Livro: O céu da selva {2023}
Autora: Elaine Vilar Madruga {Cuba, 1989-}
Tradução: Marina Waqil
Editora: Instante
240p.
Se você se interessa por:
-> horror latino-americano escrito por mulheres;
-> literatura contemporânea em diálogo com as tragédias gregas;
-> o eterno retorno nietzschiano;
-> Mariana Enriquez, Jorge Luis Borges, Irene Solà, Horacio Quiroga e autores desse quilate,
"O céu na selva" é o livro que você procura.
Uma mulher grávida e sua filha em fuga - da pobreza, da violência, do desamparo, de um governo ditatorial inespecífico, porém trivial na história latino-americana. Elas fogem pela selva, que as acolhe, as nina. Abrigo, comida, água, a paz que tanto buscam. A selva é uma mãe, mas uma mãe faminta, exigente. Já dizia Santa Tereza D'ávila, é justo que muito custe o que muito vale. Qual o preço da selva?
Elaine Vilar Madruga havia me atraído com seu livro anterior, "A Tirania das Moscas", porém com "O Céu da Selva", ela assegurou seu lugar entre minhas autoras contemporâneas diletas. Uma autora com pleno controle da narrativa, uma escrita magnetizante, vira-páginas, imaginativa. Esse livro, minhas amigas, é um desnorteamento estético-literário. E quando aludo a Borges e à rainha Mariana Enriquez, não estou para brincadeira (até porque não sou publicitária desgastando palavras para ludibriar leitores incautos).
Não acredito que spoilers atrapalhem a fruição de nada, muito menos de um livro tão bem urdido, mas acredito também que muito do meu deslumbramento foi encaixar peça a peça de um texto de idas e vindas no tempo, circular, de muitas vozes, com direito até a um coro trágico. Por isso confiem em mim quando recomendo com tanto gosto essa leitura, mesmo sem dar tantos detalhes da trama. Duas dicas, porém:
nada sobra, nada é gratuito, há piscadelas para o leitor atento, então registrem;
a epígrafe de Medeia, a personagem Ifigênia, toda uma camada de sofisticação ao horror que se encontra escancarado.
Leiam!
" - Lembro. De tudo. O bom seria não lembrar de tudo, cacete. Mas os velhos, se não estão caindo aos pedaços, são como elefantes, lentos e pacientes. Mastigamos as recordações, e é assim que nos mantemos vivos." p. 42