Melhores crônicas Artur Azevedo -

    Artur Azevedo

    Global Editora
    2015
    323 páginas
    10h 46m
    ISBN-13: 9789152168257
    Português Brasileiro

    Para aqueles que só conseguem identificar Artur Azevedo como o teatrólogo, esta é a hora de lembrar que ele também era jornalista, poeta e contista. Apaixonado pelos palcos, escreveu não apenas algumas joias da nossa dramaturgia como também uma série de matérias jornalísticas sobre o meio artístico de sua época. Sempre escrevendo para periódicos e almanaques culturais, o autor deixou espalhadas mais de quatro mil crônicas, além de dezenas de artigos, narrativas breves e poemas, conforme citam as selecionadoras no prefácio dessa coletânea. Para selecionarem as Melhores Crônicas Artur Azevedo, Orna Messer Levin e Larissa de Oliveira Neves valeram-se de seus estudos sobre a obra do autor e recolheram textos inéditos que foram transcritos depois de selecionados diretamente nos microfilmes dos jornais pertencentes ao acervo do Arquivo Edgar Leuenroth, da Unicamp. O resultado é um livro denso no sentido de ser profundo, em que o leitor encontrará uma variedade de temas e preocupações representativas da versatilidade de Artur Azevedo. Para um maior entendimento, a obra está dividida, em forma de capítulos, pelos jornais em que o autor se destacou com a publicação de suas crônicas. "Artur de Azevedo soube, como poucos, captar das coisas passageiras um ponto de observação sobre o momento presente. Suas crônicas, em tom de diálogo permanente com os leitores contemporâneos, parecem projetar vozes de uma conversa de rua, nascida ao acaso, e que se mostra bastante reveladora das preocupações do homem comum", descrevem as selecionadoras no prefácio dessa antologia. A obra traz também a biografia e uma extensa bibliografia do autor bem como um prefácio esclarecedor para quem quer conhecer, de fato, Artur Azevedo.

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    Henrique Luiz Fendrich22/06/2023Resenhou um livro
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    Artur Azevedo, o cronista

    A crônica anterior a Rubem Braga ainda é um longo espaço a ser preenchido, mas repleto de achados interessantes, que são a recompensa de quem tenta desbravar esse período. O nome de Artur Azevedo, por exemplo, é praticamente ignorado como cronista, pois geralmente se fala apenas da sua produção teatral. Mas ele merece figurar como um cronista do seu período. Artur Azevedo chega a chamar de artigo, de “artiguete” e de folhetim o tipo de texto que fazia para a imprensa carioca, mas não nos enganemos: é ainda a boa e velha crônica, sem tirar nem pôr. Não só o seu texto tem características que ainda hoje são valorizadas no gênero como a própria postura de Artur diante da necessidade de escrever é típica de um cronista: “Um jornalista nas minhas condições necessita sair para a rua. Só lá poderá impressioná-lo um fato, uma circunstância qualquer. Muitas vezes um indivíduo que passa, uma frase que apanhamos no ar, um livro que vemos exposto numa vitrine, fornece-nos assunto”. Eis aí a velha mítica da alma encantadora das ruas, exposta muitos anos antes de João do Rio. Como qualquer cronista, também Artur sofria às vezes com a falta de assunto, e às vezes o que faltava era crônica para tantos assuntos. São males que afetam quem escreve muito, e Artur escreveu mais de 4 mil crônicas, em mais de três décadas de colaboração na imprensa! Em boa hora, uma seleta dessas crônicas foi organizada na coleção Melhores Crônicas, editada pela Global. As crônicas do livro começam em 1884 e vão até pouco antes da morte do autor, em 1908. Pegam, portanto, um período considerável da própria história do Brasil. Ao começar a escrever crônicas, Artur tinha diante de si um Brasil ainda com imperador e escravizados. É interessante que, nas crônicas de alguns jornais, Artur confessava ao leitor que o objetivo do seu texto era tratar de tudo, menos de política. Mas às vezes era impossível evitar, e então ele mesmo dizia que, embora não entendesse de nada, qualquer um que tenha boa-vontade e um dicionário Larousse pode perfeitamente falar de muita coisa sem entender coisa alguma. Entre as crônicas que não escaparam da política, chamam a atenção aquelas que tratam da escravidão. Ali lemos trechos como esse, anteriores à abolição: “A gente empobrece sem os escravos? Pois que empobreça! Deve ser consoladora a miséria nos braços da liberdade”. Para ele, era preciso libertar os negros do cativeiro e os demais da vergonha de ter escravizados. Ao criticar religiosos que libertavam escravizados só quando visto que eles seriam libertados de qualquer jeito, Artur escreve: “Tenho ainda esperanças de ver desaparecer o último frade antes do último escravo”. Mas, em geral, ele não pretende ser “combativo” na crônica, diz que fala “asneiras” inocentemente, “sem a pretensão de impingi-las como axiomas filosóficos”. Geralmente, a crônica de Artur se atém a acontecimentos sociais da semana, na estratégia que foi comum ao gênero no tempo dos folhetins. De certa forma, ele “traduz” algumas notícias, isto é, “troca em miúdos”, mostra aquilo que a linguagem do jornalismo não é capaz de dizer – aproveita, enfim, a liberdade da crônica para mostra o que está por trás das retóricas oficiais. Naturalmente, faz isso com bom humor. Ao escolher um assunto da semana, diz: “De um fato apenas se falou, mas esse naturalmente escapa ao inteiro de um cronista discreto e generoso. Aposto que adivinham ao que me refiro… pois fiquem sabendo que lhes não dou o gostinho de explorar este escândalo. Demais, ao que me informaram, ele é solteiro e ela viúva”. Às vezes, esse seu humor era deliciosamente venenoso: “Para terminar, duas más notícias: Castagneto, o nosso apreciado pintor de marinhas, parte para Itália, e Visconde Coaraci publicou uma seleta de autores clássicos”. Também Artur recebia respostas às suas crônicas, geralmente falando mal, e essas respostas rendiam novas crônicas, como acontece até hoje. Ele também apresenta poetas (inclusive Bilac, ainda desconhecido), comenta livros publicados, discute criticamente o teatro, conhece o futebol, dá voz a uma colcha de inverno, em um tipo de exercício comum a Machado, mas não a outros cronistas, e, infelizmente, repete também alguns estereótipos sobre a mulher (não é, bem sabemos, um escritor do nosso tempo). O livro, em suma, dá uma ótima amostra do que foi a extensa produção de Artur Azevedo na crônica e deveria ser suficiente para garantir o espaço dele na trajetória do gênero.

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