Philip Theophrastus AureolusBombastus von Hohenheim – que posteriormente viria a ser conhecido como Paracelso – encontra-se na fronteira entre o medieval e o moderno; um nome familiar, mas um homem difícil de divisar ou compreender. Contemporâneo de Lutero, ele foi inimigo da medicina oficial, crítico das universidades (“em todas as escolas alemãs não se consegue aprender tanto quanto na feira de Frankfurt”), cirurgião do exercito e alquimista. Os mitos em torno da sua figura – da sua luta contra a praga realizada além-túmulo, em Salzburgo no século XIX, até sua barganha faustiana com o demônio para recobrar a juventude – acabaram por se tornar bem mais duradouros do que a sua história real. Mesmo durante a sua vida, rumores diziam que ele cavalgava em cavalo branco mágico, e que guardava o elixir da vida no punho da sua espada. Mas quem foi Paracelso e no que ele de fato acreditava, o que ele realmente praticava? Ele tem sido visto como charlatão, mas também como fundador da ciência moderna, mas o livro de Philip Ball revela um homem mais complexo – um que usava seus olhos e ouvidos para aprender com a natureza como curar, e que escreveu livros influentes sobre medicina, cirurgia, alquimia e teologia, enquanto levava uma vida combativa, errante e embriagada. Acima de tudo, Ball revela um homem que foi produto do seu tempo – uma era de grandes mudanças, durante a qual a cristandade se dividiu, os clássicos foram redescobertos e a Terra foi retirada do centro do Cosmos – e cuja aproximação entre disciplinas aparentemente tão diferentes como alquimia e biologia sinalizou o início da era do racionalismo. A vida de Paracelso de acordo com Philip Ball revela a riqueza, complexidade e o caos da Europa do século XVI, em uma obra biográfica e histórica formidável.
Médico do Demônio - Paracelso e o Mundo da Magia e da Ciência Renascentista
Philip Ball
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Único livro autointitulado biográfico sobre o personagem Paracelso, médico suíço do período renascentista (1493-1541), publicado em português. É também um dos poucos, talvez o único, que tenta ser imparcial com essa figura médica lendária e tenta explicar e analisar sua trajetória de vida relativa às crenças e vivências do período medieval. Talvez, por possuir este objetivo, peque em relação à descrição de suas contribuições. Paracelso, pseudônimo de Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, é uma figura histórica polêmica, assim como o foi no período em que viveu. Até hoje, ainda se discute se sua escrita prolífica impactou realmente a ciência ou apenas o ocultismo, o que o autor também não deixa claro em seu texto. O cirurgião e o inquisidor só diferiam por sua motivação: fora isso, seus conjuntos de facas, serras e pinças para cortar, perfurar, queimar e amputar em muito se pareciam. Pag 45 Cap. 4: O bastão e a Cobra As polêmicas em torno do seu nome são inúmeras, pois, para começar, Paracelso se posicionava contra o estereótipo médico da época: 1. Não se vestia com sedas e pompas 2. Defendia que o médico deveria sempre viajar para aprender com o povo e não com o conhecimento fechado das faculdades 3. Acreditava no empirismo para evolução dos tratamentos médicos 4. Produzia suas próprias poções e elixires, indo contra a relação entre médicos e boticários Paracelso tem a convicção de que os médicos não são apenas tolos equivocados mas enganadores deliberados que sabem que a sua medicina não tem utilidade, mas persistem com ela, pois lhe traz lucro. Pag. 156. Cap. 9: Elixir e quintessência 5. Falava o que pensava, apresentando pouco tato político e social 6. Atuava também com procedimentos cirúrgicos, sujando as mãos, algo impensável numa época em que havia distinção entre médicos e cirurgiões-dentistas 7. Acreditava que as respostas estavam na natureza, nas estrelas e no universo e que, o bom médico precisava estudar alquimia, astronomia e astrologia para entender as doenças Talvez com base neste último, ainda hoje Paracelso seja tão ligado ao mundo do Ocultismo, fato que, lá atrás, também serviu para desacreditá-lo perante seus pares. Ele ainda desprezava o ensino tradicional e a argumentação clássica. Preferia a linguagem do povo, falava em alemão ao invés do latim (embora soubesse os dois idiomas), mas sempre possuía dificuldade quando em debates com outros médicos, exatamente por essa dificuldade com o ensino regular catedrático. Essa ideia de que a matéria ganha existência através de um tipo de revelação alquímica é, fundamentalmente, não cientifica, mas teológica. (...) Para Paracelso, o Gênesis era um conto de alquimia (...). Pg 243. Cap. 14: Além das maravilhas Posto isso, o livro tem seus méritos em explicar, a cada curva da vida de Paracelso, a relação entre o seu posicionamento com o pensamento da época. Depreende-se que enquanto as crenças revolucionárias e a língua ferina o afastavam dos catedráticos e médicos ortodoxos, sua eficácia em resolver problemas, seus preços e linguagem mais acessível o aproximavam do povo. Ganhava fama em cada problema de saúde que resolvia e em seus discursos que buscavam relacionar a cura à natureza e às conjunções (alinhamento de estrelas e planetas). Numa época em que a astrologia e a astronomia ainda se confundiam, Paracelso oferecia mais que a cura palpável mas também um efeito placebo, talvez, ao inserir o ocultismo em suas curas. Mas a grande atração da astrologia era seu poder explicador. A explosão de interesse pelas artes ocultas (...) estava relacionada aos medos e dificuldades da época (...). O único antídoto para o desespero era a ilusão de controle, e isso a astrologia providenciava. Pag 269. Cap. 15 Estrela e ascendente Retrata bem, como livro histórico-científico, como a revolução de Lutero e dos anabatistas em meio à semente do pensamento renascentista, moldava em parte, as atuações de Paracelso. Em outros momentos, ainda que fugazes, traz dados contraditórios, pois o mesmo P. que contradiz Lutero age e fala de forma bem parecida, sendo ambos muito extremistas e de pouco cuidado com o modo como suas palavras impactavam os ouvintes. Lutero estava preparado para encorajar as reações extremadas dos príncipes, e suas palavras chocavam até mesmo aqueles que eram convocados para executar suas decisões: (...) Portanto, a qualquer um deve ser permitido castigar, assassinar, esfaquear, abertamente ou não, lembrando que nada pode ser mais venenoso, diabólico ou ameaçador do que um rebelde. Pg 127. Cap 7 Revolução sob o signo do Sapato Como livro biográfico, o autor peca repetidamente. Philip Ball é um escritor de ciência e não biografista, o que se reflete em sua escrita que não flui e parece se posicionar em cima do muro entre descrever a trajetória do médico e explicar a época renascentista. Além disso, ao mesmo tempo em que abandona a biografia e mergulha em explicações sobre minérios, astronomia, química e outros, também não consegue identificar se Paracelso contribuiu ou não para a ciência, sempre trazendo a mancha do ocultismo para as suas realizações. Desta forma, o livro ainda é a melhor opção bibliográfica que se tem hoje disponível sobre Paracelso. Despido de um viés puramente ocultista, consegue transitar entre a vida do médico e os conceitos renascentistas de alquimia, metalurgia e transmutação, além de tentar explicar os confusos neologismos do médico suíço. Não é uma bibliografia perfeita mas, caso lido com atenção e carinho, pode-se aproveitar muito como conhecimento científico e histórico, além de importantes conselhos aos médicos: aprender com os pacientes e ouvi-los, pois a medicina se encontra em todo o lugar e não apenas nas universidades.
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