É um bom livro, porém é diferente do que eu esperava. Logo, se a expectativa não foi atendida, deve-se ao fato de que eu queria algo diferente, não à qualidade do livro.
A Enchente de 24 é bastante documental, como um grande reportagem jornalística. Afinal, foi escrito por jornalistas experientes. Então quem quiser entender como é quando tudo aconteceu, as falhas, etc, o livro vai atender bem às expectativas.
Eu, no entanto, esperava por algo mais humano. Aprofundamento nos dramas pessoas para que, assim como Daniela Arbex fez em Todo Dia A Mesma Noite, o leitor se coloque no lugar daquelas pessoas, entenda a gravidade e sofra junto para que nunca mais ocorra.
Também sou jornalista, vi familiares, amigos, colegas de trabalho e incontáveis desconhecidos perderem tudo o que tinham, ficarem desabrigados, passarem fome e frio. Vi animais mortos durante dias a fio, caminhei quilômetros sobre os trilhos da Trensurb vendo as cidades submersas, pessoas e animais pedindo socorro. Estive em casas destruídas onde pessoas buscavam recuperar qualquer garfo e faça que pudesse ter ficado no terreno, conversei com pessoas que perderam pessoas. Enfim, poderia citar inúmeros outros casos que presenciei durante esses meses, e que esperei encontrar também nessas páginas, porém, isso não aconteceu. Os casos humanos nos livros são passagens rápidas sem, na minha opinião, a força necessária para emocionar quem estivesse lendo.
Dito isto, a falta dessas histórias de modo algum é uma crítica aos autores. O trabalho deles teve uma proposta diferente do que eu esperava e foi realizada com êxito. Ainda recomendo a todos, principalmente quem for de Porto Alegre, que leia este livro.
Obs: caso alguém leia esta minha "resenha" e se pergunte: "se você também é jornalista e presenciou tudo isso, porque não escreve seu próprio livro ao invés de criticar o dos outros?".
Em primeiro lugar, repito que não estou criticando. O trabalho feito aqui está muito bem feito, apenas é diferente do que pensei que seria.
Em segundo lugar, é isso mesmo. Eu deveria recapitular todas essas histórias e escrever meu próprio livro com todas essas histórias que presenciei nos Vales do Paranhana, Sinos e Caí. Só assim atenderia às minhas expectativas. Porém, não irei.