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    A Comédia Humana - vol. X - ESTUDO DE COSTUMES, Cena da vida parisiense

    Honoré de Balzac

    Editora Globo
    1990
    683 páginas
    22h 46m
    ISBN-10: 8525006971
    Português Brasileiro
    4.4
    5 avaliações
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    Volume X da Coleção de Balzac, apresenta dois romances: A prima Bete e O primo Pons, consideradas as obras mais poderosas de Balzac. O primo Pons é o parente pobre desprezado, esmagado e explorado pelos parentes ricos, enquanto que a prima Bete, criatura aparentemente não menos humilde, destrói a família inteira por ofensas que dela sofreu. A leitura deste livro não é árida ou penosa. Uma curiosidade: em A Prima Bete, aparece a única personagem brasileira de "A Comédia Humana", apesar do nome francamente espanhol):o milionário Barão Henrique Montes de Montejanos, que tem papel destacado na trama; o barão é moreno, cara fechada, traja-se de acordo com a moda parisiense e usa um grande diamante na gravata…

    Resenhas (3)Ver mais
    Clayton de Souza picture
    Clayton de Souza05/06/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A Comédia humana inteira

    Vol. X Estudos de costumes Cenas da vida parisiense. Esse volume inaugura e finaliza um subtema - pratica que, eventualmente, é comum nesse grande afresco balzaquiano da vida francesa no século XIX. O subtema em questão é Os parentes pobres. É um tanto difícil compreender o que Balzac defende, em termos sociológicos, nesse subtema. Não é claro como Os celibatários (uma visão negativa desses indivíduos que acabam por praticar a "agiotagem de vida", fechando-se para as potencialidades da vivência humana). No subtema aqui tratado, temos duas obras cujos personagens não podiam ser mais opostos entre si (e que nomeiam as duas obras que compõem esse ciclo): A prima Bete e O primo Pons. Eis "os parentes pobres". Talvez o único traço em comum entre tais personagens seja o papel de parasitas que eles desempenham em meio a seus parentes ricos, e os maus tratos que recebem em troca, ainda que de forma indireta (A prima Bete) ou agressivamente clara (O primo Pons); em todo o caso, uma síntese das barreiras de classe que caracterizam a sociedade parisiense da época. Em A prima Bette, acompanhamos a vida atribulada da distinta família Hulot, composta do libertino de bom coração Heitor, o Barão Hulot-d'Ervy, e sua exasperantemente submissa e apaixonada esposa Adelina. Com um filho advogado já casado com a filha de um comerciante abastado chamado Crevel (tão libertino quanto o Barão - e velho como ele), outrora empregado do nosso conhecido Birrotteau (Grandeza e Decadência de César Birrotteau), é contudo sobre a filha mais moça que estão voltadas as preocupações do casal Hulot. Adelina desespera - se por casar a jovem, mas seu pouco dote (dissipado pelo pai, viciado em cortesãs) e as difamações de Crevel sobre sua condição são dois fortes obstáculos no caminho. No início do romance, Balzac já nos expõe o centro da trama, numa cena que concentra todos os elementos fundamentais: nela, Crevel corteja Adelina, tentando atrai-la a um adultério que o vingaria do Barão Hulot, que lhe roubou uma cortesã. Crevel deixa claro que tem influência social sobre a reputação da filha do casal, mas nem isso convence a devotada e devota esposa. Enquanto isso, a prima Bette, solteirona de meia idade, conversa com a jovem Hulot. Esta extrai da prima um segredo: ela mantém um polonês expatriado em sua mansarda, um artista aristocrata de nome Steinbock. O leitor conhecerá a vida infeliz desse jovem conde em companhia de Bette, que o trata com rigidez, mas amando-o profundamente. Ocorrem então duas reviravoltas que definirão os destinos dos personagens e da narração: num desenlace típico dos romances românticos, a jovem Hulot "roubará" o jovem da prima, despertando nessa um insaciável desejo de vingança; por outro lado, o Barão Hulot, desprezado pela cortesã que roubara de Crevel, encontrará em seu caminho a sedutora e terrível Sra. Marneffe, personagem que na gama já expressiva de mulheres sedentas e venais da Comédia Humana, consegue ser a rainha de todas, uma sereia amoral que consegue magnetizar para si a atenção de cinco homens, cada qual mais enganado que o outro nesse jogo de sedução. A sede de vingança de Bette, solteirona pouco atraente e indistinta na família, haverá de se unir à amoralidade lasciva e avidez da Sra. Marneffe, num jogo que ambiciona pouco mais que destruir a família Hulot, ao mesmo tempo que garantir um sustento vitalício às custas dela. A trama desse romance mal arranha o espírito dessa obra (o que, aliás, não é o intuito desse registro de leitura, mais empenhado em estimular a leitura da obra que esgotar suas peculiaridades); porém, de todos os aspectos centrais (a crítica à idolatria pecuniária da burguesia pelo lucro, à amoralidade da vida mundana e dândi de Paris, a análise minuciosa dos mecanismos econômicos dessa sociedade - num interminável jogo especulativo com heranças e rendas vitalícias a juros etc), um aspecto talvez inevitável de ser abordado é a vitalidade dos personagens. Bette é figura que se sobressai, com um ressentimento de cunho social que, guardadas as proporções, nivela em intensidade com o do homem do subterrâneo dostoievskiano. O casal Hulot e Crevel são figuras de grande relevo, embora presas de seus solipsismos - que, levados às últimas consequências por Balzac, os fazem andar pela corda-bamba romântica erguida sobre o inverossímil e o cômico. Contudo, estranhamente, a sra. Marneffe periga rivalizar com Bette em sua vitalidade e força. Sua constituição e tão forte, o autor lhe dá tão mais espaço que a personagem-título, que é de se temer que aquela roube o protagonismo desta nessa grande obra que mistura tão bem comicidade, crítica mordaz, análise profunda e drama extremado. Por fim, vale destacar a aproximação fonética entre os nomes de Heitor Hulot e Victor Hugo, o que sugere uma fonte de inspiração talvez basilar do velho político libertino. O Primo Pons é o segundo romance que dá prosseguimento à seção Os parentes pobres, ao mesmo tempo que lhe dá desfecho. Nessa obra, o leitor será apresentado a esse músico um tanto circunscrito em seu talento, pouco agraciado fisicamente, solteirão, e extranhamente simplório cidadão da cidade mais maliciosa da França. Pons tem dois vícios incuráveis: o hábito de "filar" banquetes nas casas abastadas de seus inúmeros parentes (que são mais "elegíveis" por Pons que por lanços sanguíneos, aliás) e a compulsão por colecionar obras de arte e relíquias de valor histórico e aristocrático. O seu primeiro vício o indisporá com a família Camusot (cujo patriarca - juiz de instrução - praticamente precipitou a morte do jovem Lucien de Rumbempre em Explendores e misérias das cortesãs), especialmente com a Sra. Camusot, velha infame e inescrupulosa que só pensa em casar a filha encalhada e ascender socialmente através da carreira do marido. O segundo vício de Pons, por sua vez, atrairá os olhares cobiçosos de pessoas em seu entorno, em especial os de baixa classe social, como a vil senhoria Sra. Cibot, o especulador Rémonencq e o colecionador e agiota judeu (mais um na Comédia Humana...) Elias Magus, que enxergam na grande coleção de Pons uma ótima oportunidade de enriquecer (os dois primeiros) e ampliar o acervo (Magus). Pairando ao redor desses três, o dr. Poulain e o vil advogado Fraisier enxergam em Pons o degrau que os levará à ascenção social, com o auxílio dos Camusot. Em meio a essa miríade de abutres, aos quais se juntam o ilustre Gaudissart (diretor de teatro onde Pons trabalha) e a cortesã ...., apenas no músico Schmucke o pobre infeliz encontrará uma amizade verdadeira, sendo ambos almas irmãs na simplicidade e pureza, duas verdadeiras flores crescendo no esgoto moral de Paris. Em O primo Pons, a despeito das situações hiperbolicamente dramáticas que mais parecem resquícios do já decadente romantismo, o leitor irá encontrar uma análise impiedosa das relações familiares, dos abismos sociais cavados pelo preconceito, o anseio pelo refinamento aristocrático (materializado pela gula de Pons por banquetes faustosos) e, por fim, o lamento por uma era perdida, cujo sepultamento se deu na Revolução Gloriosa de julho de 1830, de caráter liberal (lamento esse presente também em outras obras, inclusive em A Prima Bette). Balzac enxerga na burguesia empoderada (da qual ele também faz parte, mas buscou sempre renegar - a partir do próprio nome, inclusive) uma ascensão de valores pautados apenas na ânsia pelo lucro. Daí a descrição de burgueses ignorantes que nada entendem de arte e refinamento; reina então um absoluto materialismo cuja finalidade é apenas o acúmulo de capital, como um oroboros, ou seja: uma serpente destinada a tragar a si mesma pelo rabo. Essa é a visão realista (em mais de um sentido) de Balzac, embora sua prosa ainda faça concessões ao romantismo (o adoecimento fatal de Pons por um motivo moral, e o de Schmucke por um motivo correspondente). Tanto aqui quanto em A prima Bette há a busca por analisar uma capital luxuosa e luxuriante que afoga os incautos e premia os astutos. Tudo pode se tornar um possível degrau para a escalada social, mesmo as repartições da justiça ou uma coleção de arte. As almas simples estão fora da equação. Pons e Schmucke são parentes espirituais do cura Birrotteau, que pôde pode recomeçar seu caminho porque habitante de uma província: Tours (ver O cura de Tours). Estivesse em Paris, talvez não chegasse a tanto. Por fim, nesse romance, vale ressaltar alguns pontos, como as semelhanças de Pons com Balzac, também um esteta na arte de colecionar, e as curiosas crenças do autor francês, inclusive defendendo um estudo sobre o ocultismo (que ele enxerga como um ramo que contribuirá bastante para a área da ciência, iludido com a onda de pseudo-cientificismo que haverá de gerar muitos filhos bastardos em fins do século XIX). Os dois romances que compõem Os parentes pobres são o que há de mais Balzac na Comédia Humana, num momento já derradeiro da vida do grande escritor.

    5 curtidas

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    Honoré de Balzac profile picture

    Honoré de Balzac

    Foi um renomado escritor francês. Uma de suas principais obras foi A Comédia Humana, série de romances notáveis e contos em que Balzac demonstra as principais características de seu estilo literário: sentimentos, realidade social, descrições minuciosas, cotidiano da vida burguesa, imaginação e valorização das paixões humanas. Passava aproximadamente 15 horas por dia escrevendo movido a muitas xícaras de café. Casou-se no ano de sua morte com uma polonesa, Eveline Hanska, com quem manteve contato por carta por aproximadamente 15 anos.

    219 Livros
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    Honoré de Balzac