Cabanagem - A Revolução Popular na Amazônia

    Pasquale di Paolo

    ed.ufpa
    2025
    402 páginas
    13h 24m
    ISBN-13: 9786589745105
    Português Brasileiro

    A partir da tese de que a Cabanagem (1835-1840) é a revolução popular mais importante da Amazônia e uma das mais significativas do Brasil, Pasquale Di Paolo apresenta uma nova abordagem sobre o movimento cabano, em que o povo é o protagonista, superando tanto a abordagem elitista como a concepção classista, baseadas no sistema capitalista clássico. O livro é composto de seis capítulos divididos em duas partes: na primeira, são investigados os contextos internacional, nacional e regional da Revolução Cabana; na segunda, é narrada a explosão do povo na Amazônia pela saturação da paciência cabocla diante da sistemática negação ao direito elementar da cidadania, analisando suas três fases revolucionárias (momento político, social e luta de resistência). A obra busca recuperar a memória histórica amazônica e estimular o estudo e a pesquisa desse acontecimento singular, permitindo o reencontro do povo com suas próprias raízes.

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    R .08/03/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Essa obra foi premiada em 1985 com o primeiro lugar em um concurso nacional de monografias, promovido pelo Conselho Estadual de Cultura do Pará, por ocasião dos 150 anos da Cabanagem. Pasquale Di Paolo, o autor, é sociólogo e professor da UFPA, na ocasião. A abordagem traz um olhar sobre a Cabanagem (em suas origens, ideais e consequências) valorizando-a como revolução. Esse é o pensamento chave e inspiração. Assunto de divergências históricas e, principalmente, até a publicação desse livro, sem ainda um registro valoroso e detalhado nessa concepção. Para melhor compreensão das pretensões, basta fazer um paralelo entre a principal obra historiográfica do tema e a proposta do livro. Domingos Raiol tem a visão de motins ou rebeliões (como se registra no título de sua obra, "Motins Políticos") enquanto Pasquale Di Paolo propõem a revolução nortista (enunciado no subtítulo do livro, "A Revolução Popular da Amazônia"). O que influencia as diferentes percepções é a estruturação política e cultural. Raiol enfatiza que isso foi determinante na derrota dos cabanos (o que está correto), porém, pela falta do suporte cultural e político-governamental, limita sua percepção essencialmente a revoltas armadas, de insatisfação, que não chegou a se torna revolução (algo que atingisse todas as classes e tivesse um projeto político unificado). Pasquale traz a proposição revolucionária que unificou a Amazônia em um ideal libertário e, mesmo que tenha sido derrotada, se projetou e deixou raízes que viriam a influenciar a ideologia no império e História do Brasil. Para chegar a essa valorização o autor considerou alguns aspectos. O primeiro é a inserção da revolução no cenário internacional, nacional e regional. A Cabanagem respondia a uma ideologia que acompanhava todos esses contextos. Em linhas gerais, no aspecto internacional, podemos citar a Revolução Francesa (1789), a independência dos EUA (1776), os movimentos libertários nas Américas e Europa (como na Argentina em 1776 e na Grécia em 1822). No aspecto nacional, ocorreram muitas lutas que fervilharam no país (como a Revolução Pernambucana em 1824). Regionalmente, tem destaque a adesão do Pará ao separatismo (que havia gerado episódios que ficaram incutidos na determinação e inspiração cabana, como o massacre do brigue Palhaço em 1823), a questão indígena agravada com a expulsão dos jesuítas, e a cultura favorável à república e abolição da escravatura. Todos movimentos de lutas revolucionárias contra um conservadorismo e absolutismo resistentes. A Cabanagem tinha essa conotação, entre outras coisas. Em seu desenvolvimento vemos: luta política, luta social e luta de resistência. Ressaltando-se o separatismo na questão política, a cidadania na questão social e a luta resistência contra as forças legalistas. Está caracterizada uma revolução. O autor disserta sobre a visão elitista sobre o movimento, que contribuiu para esvazia-la de suas características e fragmentá-la a um ponto de rebeliões (ou motins, segundo Raiol), com uma ideologia de desvalorização. A concepção de Pasquale é popular, valorizando a consciência e disposição do povo para mudanças. O livro é rico em histórias e orquestrações políticas que, para um leigo como eu, trouxeram curiosidades e descobertas. As mais relevantes falam das causas da derrota dos cabanos que, na minha ignorância história (mas de grande vontade de descobertas) ficou marcada por personagens que associei a derrocada, como o padre Prudêncio Tavares e o general legalista Francisco Soares Andréa. O primeiro, para mim, simboliza a resistência anti-cabana que o clero teve. Ele atuava em Cametá e exerceu forte influência a não adesão da população ao movimento (até com combates que derrotaram e mataram mais de cem cabanos). Transfigura-se nisso a oposição do clero à Cabanagem, que foi decisivo pela ausência do suporte intelectual ao seu governo. Outros sacerdotes tinham essa mesma visão, como em Abaeté e Vigia. O segundo, o general, mostrou a postura legalista para derrota dos cabanos. O caminho foi terrível e genocida, vendo-se a formação de tropas com o livre-arbítrio para a mortandade, contando com mercenários contratados, com julgamento marcial severo imposto para todos de 15 anos para cima, estabelecendo isolamento de Belém, contando com a associação ao clero interesseiro contra os revolucionários e a ideologia elitista espalhada para comprensão do movimento. Segundo o autor, houve até estímulos de visão racista. Entre episódios descritos, foi interessante ler sobre os massacres em Vigia e no brigue Palhaço, além do plano de vingança do padre Prudêncio por conta da morte de alguns padres em retirada da região. São impressões sobre a obra, que tem muitos outros aspectos para se descobrir. No final o autor realça os ideais libertários dos cabanos que, embora derrotados, influenciaram toda a história subsequente. O último navio-negreiro a aportar em Belém, por exemplo, foi um ano antes da Cabanagem. Essa não foi uma luta de selvagens vindos das cabanas (olhar elitista), mas de valorosos brasileiros em busca de seus direitos (revolucionários enquanto povo marginalizado). Algo que foge do contexto do livro é que gostaria de encontrar uma obra que fosse mas atenta e detalhada na descrição do povo - similar ao que Euclides da Cunha fez em "Os Sertões" sobre os sertanejo). Será que tem? Será que as centenárias obras de Raiol trazem isso? Não sei, mas quero conhecer cada vez mais dessa valorosa história. Gostei e viajei muito, equivocado ou não.

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