Obra em prosa, [...], corresponde a uma das realizações literárias que melhor situam José Régio na modernidade. Apresenta-nos um narrador dotado de uma «tendência subjetivista» e melancólica que não resiste ao ensimesmamento e a indagar as subtis malhas que compõem o seu comportamento, perdendo-se em «jogos de imaginação» em que um eu se autoanalisa nas suas pequenas hipocrisias, escaninhos obscuros, fingimentos, desdobramentos, inquietações insólitas, decomposição de gestos e expressões. Esta análise de minudências, quase vertígica, dobra-se num barroquismo verbal que acompanha «as aracnídeas arquiteturas da [...] imaginação» e a apresentação de pontos de vista divergentes sobre a realidade seguindo cada um quatro dos elementos (o Sombra, Luís Afonso, Pedro Serra e Jaime Franco) que compõem o pequeno cenáculo que protagoniza a narrativa. Assim, por exemplo, da oposição entre Jaime Franco e Luís Afonso, oposição que simbolicamente se eleva a conflito entre sinceridade e fingimento, surte uma conceção antitética de ironia, que pode ser entendida como chave de leitura deste Jogo psicológico da Cabra Cega: para aquele, «a verdadeira ironia brota da visão compreensiva dum conflito perpétuo, da apreensão simultânea de aspetos adversos em atividade... É pelo sentimento, pela paixão que se afirma ou se nega. É pela razão que se nem nega nem afirma. É pela inteligência, a verdadeira, que se aceita sem afirmar nem negar... [...] Ele [o ironista] não só diz o contrário do que pensa! Pensa também o contrário do que pensa, e põe-se à margem da vida para a julgar de fora, compreendendo ao mesmo tempo que não pode sair da vida.»
Jogo da cabra cega -
José Régio
Portugália
1963
435 páginas
14h 30m
ISBN-1: 0
Português
Edições (1)
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