O livro, originalmente intitulado La Cultura del Barroco: Análisis de una Estructura Histórica, cuja referência se apresenta supracitada, foi escrito por José Antonio Maravall Casesnoves (1911-1986), um intelectual espanhol que possui uma ampla formação: estudou Filosofia, Letras e Direito na Universidade de Murcia (Espanha) . Maravall foi um pesquisador muito influente na Espanha do seu tempo, visto que foi um dos pioneiros na introdução de um campo de estudo ainda incipiente: a História das Ideias. Ele vai tentar aplicar o método do estudo das estruturas (consagrado por Claude Lévi-Strauss e, antes dele, por Ferdinand de Saussure, na área de linguística) ao estudo da mentalidade e do contexto das sociedades nas quais o Barroco se instalou e floresceu, aproximadamente no século XVII.
Para Maravall, o Barroco é um “conceito histórico” (MARAVALL, 1997, p. 42), sendo, portanto, inviável de aplicar a outros marcos temporais e geográficos. Seu surgimento está ligado a uma desestabilidade política, social e econômica de países da metade ocidental da Europa ao longo do século XVII . Esse conceito também pode ser aplicado a algumas manifestações nas colônias americanas e na Europa Oriental, visto que teriam recebido influências dessa metade ocidental.
Seu livro se divide, basicamente, em seis partes: o prólogo e a introdução , a Parte I , a Parte II , a Parte III , a Parte IV e o apêndice . Todos os capítulos são muito bem relacionados e ele retoma frequentemente a exposição da Parte II ao longo do livro. Além disso, todo capítulo tem uma ligação, um link com o próximo, tornando sua argumentação bem lógica e encadeada.
Essa obra de Maravall realmente é inovadora na sua época: ele tenta mostrar que o Barroco não é um fenômeno apenas artístico, mas também social e político, e há todo um debate que procura rever algumas noções cristalizadas acerca do estudo do Barroco. Ofereçamos um exemplo: é comum aprendermos na escola que o Renascimento é uma volta à Antiguidade, o Barroco é uma volta à Idade Média, o Arcadismo é uma volta à Antiguidade, o Romantismo é uma volta à Idade Média; e assim esses dois períodos se interpolam ad infinitum num retorno estilístico a eles, como se esses movimentos posteriores não apresentassem um caráter de inovação, mas de cópia. Maravall critica isso, escrevendo que a cultura cavaleiresca do medievo não retorna à cultura barroca e ainda deixa uma pergunta retórica: “[se,] ao contemplar o mundo social do século XVII, estivéssemos diante de uma sociedade puramente tradicional que repetisse, sem movimento interno, os modos de vida do medievo, qual seria a razão de ser do Barroco?”. Ambas culturas são autônomas, embora apresentem semelhanças que, não necessariamente, desapareceram dos séculos XV-XVI e que apareceram à medida que o Barroco floresce em uma sociedade nobiliárquica, assim como foi a medieval. Lembremo-nos, também, de que nenhuma cultura passa por completa assimilação de outra sem uma clivagem e uma interpretação ativa daquela por esta.
A despeito de Maravall ser inovador nesse aspecto, ele perece de um preconceito artístico condenável hoje em dia, derivado de sua própria concepção do que significa o Barroco (um entrave ao processo de constituição do Estado Moderno): em algumas passagens do livro, ele desqualifica esse movimento, chegando a escrever que ele é uma espécie de kitsch e que
“[...] por isso há nele grandes obras, mas também uma profusão de obras 'medíocres', como não ocorreu em nenhum outro momento até então. Além do mais, ousaria dizer – e talvez isso ajude a explicar quão difícil foi descobrir o Barroco, mais especificamente na grandeza de suas obras culturais – que quase não há nele uma obra de alta qualidade, da Santa Teresa de Bernini, à Pastoral de Poussin, a La Vida es Sueño de Calderón, que, ao lado de sua formulação da mais elevada qualidade, não leve agregado um elemento kitsch” (ibidem, p. 167 – grifo meu).
Embora haja esses problemas de interpretação no texto de Maravall, é necessário passar pela leitura dele quando estudamos o século XVII, pois há uma grande abundância de fontes de época e um debate historiográfico consistente, que nos ajuda a entender de que modos se analisou esse período ao longo da História. Talvez Maravall tenha analisado o Barroco dessa maneira em seu tempo pela aversão a regimes que cerceiam a liberdade e contêm uma carga forte de autoritarismo, visto que ele é oriundo de uma época na qual o franquismo, na Espanha, estava em sua plena forma.