. Saber cozinhar bem, cuidar da casa, usar creme hidratante, gostar de decoração? Tudo isso é atribuído ao universo gay, sem concessões. O que me leva a crer que nas entrelinhas, as autoras estão dizendo que macho de verdade precisa ser tosco e rude, o que pessoalmente, discordo totalmente. Virilidade não tem relação com educação, gentileza ou vaidade. Homossexuais podem ser extremamente viris, sem que para isso queiram ir para a cama com mulheres e nem precisem namorar ou casar com uma. Virilidade, segundo o dicionário, significa: “esforço”, “vigor” e “coragem”. A associação da palavra virilidade com a potência sexual masculina dos heterossexuais tem relação com a “norma” estabelecida junto com a dominação patriarcal para controlar a sociedade, começando pelo controle das mulheres e estendendo-se às pessoas que contrariam essa “norma” estabelecida. Em alguns momentos há afirmações no livro do tipo, “se o cara se produz mais do que você é porque é uma megabiba” ou então “moda não é assunto de homem”, ou homem de verdade não faz isso ou aquilo. A título de ensinar as mulheres a fugir dos “gays no armário” em busca de escudo protetor, a obra destila preconceito. Em alguns capítulos, há o interesse tanto das autoras quanto da personagem em afirmar que não são homofóbicas, que tem amigos gays e que respeitam e gostam de gays e coisa e tal. Mas logo adiante, há afirmações do tipo “não existe bissexualidade masculina” (dando a entender que somente entre mulheres é que o fenômeno ocorre. Isso me lembra aqueles homens que dizem que tem tesão em ver duas mulheres na cama, mas reagem violentamente se a namorada confessa que também tem o mesmo desejo, só que ao inverso). Uma pesquisa norte-americana é usada como base argumentativa para “desconstruir a bissexualidade masculina”, mas de forma tão superficial que não pode ser levada a sério. Lembra uma daquelas pesquisas do século XIX que culminaram com a colocação da homossexualidade (no caso chamada de homossexualismo) no codex das doenças da OMC (Organização Mundial de Saúde), de onde só saiu recentemente. Não digo que as mulheres reunidas para o livro, as autoras ou a personagem; ou as pessoas ouvidas em entrevista, sejam homofóbicas, porque não as conheço e não tenho direito de afirmar isso. Mas o livro, com toda certeza, ao menos no que entendo como homofobia, é sim, e muito. Pode até ser que tenha sido inconsciente, o discurso machista e heteronormativo está tão impregnado no nosso dia a dia que mal percebemos, mas ele está lá, disfarçado de leveza e piada em cada uma das páginas da obra ou na caracterização do gay na tv, no cinema, teatro, por exemplo. Trauma e reação - Também não desmereço o tema e nem o trauma vivido por Sofia. Até compreendo que o objetivo é narrar uma experiência que deve ter sido muito dolorosa – ela tinha acabado de sair do hospital, isso também conta ponto na extensão do dano – e aqui não falo do fato do marido ser gay e esconder por sete anos, cito é o fato de que houve uma traição de confiança em uma relação a dois. Sendo que a base de qualquer envolvimento, ou relacionamento humano, seja de casal ou entre amigos e familiares, é a confiança. Há coisas tão pueris e por isso, perigosas, no livro, que as autoras chegam a afirmar que quem usa a palavra “relacionamento” ou a frase “estou envolvido com uma pessoa” é gay e ponto final. E eu que achava que as duas palavras, “relacionamento” e “pessoa”, não tinham gênero! O que me deixou decepcionada com a obra é que a título de dar leveza a um tema tabu, o livro é raso, porque aborda situações e comportamentos sem a devida análise, porque usa expressões dúbias, porque em certos trechos ridiculariza a homossexualidade e a separa do que seria um “comportamento normal”. No fim das contas dá a sensação de ser a catarse de um ressentimento e não um trabalho que poderia sim, ajudar outras mulheres a superar a experiência negativa da traição da confiança em uma relação com outra pessoa. “Queer eye” - Embora o prefácio seja assinado por um homossexual, o olhar dele não está isento de preconceito. Chega a afirmar que as mulheres que mantém casamentos com gays e não conseguem enxergar que o marido tem outra orientação sexual "abriram mão do orgasmo"! Sofia vai mais longe: diz que um casamento entre um gay e uma mulher é juntar “a falta de apetite" (deles por mulheres) com a "anorexia” (delas, por visivelmente, na opinião de Sofia, não gostarem de sexo. Ou seja, casou com um gay que “dá bandeira” e mantém a farsa, então é porque a mulher é frígida). Ninguém disse para Sofia ou para as autoras, ou para o amigo gay que prefacia a obra, que a sexualidade humana não é essa coisa rasa e rasteira? Se fosse, não precisaríamos ter inventado a psicanálise. Embora tenha depoimentos de homossexuais na obra, o olhar também não é isento. Mais para o final do livro, alguns depoimentos de gays não assumidos, ou “no armário”, são comoventes e preocupantes, tanto pela angustia de viver uma farsa quanto pelo fato de muitos destilarem homofobia e até “nojo” de homossexuais. Não faltam as histórias sobre homens que se dizem heterossexuais e que entram em salas de bate-papo da internet, ou nos banheiros da vida, para procurar outros homens para se envolver e que no meio da conversa destilam ódio contra gays, diferenciando que gostam “de uma sacanagem com outros machos”, mas não querem saber de “frescura de veado”. Ou seja, gostam de transar com homens, mas “não me venha com boiolices”. Mais uma vez, lamentável! Essas são situações extremamente complexas. O que leva uma pessoa a ter comportamento tão paradoxal, querer o envolvimento com o mesmo sexo, mas rejeitá-lo? Hipocrisia? Pressão social? Vergonha? As taras e pulsões que a psicanálise tenta explicar? Medo? Insegurança? Não tem como categorizar e nem rotular, porque só quem vive a experiência sabe como é. Da mesma forma que, só uma mulher que tenha descoberto que o marido é gay pode saber como se sente com a revelação. No mínimo ficará com raiva. Também se sentirá frustrada. Provavelmente enfrentará abalos na auto-estima. Mas não creio que é ligando um “gaydar” para avaliar cada homem do planeta que ela irá superar a experiência. Pergunto-me se as mulheres ficam mais chocadas com a traição em si ou com a revelação da orientação sexual dos maridos? E se eles as trocassem por outra mulher? Aí não tem trauma, diriam vocês. Traição de confiança, para mim, é traição. Também não tem gênero. Mas a resposta de como uma mulher reage ao fato vai depender da forma como ela lida com a sexualidade, seja hetero ou homo, de um modo geral. Ou seja, o quão bem resolvida é com a própria orientação e com as orientações alheias. Além claro, de que um casamento não se baseia 100% em sexo e só quem vive um casamento sabe o lugar que o sexo ocupa na vida do casal. Não tiro a razão de quem se sente triste, deprimida ou até perde o chão por um tempo, porque quem enfrenta essa situação não deixa de ter sido usada como disfarce. E ser usada, em qualquer circunstância, é terrível. Mas não diminuo o impacto das mulheres que, por exemplo, descobrem depois de anos que o marido tinha outra mulher, outros filhos, e levava vida dupla da mesma forma. Não defendo aqui os homens que, sabendo de sua orientação sexual, optam por casar com uma mulher apenas para manter cargos, posições, esconder da família, fazer figura e etc. Não sou ingênua, esses homens existem e não são raros. Mas o único momento em que concordo com as autoras do livro é quando dizem que ao usar o disfarce “vida normativa, com esposa e filhos”, esses homens estão cavando uma existência de sofrimentos tanto para a esposa quanto para si mesmos. Discordo é da forma como o tema é abordado, porque me lembra horrivelmente as novelas que criam estereótipos do tipo de gay que a sociedade aceita e o tipo que rejeita e relega ao gueto, enquadrando – separando – todos os homossexuais nesse padrão. “Ah, ele é gay, mas é discreto, sabe se comportar!” As causas que levam homossexuais a se casar com o sexo oposto e constituir família com base em uma mentira e em sofrimento não são investigadas em nenhum momento no livro e nem adianta usar a desculpa de que a obra não pretende ser um tratado, mas apenas um texto inocente e divertido. Para mim, nada que possa formar opinião é inocente de verdade. Ainda mais quando é feito por jornalistas, teoricamente os formadores de opinião da sociedade. O preconceito, a heteronormatividade que molda padrões do tipo “homens são de marte e mulheres de vênus”, “menino isso, menina aquilo” não é questionada ou sequer posta em xeque, sendo que é graças a essa visão enviesada da sociedade que acontecem os casamentos frustrados de Sofia e de outras mulheres ouvidas para o livro. No prefácio escrito pelo amigo gay das autoras, ele diz que não consegue entender que tipo de “carência cega” é essa que leva as mulheres que se envolvem com gays a rejeitar uma realidade que deveria “saltar aos olhos”. Pergunto-me se é tão simples assim ou se é mero caso de uns saberem disfarçar mais e outros menos. Sinceramente, acredito que não seja mera carência afetiva e muito menos ingenuidade de mulher apaixonada ou convencimento no disfarce. Também não digo que os gays no armário que se casam com mulheres são todos mau-caráter ou todos vítimas da sociedade homofóbica. Alguém já parou para pensar que esses homens é que podem estar carentes e ao encontrar afeto e admiração, mesmo sendo do sexo oposto, aceitam sem questionar, ainda que se arrependam depois e não saibam mais sair da sinuca em que se meteram ao alimentar uma relação que contraria suas inclinações? O que acredito é que cada relação é construída de uma forma, com base em uma dinâmica que só os dois envolvidos sabe qual é. O que leva ao envolvimento, ao casamento, ao divórcio, a felicidade ou a frustração, só os dois sabem. O que sei também é que ex-gays ou ex-heteros não existem e que a ciência (seja biologia ou psicologia) não conseguiu explicar ainda, de forma definitiva, o que nos serve de bússola, de norte, desde a infância ou adolescência, que nos faz seguir esta ou aquela orientação na vida adulta. Discute-se até o conceito de gênero, ultimamente. Uma coisa é certa, o determinismo biológico caiu em desuso há muito tempo, embora seja sustentado por visões como a que vaza das entrelinhas deste livro. Muito se especula sobre homossexualidade e boa parte do preconceito vigente, da violência e da intolerância, vem justamente de explicações apressadas ou de estereótipos que livros assim acabam ajudando a reforçar, mesmo quando dizem tentar fazer justamente o contrário. Senti falta de um “queer eye” sobre o livro e lamento que um tema tão rico tenha sido desperdiçado em clichês que não contribuem em nada para evitar que num futuro próximo, gays não precisem nem de armários (com exceção daqueles de guardar pertences) e nem de relações frustradas para buscarem afirmação, aceitação ou seja lá o que uma pessoa busca na outra na hora em que a elege para companhia de uma vida, ou de parte da vida.

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