Bukowski é como uma válvula de escape. Não importa se a convivência com ele, a vida real, a rotina de um dia após o outro, fossem insuportáveis e pesadas. Não, não importa. É indiferente.
Bukowski ganhou meu coração porque suas palavras sempre me fazem companhia em meio ao caos e solidão.
A obra nada mais é que um compilado de cartas escritas para os mais diversos destinatários, desde autores, editoras, críticos, acadêmicos até leitores, amigos, amores e desafetos anônimos.
É visível que Bukowski escondia, por trás do constante mau humor e opiniões polêmicas, uma personalidade sensível e carente - um homem extremamente preocupado com o julgamento alheio.
Além disso, revela a faceta que lhe foi imposta por sua condição social: o trabalhador angustiado, esfomeado que busca no álcool e na arte o seu refúgio.
Apesar de, em diversas cartas, repudiar as técnicas de escrita, demonstra aptidão para condução da narrativa e convencimento do leitor.
Revela o zelo e a metodologia empregados em seus romances. Não por acaso, percebemos claramente, apesar das obras com teor preponderantemente autobiográfico, a distinção entre autor e personagem, entre a vida cotidiana, a indignação real, e a ficção; entre a vivência e a construção de um enredo. Engana-se quem acha que sua escrita é meramente libertina e desenfreada.
Além de um escritor perspicaz, capaz de transcrever o banal de forma delicadamente elaborada - criando um texto simples e por demais acessível -, Bukowski é gente como a gente. É o resultado de uma mente colérica submetida a regramentos despropositados, humilhação e opressão.
As cartas são organizadas cronologicamente, possibilitando ao leitor um vislumbre da evolução do autor e de suas experiências.
Conforme as cartas avançam nos anos, vários aspectos se destacam, entre eles, a superação das dificuldades financeiras, a adaptação à prática mercadológica das editoras, o reconhecimento enquanto autor, os efeitos da guerra, a ascensão na Europa, mas, também, o fracasso nos relacionamentos, o plágio, as críticas, o vício, a jogatina, a solidão, a doença e, evidentemente, o envelhecimento.
Por fim, o livro permite uma conversa com o velho Buk, com garrafas e garrafas de cerveja, máquinas de escrever antiquadas, gatos ronronando aos nossos pés e uma nuvem de nicotina.
Tão sinceras são as cartas que é possível presumir quais foram escritas em estado de sobriedade e quais exalavam álcool.