Tudo que você sempre quis saber sobre a vida e não tinha ninguém a quem perguntar, então o Neumann responde. O traço mais marcante em Neumann é o mesmo que se evidenciava em James Hillman: a preocupação com a evolução psicológica dos homens, ambos sempre deixaram claro que nesse sentido as mulheres se viravam muito bem sozinhas, mas que aos homens não era cobrado um amadurecimento circular, apenas algo unilateral. Mesmo com o trabalho e esforço de tantos junguianos nos últimos 60 anos para trazer a tona essa necessidade também ao homem, esse tipo de evolução continua estagnada como bem podemos ver ao nosso redor.
Neumann neste livro é brilhante como usual, ele exemplifica os perigos de se estagnar na consciência matriarcal unilateral para a mulher em virtude da vivência numa sociedade patriarcal igualmente unilateral e o quanto isso se difere dentro da psique entre homens e mulheres, como bem a corrente estagnação dos homens no patriarcalismo e inclusive cita mais de uma vez a tendência do próprio Freud em relação a isso.
Num outro capítulo Neumann discorre sobre a importância da lua e do tempo dentro da consciência, ou melhor, do inconsciente, algo foi relegado ao segundo plano em virtude uma sociedade que valoriza o solar e tiraniza o lunar. Em outro capítulo, ele aplica uma análise arquetípica de A Flauta Mágica de Mozart, não apenas no sentido arquetípico de individuação da obra em si, mas também sua relação com a própria fase da vida do compositor. No capítulo seguinte há o discorrer sobre o arquétipo da Terra/Inferno Feminino relacionado ao Inconsciente contraposto ao Paraíso Masculino da Consciência. Por último, e talvez mais importante, Neumann trata do medo do feminino em todas as fases da vida como impulso ou empecilho de transformação.
Nos último 50 anos, desde que este livro foi pela primeira vez publicado, ocorreram muitas mudanças (a qualidade matriarcal da psique foi mais aceita e elaborada, não restringindo apenas à estrutura patriarcal da psique refletida na sociedade) e outras nem tanto (os homens ainda têm dificuldade na gestão dual da psique), mas no resuldado geral o livro ainda é mais um trabalho magnífico de Erich Neumann.