Li com curiosidade esse texto relativamente curto, que acompanha Do Contrato Social no primeiro volume dedicado a Jean-Jacques Rousseau na Coleção Os Pensadores. O motivo da curiosidade é o subtítulo da obra: No qual se fala da melodia e da imitação musical. Queria muito saber o que Rousseau tinha a dizer sobre a música. Afinal ele mesmo foi músico, chegando a compor óperas e até a inventar um novo modo de notação musical.
E de fato, o filósofo apresenta algumas ideias interessantes sobre a música, como a sua proposição de que todas as consonâncias são, na verdade, convenções estabelecidas pelo hábito:
Naturalmente, só existe a harmonia do uníssono.
A leitura valeu também por essa divertida informação citada em uma nota de Lourival Gomes Machado:
A medicina popular recomendava, para curar os efeitos da picada venenosa da tarântula, que o paciente dançasse ao som de música, afirmando outros que o envenenado se sentia impelido a dançar. Daí a tarantela tiraria seu nome.
Mas Rousseau apresenta outras sacações interessantes:
Todos os povos que possuem instrumentos de corda são forçados a afiná-los por meio de consonâncias, mas aqueles que não os têm possuem nos seus cantos inflexões que consideramos desafinadas por não entrarem no nosso sistema e por não podermos grafá-las.
A parte da música, contudo, é apenas secundária no ensaio que é destinado a estudar a origem das línguas:
As do sul tiveram de ser vivas, sonoras, acentuadas, eloquentes e frequentemente obscuras, devido à energia. As do norte surdas, rudes, articuladas, gritantes, monótonas e claras, devido antes à força das palavras do que a uma boa construção.
Nossas línguas valem mais escritas do que faladas; leem-nos com mais prazer do que nos escutam. Pelo contrário, as línguas orientais perdem, escritas, sua vida e calor. O sentido só em parte está nas palavras, toda a sua força reside nos acentos. Julgar o gênio dos orientais pelos seus livros é querer pintar um homem tendo por modelo seu cadáver.
A palavra distingue os homens entre os animais; a linguagem, as nações entre si não se sabe de onde é um homem antes de ter ele falado.
Quando se fala, transmitem-se os sentimentos, e quando se escreve, as ideias.
Como não poderia deixar de ser, esse texto escrito por volta de 1759 (a data é incerta) já está bem defasado. Não deixa de ser interessante justamente pela verve de Rousseau, com suas frases de efeito e máximas:
Como nos deixamos emocionar pela piedade? Transportando-nos para fora de nós mesmos, identificando-nos com o sofredor.
O selvagem é caçador; o bárbaro, pastor; o homem civilizado, agricultor.
E vamos para o segundo volume de Rousseau!
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