Se a dita pela Academia Sueca "engenhosidade linguística" de Peter Handke se mostrou prazerosa, ou ao menos acessível e sem maiores dificuldades, ao menos em seus livros 'Ensaio sobre a jukebox' e 'Don Juan (narrado por ele mesmo)', e até mesmo pelas suas 'Peças Faladas', o mesmo não pode se dizer de 'A perda da imagem ou através da Sierra de Gredos', em que sua temível fama e adjetivos, de que "foge de qualquer cronologia linear e de processos de narrativa convencionais", cabem perfeitamente.
Não que eu seja prepotente com tal afirmação, mas há tempos que um livro não me desafiava e me exigia esforço, concentração e, principalmente, paciência. Talvez o último tenha sido o arenoso '2666', de Roberto Bolaño. Não que eu seja superior à literatura ou até mesmo aos leitores, pois eu ainda tenho de encarar muita coisa tida como verdadeiro exercício e que haja necessidade de uma bagagem literária extensa na literatura universal: 'Ulisses'. 'Em busca do tempo perdido'. 'Os sertões'. 'O jogo da amarelinha'. 'A casa soturna'. 'Grande sertão: veredas'. Livros que exigem do leitor, e que exigirão de mim, certamente, mas que não me intimidam, pra ser sincero; algumas eu estou particularmente louco para me aventurar logo na leitura.
A grande impressão que se tem, ao explicar enfim o livro, é a de que a história pouco importa. Não sabemos em que ano a história se passa, mas apenas em um tempo futuro, pontuado não pela presença excessiva de tecnologia, mas pelo comportamento humano, indiferente, menos amável, mais propenso à frieza. Sabemos apenas que os eventos se iniciam em janeiro, e em determinado momento sabemos se estender até meados de outubro. Sem nome da protagonista e dos personagens que volta e meia aparecem, exceto quando se torna extremamente necessário para a linguística handkeana.
Uma banqueira de sucesso, tida como a Princesa das Finanças, decide que é hora de alguém escrever sua biografia. Ela viveu em prol de algo, e seu legado, sua importância, têm que ser testamentado, divulgado, guardado em palavras para quem quiser conhecê-la, saber de seus feitos. A questão é que ela não quer uma biografia comum, baseada em sua vida profissional, nas entrevistas que concedeu ou nos artigos que escreveu. Tal biografia tem que ser elaborada por um escritor específico, não mais em seus dias de glória, embora ainda assim de renome e que atenda às suas peculiaridades e desejos específicos.
Este autor, então, o único que pode satisfazê-la, vive na Espanha, mais especificamente na comunidade de Mancha (cenário de 'Dom Quixote de La Mancha'), dentro da Serra de Gredos, cordilheira-título do livro. A banqueira parte, então, em uma viagem que com certeza mudará por completo sua vida, mesmo sendo um lugar muito conhecido e visitado por ela ao longo da vida.
É aí que o autor vai trabalhar em cada detalhe da viagem, do lugar, narrando até aquilo que passaria despercebido ou seria ignorado em outras mãos: mudanças climáticas, arquitetura local, guerras civis, comportamentos sociais e sua organização, meios de comunicação, já que embora estejam em algum momento futuro do século XXI, as pessoas e vilarejos, aparentam, em um primeiro momento, estarem no século XVIII e XIX. Eu, como futuro arquiteto, aproveitei cada detalhe dessa viagem, como se eu fosse, em diversos momentos, a banqueira, e tivesse conhecendo a desbravando cordilheira e o país.
Mas por que uma nota tão baixa? A engenhosidade linguística de Peter Handke, conhecida universalmente, é muito eficiente, bem elabora e própria, tanto que seu prêmio foi questionado por méritos políticos, quando é unânime, que por apenas méritos literários, ele é mais que merecedor. Há um jogo de palavras, um cuidado com cada uma delas, para que funcionem e sejam entendidas, ou ao menos surtam o efeito esperado, que os primeiros capítulos foram lidos de maneira embasbacada, apaixonada. Eu tinha certeza que seria um livro cinco estrelas, favoritado, em que eu propagaria para quem pudesse, mas estamos falando de um livro de quase 600 páginas, em que o jogo, em determinado momento, cansou. O brilho inicial se tornou repetitivo, enfadonho, e logo eu não queria mais brincar daquelas palavras.
O jogo de Handke envolve a Morfologia, cada palavra isolada da outra, independente de história, narração e afins, uma área que quem estuda, tem interesse em saber sobre a origem, o processo de criação - de tradução! - certamente vai adorar, afinal, o autor explora à exaustão o alemão, cada palavra, utilizando, inclusive, termos como "Essa palavra ainda é usada? Essa palavra não seria antiquada? Existe outra palavra melhor a se encaixar aqui". Eu confesso que gosto do tema, mas não a ponto de estudar sobre, então o entusiasmo inicial se evaporou com o decorrer das palavras.
O grande trunfo do livro é que todos os tradutores para onde ele foi vendido foram obrigados, por contrato, a viajar a Serra de Gredos e conhecer o autor, onde o mesmo mostraria cada cenário, local e ideia que o mesmo concebeu para o livro. Para que os tradutores conhecessem a história mais a fundo? Não. Para que eles entendessem o jogo de palavras, e com isso "pegassem o ritmo".
O precioso cuidado do autor com cada palavra teve a mesma preocupação ao ser traduzido, afinal, nem todas as palavras podem ser traduzidas ao pé da letra, ou que tenha o mesmo significado, mas algo aproximado, que se parece. O próprio Handke confessou, em uma conversa com a tradutora à edição brasileira, Simone Homem de Mello, que não importava se algo da história, das imagens, fosse perdido na tradução, contanto que o ritmo, o jogo com as palavras fizesse efeito.
A sensação, após ler um livro denso de quase 600 páginas, e ler a nota da tradutora com tal afirmação sutil dita pelo próprio autor, é a de que, de fato, a história não parece importar, e sim a engenhosidade linguística através de divagações, de palavras especialmente selecionadas, uma a uma, com explicações sobre suas origens, derivações, palavras com o mesmo efeito em árabe, francês, espanhol, enfim, de fato é algo muito eficiente, próprio, digno de mérito, de um Nobel de Literatura. É Literatura. Mas talvez usada à exaustão, eu diria.
Uma verdadeira aula sobre a origem, importância, usos e desusos das palavras e tudo o que o estudo da morfologia tem a abordar, 'A perda da imagem ou através da Sierra de Gredos' peca pelo excesso, fatigando o leitor, que não consegue aproveitar a paisagem espanhola e tudo o que o livro tem a oferecer, o que não é pouco, por muito tempo. Um livro que merece uma releitura. Pausada. Com tempo. Para brincar e se perder no tempo que o próprio Handke não se preocupa em ditar.
Este livro faz parte do projeto 'Lendo Nobel'. Mais em: