Eros, Tecelão de Mitos -

    Joaquim Brasil Fontes

    Iluminuras
    2003
    608 páginas
    20h 16m
    ISBN-10: 8573211822
    Português Brasileiro

    Uma 'graeca eruditio', um aparato documental e crítico idôneo, e o adequado enquadramento filológico e histórico da matéria - estes três requisitos, que presidem às investigações de grande porte no domínio do saber clássico-humanístico, de tão minguada presença entre nós, autenticam a singular e ousada abordagem deste ensaio.

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    Tatiane Gros04/01/2012Resenhou um livro
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    EROS, TECELÃO DE MITOS. A POESIA DE SAFO DE LESBOS.

    Através da análise feita do livro Eros, tecelão de mitos do autor Joaquim Brasil Fontes, será feito um resumo dos assuntos relacionados á Afrodite / Amor e também sobre a guerra de Tróia. Neste livro, o autor trata da paixão amorosa como se fosse uma doença ou, no contexto mítico, castigo imposto aos mortais pelos celestes; divina fatalidade. Isso se observa na tragédia, na lírica, nos contos ligeiros: no contexto que hoje chamaríamos de literário, o amor, longe de ser um valor positivo, cai sobre os homens e deuses como castigo, maldição, doença. É também como patologia que ele faz sua entrada nos discursos filosóficos e moralizante. Nesse sentido o autor faz a seguinte análise do poema de Safo, Ode a Afrodite, cuja análise de Ragusa, foi comentada: Aphrodite em trono de cores e brilhos, imortal filha de Zeus, urdidora de tramas! a dores e mágoas não dobres, Soberana, meu coração; mas vem até mim, se jamais no passado, ouviste ao longe meu grito, e atendeste, e o palácio do pai abandonado áureo, tu vieste, no carro atrelado: conduziam-te, rápidos, lindos pardais sobre a terra sombria, lado a lado num bater de asas, do céu através dos ares, e pronto chegaram; e tu, Bem-Aventurada, com um sorriso no teu rosto imortal, perguntaste por que eu de novo sofria, por que de novo eu suplicava, e o que para mim eu mais quero, no coração delirante. Quem, de novo, a Persuasiva para teu amor deve trazer? Quem, ó Psappha, te contraria? Pois, se ela foge, logo perseguirá; se recusa presentes, presentes ofertará; se não ama, logo vai te amar, embora não querendo. Vem outra vez – agora! Livra-me desta angústia e alcança para mim, tu mesma, o que o coração mais deseja: sê meu ajudante-em-Combates! (FONTES, 2003) No poema uma voz de mulher dirige-se a Afrodite, filha de Zeus, e solicita esta graça banal: o amor de alguém. Um pequeno acontecimento á margem da história dos gloriosos combates; uma futilidade. Para registrar a irrupção de seus afetos, a poeta ousa convocar o grande aparato das declarações épicas: o vocabulário, o ritmo grandioso e opressivo das súplicas, numa desproporção entre palavras e evento, numa inquietante contaminação de registros discursivos. A suplicante invoca Afrodite, a deusa manifesta-se no interior da própria oração e fala. Os especialistas divergem sobre a interpretação dessa verdadeira teofania ocorrendo no interior do poema: um artifício de estilo? Um sonho? Estaria a poeta evocando uma imagem sagrada, num santuário? Só compreendemos que no passado, a divindade já ouvira seus gritos, em circunstâncias parecidas. Segundo Fontes, Denys Page analisou as palavras da deusa, mostrando a importância da forma “de novo?”, “outra vez?” três vezes repetidas, em três frases diferentes: “Por que tu sofres de novo?”, “De novo, por que suplicas?”, “Quem, de novo, deve a Persuasiva convencer para teu amor?”. Tal repetição conteria um significado, da mesma forma que a tríplice oposição, na penúltima estrofe, acentuada pelos advérbios “logo”, “em breve”. Pois, se ela foge, logo perseguirá; se recusa presentes, presentes ofertará; se não ama, logo vai amar... (ibid, p. ) De acordo com as explicações de Denys Page e as palavras de Afrodite, indicam uma futura inversão de papéis, no pequeno drama amoroso vivido por Safo: “amanhã, tu, minha Psappha, estarás fugindo da mulher que, hoje, persegues”. A ação do verbo “fugir” é estreitamente correlativa, em grego, à de “buscar” ou “perseguir”: amanhã, ela será forçada a seduzir, realizando cada um dos gestos rituais do amoroso: oferecer, por exemplo, os presentes que, hoje, recusa receber. Deslocados os atores de seus lugares, o amado passará a ocupar o ponto onde pulsa a agonia de Eros, fazendo-se amante. A sedução ocupou sempre um lugar importante na arte ou teoria helênica do amor: como presentes e palavras utilizados pelo amante para fascinar o amado. O sorriso de Afrodite ocupa o centro do poema, o poder da deusa concentrado exatamente naquele sorriso encantador, seu ponto nevrálgico; dele partem e para ele convergem sentidos: de um lado, a serena luz dos deuses – imortais, livres de cuidados e angústias; de outro, a suplicante, na vertigem da agonia amorosa. Vida e morte: presas aos lábios de Afrodite. É caracterizado o sorriso da Afrodite, como um toque de humor. A deusa, segundo as palavras de Danys Page, mostra-se um pouco impaciente, mas tolerante, e se diverte, expressando-se num toque de bem-humorada, de maneira a animar a Safo e confortá-la com sua ajuda. Entretanto, o trono de Afrodite, com suas cores e brilhos instáveis, reflete seu modo de ser: cambiante, astucioso, irisado. Em relação ao tempo analisado pelo autor, passa do passado no presente e no futuro: indicando que a estrutura tripartida do poema não é linear: na invocação, existe uma súplica, e ela permeia o texto inteiro. Aparece como passado, na segunda estrofe e, depois, nas palavras da própria deusa. Palavras vindas de ontem, abertas para um amanhã mediado pelo “aqui e agora” do verbo poético: “se hoje ela está fugindo, amanhã perseguirá”. Já se delinea, na amada indiferente, o amoroso que implora uma inversão de papéis nada convencional no complicado jogo erótico dos antigos gregos. Conclui-se que a deusa assume um papel no drama vivido pela poeta, ao envergar as armas, a deusa transfere para o discurso amoroso a dignidade do registro épico: infunde nas palavras da suplicante a respiração tensa das orações guerreiras, o ruído das armas e o zumbir das flechas, os corpos entregues aos combates singulares. O obscuro passado guerreiro está presente aqui, com a emoção amorosa e o próprio poema é, ele mesmo um combate travado no campo das palavras. Safo e Afrodite combatem lado a lado. (ibid, p. ) O próximo poema a ser analisado é uma série de imagens brilhantes, cinéticas, sonoras: exércitos que avançam, soldados em cintilantes armaduras, galopes de cavalos fazendo estremecer a terra. Navios de negras quilhas lançando-se ao largo. Num relâmpago, entre os vazios do texto, Helena, arrastada por uma força invencível, a bordo de uma nau embandeirada, ruma à cidade inimiga. É um batalhão de infantes – ou de cavalheiros - dizem outros que é uma frota de naus a mais linda coisa sobre a terra – para mim, é quem tu amas. E como é fácil tornar clara essa verdade para o mundo, pois aquela que triunfou sobre o humano em beleza, Helena, seu marido, o mais nobre dos homens, abandonou, fez velas rumo a Tróia; para a filha, os pais queridos nem um só pensamento voltou; arrastada [ [por Kýpris [ agora, esta lembrança: Anaktória ] daqui tão distante; um modo de andar que os desejos acorda e cambiantes brilhos, mais eu queria ver, no seu rosto, que soldados com panóplias e carros lídios [em pleno combate] (ibid, p. ) A primeira estrofe já introduz, sob forma tradicionalmente sentenciosa, o tema da composição, que se encerra na última estrofe: sobre Anactória, seu modo de andar, a luz de seu rosto, perpassam, como sombras refulgentes, os carros e os guerreiros lídios, combatendo, cobertos de armaduras. A penúltima estrofe esta quase inteiramente destruída no manuscrito. Onde devia acontecer a passagem do universo da fabula para o mundo de Safo, encontramos graças aos trabalhos de restauração, algumas pistas. Um nome de mulher: Anactória, que sabemos, por testemunhos seguros, ter sido uma das amigas. E dois signos pulsando misteriosamente, no discurso que se rompe, desaparece, e ressurge na última estrofe: “recordação”. Na personagem da princesa grega, as palavras da primeira estrofe ganharam um corpo e uma história, de onde puderam nascer à história de Safo de Lesbos e o corpo de Anactória; e assim, ao reaparecer no final do poema, a sentença estará profundamente transformada, perdendo seu caráter de verdade abstrata revista por um individuo sem passado, igualmente abstrato , o que não significa, entretanto que esse poema seja a dramatização de um saber universal”, aqui, o verbo engendrou um acontecimento único e exemplar, quando, pela força de Eros, Anactória emerge lembrança, sob a forma de luz / movimento; um fantasma resplandece sobrepondo-se à imagem do aparato militar dos grandes guerreiros, que é , também, ímpeto luminoso.

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