A gramática tradicional ocidental não pode ser apenas denominada dogmática, normativa, especulativa, não científica sem levar em consideração seu processo complexo de organização cuja origem remonta à gramática grega. Para a autora, a gramática é “uma disciplina que, pelas próprias condições em que surgiu, aparece com finalidades práticas, mas representa um edifício possível sobre a base de uma disciplinação teórica do pensamento sobre a linguagem” (p. 14). O aparecimento da gramática é “um fato da cultura helenística e dela é característico” (p. 14). A obra, portanto, tem como objetivo avaliar o contexto na qual a gramática grega nasce e se desenvolve, a partir das manifestações dos pensadores gregos, por meio de duas excursões: a) da tradição épica aos primeiros gramáticos e b) dos filósofos a Apolônio díscolo, momento em que se busca o “isolamento de entidades que, à medida que se alteram os interesses e as finalidades, passam a constituir fatos de gramática, sistematizados numa gramática” (p. 15). Depois, então, de discutir algumas concepções da linguagem poética e retórica (a dos oradores), sob o ponto de vista dos sofistas e de Platão, a autora se detém na teoria linguística de Aristóteles que se refere à sistematização das categorias – “elas compreendem todas as palavras possíveis ou declarações possíveis e, assim, correspondentemente, compreendem todos os conceitos e todas as coisas’ (p. 75). Para a autora, o ponto fundamental da teoria aristotélica das categorias “é o pensamento da estrutura da língua como correspondência da estrutura do mundo” (p. 75). A gramática surge na época helenística como uma disciplina “independente, constituindo uma exposição sistemática e metódica dos fatos de língua depreendidos das obras literárias”. (p. 114). Em o Crátilo de Platão, cita-se a “gramática como a téchne, “arte”, a que cabe regular a atribuição das letras na formação dos nomes. No Sofista, a gramática vem como modelo para a dialética; é o sistema regulador da combinação dos gêneros. Ela é a arte que permite a possibilidade da combinação eficaz das letras; é, pois, um sistema de regras que gera enunciados múltiplos a partir de certo número de elementos. É absolutamente importante observar que gramma (letra) não tem, aí, o sentido etimológico de ‘símbolo gráfico’ e designa som, pois Platão diz que, entre letras, algumas não concordam entre si, isto é, recusam união, enquanto outras concordam, isto é, consentem união. Saltando-se para a época helenística, tem-se uma grammatiké que é especificamente um exame dos textos escritos, pois seu objetivo é permitir a memória das obras que representam a criação do espírito grego. É uma disciplina de intuito didático. Constitui um exame de fenomenologia da linguagem, um exame dos fatos da língua. Por isso, ela é definida por Dionísio o Trácio como empeiría , conhecimento empírico”. (p. 114). São os gramáticos alexandrinos, porém, que consolidarão a passagem “das considerações sobre linguagem do terreno filosófico para um terreno específico e bem determinado, o terreno propriamente gramatical”. (p. 117), como é o caso de Dionísio o Trácio, considerado o “verdadeiro organizador da arte da gramática na Antiguidade’. (p. 125).