"Quando Alencar saiu, Tide deitou pra colocar a ideia do quadro no lugar. Da cama olhava agora detidamente a figura da Madona e os dois meninos. São José e Santa Isabel também apareciam rodeando Jesus e São João, numa espécie de pirâmide humana, envolvida pelo olhar sereno da Virgem. Era uma tela linda! Nem sabia como ia ser a sua vida ali naquele quarto, agora revigorado com aquele quadro olhando pra ela todos os dias. Jamais havia pensado nisso, que uma obra de arte, mesmo que não fosse autêntica, pudesse abrir dentro dela uma vontade inusitada de pintar a vida. Foi pro quarto ao lado, encontrou suas tintas, pincéis, e uma tela novinha em cima do cavalete. Pensou bem e achou que não custava tentar pintar um Rubens como aquele. Imaginava como seria e já esboçava na mente algo decididamente maravilhoso - “Logo! Logo farei isso! Será um magnífico exercício”! – pensou, enquanto voltava pra sala e despencava no sofá . Folheou o livro que Alencar havia deixado. Lá estava toda a obra de Rubens, todas as telas, todas as maravilhosas pinceladas que davam a cada um de seus personagens o vigor da realidade misturado ao frescor da imaginação forte de um gênio . As inúmeras maravilhas que ele havia pintado para a corte, para o clero. A beleza das formas, a leveza e a corpulência exagerada dos nus que se avolumavam em algumas pinturas belíssimas. Nada parecia exagerado, apesar do excesso de cor, luz e elementos. Uma das telas lembrava um pouco a Capela Sistina, de Michelangelo. Aquele inferno portentoso, pintado no altar, e que – definitivamente – havia ampliado ainda mais a sua emoção pra sempre. Levantou. Era quase meia-noite. A janela de Alencar estava aberta e iluminada. Nada que ele havia falado podia se comparar à forte sensação que ela estava sentindo ao olhar novamente aquela janela distante tão convidativa. Observou com curiosidade a luz que vinha do apartamento. Era uma luz dourada, nem um pouco semelhante à luz comum. Esfregou os olhos. Ou era pura imaginação ou então seu olhar estava agora contaminado pelas luzes do quadro do seu quarto, aquela luz intensa, também dourada, que vinha do rosto da Virgem. Saiu da janela. Olhou novamente a tela. Era quase impossível algum falsificador captar aquele ar da Virgem, o rosto carregado de uma emoção transcendental, tão absolutamente amoroso, divino. E a expressão dos meninos? São João com o olhar brilhando de emoção...era impossível! Só sendo um grande artista. Tirou o quadro da parede. Examinou atrás. Estava emoldurado como se emolduravam as telas antigamente. Se bem que o seu antigamente era recente, comparado ao tempo que a cópia tinha. Vasculhou tudo atrás de uma assinatura. Não encontrou nada. E se fosse de um dos impressionistas? Podia ser uma cópia feita por Van Gogh, quem sabe... e que vale uma fortuna. Riu. Chega! Estava por demais excitada pra tirar qualquer conclusão. Resolveu dormir, se é que se pode dormir com tanta novidade. Repassou o dia. Havia sido um dia cansativo. A vida continuava a lhe pregar peças. E agora aquela, magnífica. Afinal, não era qualquer um que podia dormir com um Rubens no quarto. E achou que teria, finalmente, sonhos belíssimos." Esse é um pequeno trecho deste livro de suspense para jovens. Tide é a personagem mais amada dos fiéis leitores da Autora. Ela aparece também nos livros O Outro Lado do Tabuleiro e As 13 Chaves. Ficou famosa por ser uma senhora - não muito comum - que adora mistérios e consegue resolver casos complicados sempre com muita inteligência e uma boa dose de conversa. Este livro recebeu o Altamente Recomendável para Jovens, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenill. Mistérios, crimes, interpol, sequestros fazem deste um livro único. Portanto, guarde o fôlego para ler mais esta façanha dessa personagem maravilhosa, você vai precisar.
O Caso do Elefante Dourado -
Eliane Ganem
Editora da Autora
2021
184 páginas
6h 8m
ISBN-10: B08GJB9XJS
Português Brasileiro
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