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    Nós, filhos de Eichmann -

    Günther Anders

    Elefante
    2023
    112 páginas
    3h 44m
    ISBN-13: 9788593115677
    Português Brasileiro
    4.4
    15 avaliações
    Leram21Lendo1Querem27Relendo0Abandonos0Resenhas1
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    Apesar de terem sido escritas há décadas, e de se endereçarem ao filho do oficial que administrava a máquina de extermínio nazista, as cartas reproduzidas neste livro possuem uma atualidade nada menos que assombrosa. A seu interlocutor, Klaus Eichmann, primogênito de Adolf - caçado, julgado e condenado à forca por Israel no início dos anos 1960 -, o filósofo judeu Günther Anders esclarece que não quer remexer o passado, mas falar do futuro: "é necessário buscar aquelas raízes que não se extinguiram após o colapso do sistema do terror de Hitler e de seu pai". Seu maior pesadelo é a repetição da monstruosidade, que para ele é resultado do avanço frenético da técnica e da incapacidade do ser humano de sequer imaginar a magnitude do poder de destruição que desenvolveu. Ao tentar convencer o filho a romper com a herança paterna, fica claro que Anders está falando a todos nós, conclamando ao pensamento crítico e à consciência sobre em que medida nossas ações cotidianas, nosso trabalho, a forma como inocentemente ganhamos a vida, contribui para a destruição do mundo - e do outro. Para Anders, no mundo fordista o trabalhador já não conseguia imaginar os efeitos distantes de suas ações, dado o triunfo irrefutável do aparato técnico de produção. Assim, as piores atrocidades podem ser realizadas como se fossem um trabalho trivial, sem culpa nem remorso. Ou seja, todos poderíamos nos tornar cúmplices ou vítimas de uma máquina de extermínio. Isso não eliminaria a “oportunidade moral positiva”, diz Anders. No entanto, na medida em que a ideia de futuro se inscreve no tempo presente enquanto ameaça impessoal e permanente, a negação da ordem existente torna-se mais problemática, deixando-se de se processar nos termos próprios da norma progressista. Tanto assim que Anders se volta a uma militância "antiapocalíptica", definida pela tentativa radical de adiar o horizonte de extinção da humanidade. [...] O desencontro histórico entre a obra de Anders e o Brasil mereceria reflexão à parte, sobretudo agora que se recicla entre nós a fraseologia do capitalismo inclusivo, já quase inteiramente desprovida de função mobilizadora para a imaginação social e política. Se assim for, estas cartas a Klaus Eichmann ganham, finalmente, a chance de buscar seu destinatário brasileiro. Maurício Reimberg

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    Leila Cardoso picture
    Leila Cardoso21/10/2023Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Em Nós, Filhos de Eichmann, o autor Günther Anders mergulha profundamente nas águas turvas da história, explorando não apenas os horrores do Holocausto e na capacidade do homem de cometer atos terríveis, mas também de continuar perpetuando os erros do passado. A obra, que surpreendentemente mantém sua atualidade mesmo após décadas de sua publicação, apresenta uma leitura diferenciada, profunda e dolorosa, proporcionando uma experiência literária enriquecedora e altamente reflexiva. A trama do livro gira de cartas que o autor escreve a Klauss Eichmann, filho de Adolf Eichmann, um dos principais arquitetos do Holocausto. Entretanto, em vez de se concentrar na figura do carrasco, Anders escolhe o caminho menos trilhado, investigando o papel das gerações subsequentes, "nós, filhos de Eichmann," na aceitação, ocultação e perpetuação dos horrores cometidos por seus pais. A obra lança luz sobre a questão ética e moral de como lidar com o legado de Eichmann e questiona o quão longe vai a responsabilidade das gerações seguintes. A habilidade de Günther Anders em penetrar na psique humana e explorar o "eu" coletivo é surpreendente. Sua escrita é incisiva e intransigente, forçando os leitores a enfrentar as sombras da história e suas implicações em nosso presente. Ele aborda questões profundas sobre a responsabilidade moral, a banalização do mal e a necessidade de lembrar os horrores do passado para evitar que se repitam no futuro. O que torna este livro ainda mais impactante é sua capacidade de permanecer relevante, apesar de falar de eventos ocorridos há tanto tempo. Anders desafia o leitor a não apenas refletir sobre o passado, mas também a considerar como as lições aprendidas com o Holocausto podem ser aplicadas às questões éticas e morais que enfrentamos hoje. A leitura do livro é uma chamada à ação, um lembrete de que a história nunca está realmente no passado e que devemos ser vigilantes contra a banalização do mal em todas as suas formas. Em minha experiência de leitura, Nós, Filhos de Eichmann foi profundamente comovente. A obra não é apenas um relato histórico, mas também uma obra de filosofia moral e social que desafia o leitor a examinar sua própria consciência e a considerar como as escolhas individuais e coletivas moldam o destino da humanidade. Günther Anders nos presenteia com uma leitura desafiadora, porém necessária, que nos leva a questionar nossa própria humanidade e a responsabilidade que temos na construção de um mundo mais ético. Enfim, é uma obra notável que permanece como um farol de sabedoria em um mundo em constante evolução. Sua capacidade de nos fazer refletir sobre eventos do passado e relacioná-los ao nosso presente é uma demonstração do poder duradouro da literatura como ferramenta de consciência e transformação. Recomendo.

    9 curtidas

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    Günther Anders

    Günther Anders, pseudônimo de Günther Siegmund Stern, foi um jornalista, filósofo e ensaísta alemão de origem judaica. Doutorou-se em filosofia, em 1923, sob a orientação de Edmund Husserl, tendo sido aluno de Heidegger e Cassirer. Foi colega de Hannah Arendt, com quem foi casado entre 1929 e 1936. No Brasil, é mais conhecido por seu ensaio Kafka: Pró & Contra (1946), no qual reavalia a importância de Franz Kafka no contexto imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, quando a obra do escritor tcheco corria o risco de ser mal compreendida ou reduzida a interpretações simplistas. O ensaio — um clássico da crítica literária — foi publicado no Brasil em 1968, por sugestão de Anatol Rosenfeld ao tradutor Modesto Carone, que a partir de então deu início à sua série de traduções da obra de Kafka para o português. O ensaio foi retraduzido, pelo mesmo tradutor, em 2007. De sua obra filosófica, merece destaque Die Antiquiertheit des Menschen ('A Obsolescência do Homem'), seu livro mais notável, no qual expõe uma crítica à padronização do mundo, na era da comunicação de massa, e manifesta o trauma humano experimentado com os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki. Anders argumenta contra a neutralidade da técnica e foi um dos primeiros pensadores a abordar os meios de comunicação de massa (especialmente o rádio e a televisão) como um problema filosófico. Por algum tempo, Günther Anders ligou-se ao grupo da Escola de Frankfurt, do qual emergiu uma corrente de pensamento geralmente considerada como fundadora ou paradigmática da filosofia social ou teoria crítica.

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    Günther Anders