Qorpo Santo se propõe a escrever teatro do absurdo antes mesmo do teatro do absurdo existir. Como tal, é explorado hábitos que não fazem sentido, se esforçando para justificar esses costumes. Ao passo que, pela intensidade do sem sentido ou do grotesco, a história resulta em momentos cômicos.
Mateus e Mateusa são um casal de idosos com 80 anos, velhos e rabugentos. A convivência e intimidade resultou em apatia, estresse e muitos insultos por ambos. Ainda sobrevivem pílulas de alegria durante a rotina do casal, bem como os momentos de Mateus com suas filhas. Todavia, ao compartilharem o mesmo ambiente, os velhos não se suportam.
Por procedência do gênero, a escrita causa incômodo e desconforto em vários momentos. A relação análoga entre os corpos machucados, que rangem, que atiram, somados às ilustrações, sugerem uma reflexão mais aprofundada sobre este tópico; por que a orelha de Mateus é feita de cera? Seriam eles feitos de outro material?
A leitura é fluida e rápida, a interpretação exige um pouco mais de dedicação. A relação afetiva entre o leitor e as personagens são dinâmicas, afinal em uma cena é despertada a empatia por alguém e, na fala seguinte, por outrem. Não há heróis. O verdadeiro protagonista é a situação em si e o que ela pode te fazer pensar sobre. Velhos costumes e novas reflexões.